Crise econômica de 2008 vira cinema com 'Margin Call'
Quebras na bolsa, falência de bancos transnacionais, especulações e instabilidade no mercado financeiro são bombas-relógio do complexo sistema econômico capitalista com o qual praticamente todas as sociedades têm de lidar. No longa Margin Call, que estreia esta noite na Berlinale, o diretor J. C. Chandor exemplifica como os integrantes de Wall Street vivem com essa pressão no dia-a-dia.
Para tratar desse tema abstrato para leigos em economia, Chandor escalou um elenco de peso - Jeremy Irons, Kevin Spacey, Demi Moore e Paul Bettany - para torná-lo compreensível. Na trama, os atores são funcionários de diferentes escalas de um banco de investimentos que está prestes a quebrar em 24 horas.
O filme ocorre dentro de um grande escritório em um arranha céu de Nova York, onde os atores tiveram a oportunidade de ver como Wall Street funciona na prática e quem controla o sistema nervoso da economia mundial:"Há muita hipocrisia em relação às pessoas de Wall Street. Muitos julgam quem trabalha com isso, que eles só pensam em dinheiro. O filme foi uma jornada muito importante para ver como as coisas realmente são, quem são as pessoas que trabalham lá. Acho que depois disso eu não julgo mais elas como antes. A experiência foi muito válida, aprendi um pouco com elas", disse o inglês Paul Bettany.
O personagem de Kevin Spacey, Sam Rogers, passa de vilão a mocinho em função do seu carisma. No filme, ele é o único personagem que aparece fora do ambiente de trabalho, ao lado do seu cão, que está prestes a falecer:"Ser dono de um cachorro é muito importante, pois o sofrimento dele é uma metáfora com o que está acontecendo com a companhia. Todo o tempo e dedicação que ele dedicou está por terminar. O que muitos esquecem é que quem trabalha lá são pessoas comuns, com empregos comuns, que precisam ganhar dinheiro. O filme mostra o lado humano de 2008", explicou.
Jeremy Irons aproveitou para criticar a maneira que a sociedade tem se comportado em relação a dinheiro, afirmando que falta moralidade de maneira geral. E, sem isso, qualquer estrutura está fadada a sucumbir. O diretor completou: "Estamos agindo com muita ganância. A cultura de maneira geral está se baseando nisso, aí sim que o sistema falha, pode ser num país, num banco, numa sociedade."
O debate se estendeu até como a crise econômica afetou o mercado cinematográfico, criando ainda mais dificuldades para o cinema alternativo. Irons, com opinião firme, alegou que as grandes produtoras precisam abraçar produções menores.
"O que ficou mais difícil depois da crise foi a distribuição dos filmes. Se um filme tem pouca divulgação e uma baixa bilheteria nas primeiras duas semanas, ele já sai de cartaz e é reposto por outro. Espero que voltem os tempos em que as companhias investiam em projetos menores com boas histórias. Uma grande franquia pode ter o custo de 10 pequenas histórias que merecem ser contadas. Devemos encontrar um caminho."
Margin Call tem premiere hoje às 19h30min (16h30min no horário de Brasília), no Berlinale Palast.