Em turnê europeia, Lucas Santtana canta o 'brasiliano' que derrete o mundo pela sonoridade
No início da turnê que celebra seus 25 anos de carreira, Lucas Santtana tem encontrado na Europa não apenas plateias entusiasmadas, mas um público pronto para acolher, e muitas vezes ecoar, a reflexão central de seu novo álbum: a necessidade de o Brasil reconhecer que fala uma língua própria, formada no encontro entre matrizes indígenas, africanas e europeias, e portanto distinta daquela introduzida pelo colonizador português.
Essa reflexão se materializa em "Brasiliano", disco lançado em 2026 com 11 faixas e construído deliberadamente como uma obra multilinguística, cantada em oito idiomas: brasiliano (português do Brasil), tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e o crioulo da Guiné-Bissau.
Em cidades como Bonn, Londres e Paris, o debate provocado pela pesquisa linguística que originou o álbum tem ganhado corpo no palco. Em Bonn, a simples menção à "língua brasileira" gerou aplausos imediatos. Em Londres, um espectador retrucou em voz alta: "Você fala português!", encarnando sem perceber o gesto colonial que o disco procura problematizar. A plateia respondeu por Santtana, em coro, com um "cala a boca" espontâneo.
Já na França, onde o músico vive, essa distinção entre o português europeu e o falar brasileiro parece já assimilada.
"Nunca me disseram: 'Tu parles portugais'. Todos dizem: 'Vous parlez brésilian'", conta Lucas Santtana.
Essa convivência cotidiana com o olhar francês revelou algo que, segundo Santtana, os próprios brasileiros raramente percebem: o quanto a nossa língua é amada fora do Brasil. "Eles se derretem pela nossa sonoridade", afirma. "No começo eu dizia: 'Não, no Brasil a gente fala português'. Só depois comecei a me tocar: cara, é diferente."
Esse estranhamento inicial, seguido de admiração externa, o levou a estudar a história da língua e compreender que a distinção entre português e o idioma brasileiro era não apenas real, mas reconhecida em outros países. "A percepção francesa me deu esse norte. Eles amam a nossa língua. E a gente não dá esse valor."
A origem de "Brasiliano"
Uma das camadas mais ricas do disco nasce justamente de sua investigação linguística. Santtana explica que, do ponto de vista da gramática, os sufixos tradicionalmente usados para designar línguas em português são -iano e -ês: japonês, inglês, francês, italiano, australiano. Aplicando essa lógica, o idioma falado no Brasil poderia, portanto, chamar-se "brasiliês" ou "brasiliano", ainda que o uso corrente permita também "brasileiro".
O elemento decisivo veio da história. No século XVIII, em Portugal, o termo brasileiro não designava o habitante nativo do Brasil, mas o português que trabalhava no Brasil, geralmente no comércio do açúcar, do ouro ou na intermediação colonial. Já o filho desse português, nascido no território sul-americano, recebia outra designação: brasiliano. Era o natural da terra, o nativo legítimo.
"Eu achei interessante essa associação: existir esse nome, brasiliano, para uma pessoa nascida no Brasil", diz Santtana. Ao retomar esse termo, ele se aproxima dessa ideia de origem territorial, algo que dialoga diretamente com o conceito do disco, que revisita as matrizes linguísticas que realmente formaram o Brasil: 1.800 línguas indígenas, cerca de 300 africanas e o português europeu.
Mesmo assim, ele faz questão de relativizar: "Na verdade, o nome da língua pouco importa." O que importa é o gesto simbólico, o reconhecimento de que a língua brasileira existe, tem corpo próprio, musicalidade própria, e não pode ser reduzida a um apêndice lusitano. A cada show, Santtana relata que o público percebe intuitivamente essa distinção.
Todo o trabalho de Lucas Santtana é engajado. Em seu disco anterior, "Paraíso", ele já havia abordado questões sociais e de meio ambiente.
Arquitetura de um disco político e sensorial
A multilinguagem de "Brasiliano" ganha corpo também por meio das vozes que Lucas Santtana convoca para dialogar com ele ao longo das 11 faixas do disco. A abertura, "A História da Nossa Língua", traz a presença luminosa de Gilberto Gil, que narra a travessia da língua desde o latim vulgar até o encontro com o tupi-guarani e as matrizes africanas.
Em seguida, "Línguas Gerais", parceria com Tainara Takua e o rapper francês Oxmo Puccino, costura a memória das línguas gerais tupi-guarani com uma crítica à persistência das hierarquias coloniais no uso e no preconceito linguístico contemporâneo.
A dimensão internacional do álbum se revela também em "Strati di Tempo", composta e cantada com o italiano Dimartino, e em "Battre des Ailes", parceria com o franco-britânico Piers Faccini, que sintetiza a própria vocação plural do projeto. Cada participação expande a paleta sonora do disco e, ao mesmo tempo, reafirma a tese central de Santtana: a de que a língua brasileira é uma invenção coletiva, feita de encontros.
Com a turnê seguindo por Madri, Barcelona, Portugal e Escandinávia, Santtana enriquece sua reflexão, abraça o público para esta conversa e posiciona a língua no centro da identidade da brasileira.