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Como 'Rosa e Azul', de Renoir, chegou ao Masp? Conheça a história trágica por trás do quadro

Retrato de duas meninas de uma família judaica francesa atravessou décadas até chegar ao museu de São Paulo e ganhou novo significado após a Segunda Guerra Mundial

25 ago 2026 - 12h36
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Resumo
Destaque do Masp, a pintura "Rosa e Azul" (1881), de Renoir, retrata as irmãs Elisabeth e Alice Cahen d'Anvers em um cenário de tranquilidade da elite francesa. Porém, a história dessa influente família judaica contrasta com a obra: enquanto Alice sobreviveu na Inglaterra, Elisabeth e outros parentes foram assassinados no Holocausto. O quadro simboliza a inocência infantil frente à fragilidade social e à violência do antissemitismo que assolou a Europa no século 20.
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Entre as obras mais conhecidas do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) está Rosa e Azul - As meninas Cahen d'Anvers, de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Pintado em 1881, o quadro retrata Elisabeth e Alice, filhas do banqueiro Louis Cahen d'Anvers, integrante de uma influente família judaica da França do século 19.

À primeira vista, a pintura transmite uma sensação de tranquilidade. As duas meninas aparecem sentadas lado a lado, em um ambiente elegante, usando vestidos claros (azul para Elisabeth e rosa para Alice). A cena remete à infância e ao conforto de uma família pertencente à elite parisiense.

A trajetória das meninas, porém, seria muito diferente da imagem de estabilidade sugerida pelo retrato. O destino da família Cahen d'Anvers é um dos fios condutores de The Renoir Girls, livro da jornalista e escritora britânica Catherine Ostler, que recupera a história das irmãs em meio às transformações sociais e políticas que atravessaram a França nas décadas seguintes.

A família retratada por Renoir

Quando recebeu a encomenda para pintar as filhas de Louis Cahen d'Anvers, Renoir ainda consolidava sua carreira. A obra foi produzida em um período de mudanças na França, que tentava se reconstruir após a Guerra Franco-Prussiana e vivia a expansão cultural e econômica que antecedeu a Belle Époque.

Famílias judaicas como os Cahen d'Anvers, os Ephrussi e os Camondo ocupavam posições de destaque na sociedade francesa. Eram banqueiros, colecionadores e patrocinadores das artes e participavam ativamente da vida cultural de Paris.

A integração, contudo, não significava que estivessem livres do antissemitismo. A ascensão social dessas famílias convivia com ataques que questionavam justamente sua presença na elite francesa.

"Acho que sempre houve essa sensação de fragilidade", diz Catherine Ostler, autora de The Renoir Girls, em entrevista a Guy Walters, do Independent. "Mas houve uma tentativa de afastá-la acumulando, comprando e restaurando sinais visíveis de 'francesidade'. Havia um jornal inteiro dedicado a ser grosseiro com os judeus, e um dos temas recorrentes era criticar os judeus ricos que compravam castelos franceses. Isso era muito mal recebido", completou.

O destino das irmãs

O quadro de Renoir retrata apenas Elisabeth e Alice, mas a história da família também envolve Irène, a irmã mais velha. As três cresceram cercadas pelo privilégio e pela influência dos Cahen d'Anvers, mas seguiram caminhos distintos.

Irène se casou com um integrante da família Camondo, também pertencente à elite judaica francesa. A união a manteve próxima do círculo social em que havia crescido. Décadas depois, porém, sua família seria atingida pela perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Sua filha, Béatrice, e os filhos dela foram deportados e assassinados no Holocausto. A tragédia expôs a fragilidade da posição social que, durante anos, havia proporcionado à família riqueza e prestígio.

Elisabeth, a menina de azul retratada por Renoir, teve uma vida mais discreta. Com o passar dos anos, afastou-se da sociedade parisiense e se converteu ao catolicismo. Já idosa, vivia em uma pequena comunidade rural francesa quando foi presa, em janeiro de 1944.

Segundo a reconstrução feita por Ostler, Elisabeth estava fragilizada e precisava de ajuda para se locomover. Ainda assim, sua idade, o isolamento e a conversão religiosa não impediram sua prisão e posterior deportação. O episódio evidencia como a perseguição nazista e colaboracionista não poupava nem mesmo aqueles que haviam tentado se afastar de sua origem judaica.

Alice, a menina de rosa, teve outro destino. Depois de se casar com um aristocrata inglês, tornou-se Alice Townshend e passou boa parte da vida fora da França. A mudança de país e sua nova posição social contribuíram para que ela escapasse da perseguição que atingiu outros integrantes da família.

As trajetórias das três irmãs ajudam a explicar por que Rosa e Azul ganhou uma dimensão que vai muito além do retrato de duas crianças da elite francesa. A pintura registra um momento de aparente segurança, enquanto a história de seus personagens revela como riqueza, integração social e prestígio não foram suficientes para protegê-los das transformações políticas que culminaram no Holocausto.

Hoje, a obra faz parte do acervo do Masp e integra a seleção de trabalhos de Renoir mantidos pelo museu. O retrato permanece como uma imagem de infância e elegância, mas sua história também permite olhar para um dos períodos mais violentos da Europa do século 20 sob a perspectiva de uma família que, décadas antes, parecia ocupar um lugar seguro na sociedade francesa.

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Estadão
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