'Apologia à narcocultura': como grupos armados usam redes sociais para recrutar crianças na Colômbia
Facebook e TikTok não conseguem impedir a circulação de conteúdos usados por grupos armados para aliciar crianças e adolescentes na Colômbia, e seus algoritmos podem até contribuir para ampliar esse alcance. É o que aponta um relatório da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta segunda-feira (24), sobre o uso das redes sociais no recrutamento de menores de idade para organizações criminosas e guerrilhas no país.
Grupos armados na Colômbia usam redes sociais como TikTok e Facebook para recrutar crianças e adolescentes, atraindo jovens vulneráveis com falsas promessas de emprego e apologia à narcocultura. Desde 2021, cerca de 1.500 menores foram aliciados, principalmente indígenas e meninas, sendo explorados em combates, espionagem e abusos sexuais. ONGs alertam que as medidas de moderação das plataformas digitais são insuficientes para conter o avanço das organizações criminosas no país.
Segundo a ONG, embora o recrutamento de crianças e adolescentes faça parte da realidade do conflito armado colombiano há décadas, as plataformas digitais passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante nesse processo nos últimos anos.
De acordo com dados oficiais compilados pela HRW, cerca de 1.500 menores foram aliciados por grupos armados desde 2021. Mais de 30% tinham entre 10 e 14 anos e quase metade pertencia a comunidades indígenas. As meninas, que representam 40% dos casos registrados, estão especialmente expostas a situações de violência sexual.
Para Martina Rapido, autora do relatório, as redes sociais se transformaram em uma ferramenta estratégica para os grupos armados. "Diferentemente do que acontecia antes, quando havia muita coerção direta para recrutar as crianças, cada vez mais se usam as redes sociais", afirma a pesquisadora à RFI.
A ONG informou ter alertado a Meta, proprietária do Facebook, e a ByteDance, controladora do TikTok, sobre os conteúdos encontrados durante a investigação. Segundo o relatório, as duas empresas afirmaram ter removido publicações denunciadas e reforçado mecanismos de combate ao recrutamento de menores por grupos armados.
"Ambas as plataformas nos disseram que suas políticas proíbem a difusão desse tipo de conteúdo. Infelizmente, o que estamos vendo é que as medidas não são suficientemente rápidas e eficazes para identificar, prevenir e mitigar esse tipo de conteúdo. O que deveriam fazer é estabelecer mecanismos mais claros e rápidos para identificar e responder quando houver publicações do tipo, incluindo o encaminhamento desses casos às autoridades colombianas", sugere.
Falsas promessas de emprego
Segundo Nini Johana Daza, conselheira principal do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC), departamento do sudoeste colombiano, as comunidades indígenas estão entre as mais afetadas pelo fenômeno. Para ela, o fato de os jovens estarem cada vez mais conectados em grupos com outros amigos via WhatsApp e TikTok facilita o aliciamento.
"As pessoas que se dedicam justamente ao trabalho de recrutá-los desenvolvem toda uma estratégia para identificar quem pode ser recrutado. Quais jovens têm mais vulnerabilidades, como situações em que a família talvez não tenha recursos ou não tenha estabilidade psicológica para fazer uma denúncia. Então eles chegam e levam esses jovens", diz.
Como exemplo, Daza relata o caso de uma mãe que só procurou o CRIC um mês após o desaparecimento do filho.O adolescente teria avisado na vizinhança que iria trabalhar em Cali, e a mãe acreditava que ele tinha ido por vontade própria. Mas, depois que o jovem iniciou um acompanhamento psicológico, contou que "não foi porque quis".
"O rapaz revelou que, quando disse que não tinha interesse, responderam: 'Não importa. Em tal horário, você vai se apresentar em tal lugar e nós vamos buscar você'", detalha Daza.
"Apologia à narcocultura" preocupa ONGs de proteção à infância
O relatório aponta que os grupos armados utilizam publicações que glorificam a vida nas organizações criminosas e promovem falsas oportunidades de emprego para atrair jovens em situação de vulnerabilidade. Entre os conteúdos identificados pela ONG estão vídeos e fotografias de integrantes exibindo maços de dinheiro, joias e armas. Em outras publicações, os membros dos grupos aparecem em acampamentos ou ouvindo os chamados narcocorridos, um subgênero musical mexicano cujas letras e videoclipes frequentemente exaltam traficantes, cartéis e o estilo de vida associado ao universo do narcotráfico.
O fenômeno também preocupa entidades dedicadas à proteção de crianças e adolescentes na Colômbia. Para María Mercedes Liévano, diretora da Save the Children Colômbia, o avanço das redes sociais criou novos desafios para a prevenção do recrutamento infantil.
"Esses grupos estão ocupando as redes em uma velocidade impressionante para seduzir crianças e adolescentes nos territórios onde atuam, promovendo uma verdadeira apologia à narcocultura, ao poder, ao dinheiro e ao uso de motos. Esse é um fator que nos preocupa muitíssimo", afirma a diretora.
A Human Rights Watch alerta que o recrutamento não se limita à participação direta em confrontos armados. Muitos jovens são utilizados para coletar informações, vigiar territórios ou operar drones. Entre os principais recrutadores estão o cartel Clan del Golfo, as dissidências das antigas Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, além da guerrilha ELN, o Exército de Libertação Nacional.
"O conflito armado na Colômbia se agravou e atualmente está presente em mais de 78% do território nacional. Isso é muito alarmante. Se observarmos os números, vemos que o efetivo desses grupos armados ilegais praticamente dobrou nos últimos anos. Em 2025, já havia mais de 28 mil integrantes nessas organizações. E, infelizmente, são as crianças e os adolescentes que estão reforçando esses grupos e também sendo usados para diferentes tarefas", explica María Mercedes Liévano.
O tema toma força em um momento de endurecimento da política de segurança na Colômbia. O presidente Abelardo de la Espriella, da extrema direita, no poder há menos de um mês, defende uma ofensiva militar contra essas organizações com apoio dos Estados Unidos e de Israel.
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