Como o "conto de fadas deturpado" de 'Is God Is' foi dos palcos para as telas
A roteirista e diretora Aleshea Harris fala sobre adaptar sua peça gótica sulista negra para um thriller estrelado — e receber o apoio de Beyoncé
Qual é mesmo aquele ditado famoso sobre o inferno não ter fúria maior? Bem, pegue uma mulher desprezada e acrescente duas irmãs gêmeas marcadas por cicatrizes, embarcando em uma odisséia sangrenta para matar o pai que as mutilou, e você estará apenas começando a captar toda a intriga barulhenta e gore de Is God Is.
"Este é um drama familiar épico em que o sangue voa. Eu queria, de forma muito intencional, que parecesse um conto de fadas deturpado", diz a roteirista e diretora Aleshea Harris, que adaptou o filme de sua peça homônima de sucesso apresentada off-Broadway em 2018. "Embora eu ache que ele provoque conversas reais sobre feminicídio, abuso mental, trauma e o preço que a busca por vingança cobra de quem se vinga, ele também traz a catarse [de ver] a raiva de mulheres negras no centro do palco, sem pedir desculpas."
Is God Is (ainda sem previsão de estrear no Brasil, seja nos cinemas ou streaming) acompanha as gêmeas fraternas Racine (Kara Young) e Anaia (Mallori Johnson) enquanto elas se transformam de órfãs azaradas em filhas recém-reconhecidas com uma missão justa. Ambas ficaram queimadas em um incêndio provocado pelo pai (Sterling K. Brown), o mesmo fogo que elas acreditavam ter matado a mãe, Ruby (Vivica A. Fox). Quando uma carta inesperada revela que a mãe está, na verdade, viva — por um fio — elas assumem o pedido feito em seu leito de morte: "façam o pai de vocês morrer". As gêmeas precisam atravessar uma versão gótica do sul profundo dos Estados Unidos, rastreando outra família destruída que o pai deixou para trás, na tentativa de concretizar sua vingança. Mas até onde é longe demais?
https://www.youtube.com/watch?v=pgtdkuNFoKk
O filme conta com um elenco recheado de veteranos e novos talentos: além de Brown, Fox e Young, também aparecem Janelle Monáe, Erika Alexander e Mykelti Williamson. Mas, nos bastidores, foi preciso toda uma rede de criativos negros — incluindo Beyoncé — obcecados por essa história para levá-la às telas. A trajetória começou logo depois de Harris vencer o Obie Award de Dramaturgia em 2018 (a versão off-Broadway do Tony Awards). (Ela também foi finalista do Pulitzer de Drama em 2023.) Diversas produtoras de Hollywood demonstraram interesse inicialmente, mas a pandemia de Covid-19, em 2020, interrompeu a maior parte dessas conversas. Então Harris encontrou apoio em Tessa Thompson (Hedda, Creed, Thor: Ragnarok) e em Janicza Bravo, diretora do filme Zola, baseado em uma thread viral do Twitter. "Essas mulheres foram as engrenagens da máquina para fazer isso acontecer", diz Harris.
Mas, mesmo sendo autora de uma história inflamável sobre posse e poder, Harris precisou passar pelo próprio processo de aprendizado para incorporar alguns dos temas presentes em sua obra. Na época, ela havia desenvolvido o roteiro e estava procurando uma diretora. Bastou um empurrãozinho do dramaturgo Jeremy O. Harris para que percebesse que a resposta talvez estivesse diante do espelho.
"Jeremy me disse: 'Olha, você deveria dirigir isso. Essa é a sua história'", relembra Harris. "Foi como apertar um interruptor. Eu já era uma dramaturga bastante mandona, cheia de ideias sobre como meu trabalho deveria acontecer, e isso pareceu o próximo passo natural da minha jornada como artista."
Essa escolha acabou sendo fundamental para algumas das maiores vitórias do filme. Harris acreditava que escalar grandes nomes ao redor de dois atores menos conhecidos aumentaria a sensação mítica da história. "Achei que essa justaposição seria muito rica, permitindo ao público fazer descobertas ao lado de pessoas mais conhecidas realizando performances um pouco inesperadas — como vemos com Sterling", afirma Harris.
Então ela chamou a atenção de um dos maiores nomes da música. Is God Is abandona o realismo em favor de uma versão mágica e estilizada do que Harris chama de "Dirty South", buscando inspiração na estética violenta de clássicos como Kill Bill (2003), E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), o cult francês O Ódio (1995), Amores Divididos (1997)… e nos visuais do álbum Lemonade, de Beyoncé. Pareceu um passo natural incluir uma música da cantora na campanha de divulgação do filme, mas a artista é notoriamente seletiva quanto a quem pode usar seu trabalho. A versão do diretor feita por Harris convenceu Beyoncé — "Ya Ya" embala o trailer do filme, ajudando-o a ganhar enorme atenção.
"Ela aprovou com base nisso", conta Harris. "Ela comprou a ideia da história. Me sinto abençoada e honrada por aquela mulher ter visto algo que quis apoiar e não ter se importado em emprestar sua voz gigantesca para isso."
Para um longa-metragem, Is God Is teve um cronograma apertado, quase de guerrilha: apenas 25 dias de filmagem. Ainda assim, Harris acredita que o resultado final é uma tentativa ambiciosa de desafiar o patriarcado, enquanto permite que uma história sobre abuso, violência e trauma também seja incrivelmente divertida.
"Estou tentando caminhar nessa linha entre a vida real e a magia. Três cliques à esquerda do centro", diz Harris. "Como elevar isso? Como pirar algo que já vimos antes?"
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