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Centenário de Rubem Fonseca: Filha descobre inéditos, livros corrigidos e poemas brutais; veja foto

O escritor dizia que não guardava nada - mas não foi isso que sua Bia Corrêa do Lago descobriu após a morte dele. Dois contos inéditos saem agora em box em comemorativo e uma fotobiografia está sendo preparada enquanto outros manuscritos e textos inacabado vão sendo decifrados

2 mai 2025 - 09h36
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Quando decidiu organizar o arquivo deixado pelo pai, o escritor Rubem Fonseca, a autora e pesquisadora Bia Corrêa do Lago acreditava que resolveria em pouco tempo. "Ele sempre dizia que não anotava nem guardava nada", conta ela, que se surpreendeu com o imenso e valioso material. Fonseca morreu em abril de 2020, a poucos dias de completar 95 anos, e deixou uma variedade de documentos, desde manuscritos e anotações até fotos ao lado de personalidades e declarações de imposto de renda.

Ao longo da vida, Fonseca exerceu diversas funções. Nasceu em 11 de maio de 1925, em Juiz de Fora, Minas Gerais, e, antes de se aventurar pela literatura, formou-se em Direito na UFRJ e construiu uma carreira de seis anos na polícia civil, como comissário, em São Cristóvão. Também trabalhou como office-boy, escriturário, revisor de jornal, professor de administração pública na FGV e executivo da Light no Rio.

Como leitor, sua preferência rondava clássicos e vertentes do gênero policial, de nomes como Rafael Sabatini, Edgar Allan Poe, Emilio Salgari, Michel Zévaco, Ponson du Terrail, Karl May, Julio Verne e Edgar Wallace.

Em paralelo, cultivava interesse pelo cânone ocidental (Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare e Cervantes), bem como dos modernos (Dostoiévski, Maupassant, Proust). Seus primeiros contos publicados apareceram nas revistas O Cruzeiro e Senhor, no início dos anos 1960.

Rubem Fonseca estreou em livro em 1963, com a reunião de contos Os Prisioneiros. Depois viriam suas obras mais conhecidas, que o consagraram como escritor de literatura policial: Feliz Ano Novo, Lúcia McCartney, O Caso Morel, A Grande Arte e Agosto, que foi adaptado pela TV Globo, em minissérie homônima nos anos 1990.

Ele foi um dos grandes expoentes do conto como gênero literário, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, quando esse tipo de escrita enxuta foi utilizada por diversos escritores brasileiros para retratar a realidade urbana, convulsiva e fragmentada. Fonseca, com sua linguagem dinâmica e veloz, trazia para a literatura os dramas cotidianos vivenciados pelos habitantes das grandes metrópoles.

A obra de Rubem Fonseca

"Percebo que a obra de Rubem Fonseca pode ser dividida em três fases", comenta o escritor e crítico literário Silviano Santiago. A primeira, no seu entender, compreende de Os Prisioneiros (1963) a Feliz Ano Novo (1975), em que o conto predomina e com o qual Fonseca usa a violência para desmistificar a cordialidade do brasileiro. A segunda fase é dominada por romances, de A Grande Arte (1983) a O Selvagem da Ópera (1994), textos mais elaborados e fartamente documentados.

"O último grupo é extremamente fascinante, mas dificilmente é aceito pelos leitores mais antigos", explica Santiago. "O livro A Confraria dos Espadas (1998) e os que vieram em seguida são muito chocantes porque não trazem mais aquele realismo dos contos, nos quais sobressaía uma violência estúpida. O estilo que ele desenvolve aqui é algo praticamente beckettiano, uma fala da derrisão, ou seja, do riso zombeteiro."

Foto do escritor Rubem Fonseca, em rara aparição pública, em 2015. Ele foi à Academia Brasileira de Letras para receber o Prêmio Machado de Assis
Foto do escritor Rubem Fonseca, em rara aparição pública, em 2015. Ele foi à Academia Brasileira de Letras para receber o Prêmio Machado de Assis
Foto: Guilherme Gonçalves/Divulgação / Estadão

Segundo o crítico, a questão lhe interessou particularmente porque tem relação com a velhice e como os escritores reagem a esse assunto depois de uma certa idade. "Ele escapa completamente do que em geral é feito pelo escritor brasileiro, que são as memórias e, em especial, as da infância. O que me fascina em Rubem é a coragem de evitar o estilo Meus Verdes Anos e preferir o de Marques de Sade como guia para questões que sempre lhe interessaram, como a da violência brasileira."

Silviano Santiago entende o estranhamento da crítica em relação aos livros dessa fase final porque Fonseca preferiu um caminho dificilmente aceito na literatura brasileira. Ele cita o conto Enfermeiro do Bem, em que o protagonista, inicialmente ativo e com vida social, é convencido por um amigo médico a realizar uma cirurgia que o transforma em um homem passivo e dependente. "É de uma violência absurda. Uma crítica do senso comum."

"É uma maneira de descrever a velhice do artista", continua. "Algo que se transformou inclusive em um gênero, com Machado de Assis tentando fazer isso no Brasil, assim como Fernando Sabino com Encontro Marcado. Lá fora, tivemos Um Retrato do Artista Quando Jovem, do James Joyce, e Malone Morre, de Samuel Beckett. Rubem foi mais corajoso, mas não compreendido. Ele não revela, nessa terceira fase, um moralismo que está presente nas outras duas. Rubem oferece uma outra visão de mundo, mais audaciosa porque, se a luxúria é aceita no Brasil, a fobia aos sexos opostos não é."

Santiago assina um dos textos analíticos que acompanham o box com os contos.

Com essa caixa e a fotobiografia, Bia Corrêa do Lago poderá finalmente se despedir do pai. "Faz cinco anos e meio que convivo com Rubem por meio de seu arquivo. No final do ano, quando eu lançar a última publicação, ele terá morrido de fato para mim."

Estadão
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