Carpinejar: 'Estamos acometidos de um Alzheimer digital'; leia entrevista
Escritor gaúcho que faz conferência em São Paulo nesta semana diz que a sociedade está imersa em uma ideia de alta produtividade, que acaba por gerar um esgotamento, além de um problema de memória; leia entrevista
Com a globalização, a ideia de que as barreiras físicas e econômicas estariam suspensas atraiu as pessoas. Tudo, no entanto, tornou-se mais conectado. A exigência de alta produção virou sinônimo de existir - e esquecer, quase um efeito colateral inevitável. Agendas lotadas, relações frágeis, infâncias mediadas pelas telas: o que estamos perdendo no caminho?
"Estamos acometidos de um Alzheimer digital, porque somos incentivados para a simultaneidade", afirma o escritor Fabrício Carpinejar, de 53 anos, autor de obras como Manual do Luto, Se Eu Soubesse e Depois é Nunca, entre outros títulos publicados pela Bertrand. Para ele, a sociedade está imersa em uma ideia de alta produtividade, na crença de que quanto mais fizermos melhor nos desenvolveremos, quando, na realidade, isso acaba por gerar um esgotamento, além de um problema de memória.
"Nós somos treinados a fazer duas ou três tarefas ao mesmo tempo acreditando que teremos uma maior rentabilidade. Só que a gente não lembra de nada mais. Acumular é ser infeliz. Você não desenvolve o foco. Não guarda o que você fez. E isso não somente acarreta uma desmemória, mas também um desapego à saudade."
Essas são algumas das questões que Carpinejar vai tratar em sua conferência A Cura Pelo Afeto nesta quinta-feira, 2, no Teatro Bradesco, em São Paulo. O luto e a solidão, temas caros ao cronista, também serão abordados.
A memória e a saudade
Carpinejar vê um esvaziamento da experiência humana: a fragilidade da memória não afeta apenas o que lembramos, mas a forma como atribuímos sentido ao que foi vivido. A memória, que antes organizava os vínculos, passa a ser substituída por registros imediatos e externos, incapazes de produzir permanência. Sem tempo para fixar experiências, lembranças se tornam descartáveis. "A saudade é um sentimento em extinção."
"Somos muito mais avatares do que humanos. Prevalece a virtualidade. O termômetro de que gostamos de algo ou de alguém é o capricho. E, para o capricho, dependemos de uma única atenção. Olhar, privilegiar, receber, falar, ouvir. Isso não tem sido feito, não tem acontecido."
O isolamento emocional e a solitude
Mas, se as redes sociais aumentam as possibilidades de contato, por que as pessoas estão se sentindo abandonadas? Isolamento e solidão não são sinônimos, diz o escritor. "O isolamento é a falta de solidão, de solitude. A solitude é uma escolha. Eu preciso de paz. O isolamento é um excesso de funções que não deixa você pensar ou sentir ou se religar àquilo que está acontecendo. O isolamento traz uma alienação. Tanto faz o que acontecer no mundo: isso não me afeta. Eu não estou dentro dele. Você não tem um único momento sozinho por deliberada vontade. Todo mundo diz que as pessoas estão muito solitárias. Eu acho que é o contrário, as pessoas não conseguem mais ficar solitárias", diz o poeta.
Daí viria uma repartição entre corpo e mente. "Então, o seu descanso não é real. Você sempre está ocupado em procurar. Isso nos adoece porque você carrega o seu corpo para um lugar e a sua mente vai para outro", reflete. "De tanto arrastar o seu corpo para um lugar em que você não quer estar, o seu corpo começa a se rebelar."
Isso se estende às crianças. "Você matricula o filho no máximo de atividades para que ele não tenha direito à infância, tempo para ela, para fantasiar, para improvisar, para deliberar sua imaginação. É tudo contadinho, preenchido. calculado rigorosamente, domesticando espíritos que deveriam ser mais livres. Seu filho sempre está respondendo algum apelo externo."
Relacionamentos, ciúmes e controle
No contexto da vida atual, diz Carpinejar, "você vai tratar qualquer relacionamento de um modo superficial". "As pessoas se relacionam facilmente porque elas não praticaram a construção da intimidade." Outra questão refere-se a ideia de que a resiliência "seria uma virtude". "Como se o amor exigisse uma romantização do sofrimento. Você sofre por alguém, então você ama, você sente ciúme. O ciúme é tudo menos amor, é falta de amor. Você não quer permitir que a pessoa seja com os demais."
O poeta ainda afirma que o ciúme é um "instrumento de manipulação". Privar o parceiro de conviver com outras pessoas isola o outro e o torna dependente. "Um ciúme quer domesticar o outro pela tristeza. Vou isolar essa pessoa o máximo possível para que ela precise mais de mim. É dependência pela falta de opções. Não é dependência nunca pelo mérito."
A Cura Pelo Afeto
- Quando: 2 de maio, quinta-feira, às 20h
- Onde: Teatro Bradesco - Bourbon Shopping - R. Palestra Itália, 500, 3° Piso, Perdizes, São Paulo (SP)
- Quanto: de R$ 80 a R$ 120