Estrutura da folia de repúblicas vira polêmica em Ouro Preto
As festas de Carnaval regadas a quantidades abundantes de bebida alcoólica sempre foram uma marca das repúblicas estudantis de Ouro Preto. Nos últimos anos, entretanto, elas ampliaram o trabalho com a organização de blocos grandiosos e a venda de pacotes, impulsionada por estratégias de marketing eficientes e patrocínio de grandes marcas nacionais. Também pagam Imposto sobre Produtos e Serviços (ISS) à prefeitura (3% do que arrecadam).
» vc repórter: mande fotos e relatos do Carnaval em sua cidade
Com abadás a preços médios de R$ 100 e estadia de 5 dias a R$ 600 - valores que ficam maiores na medida em que a festa se aproxima - as repúblicas passaram a movimentar quantia financeira vultosa. Os lucros, segundo os estudantes, são todos revertidos para a manutenção dos casarões cedidos pela Universidade Federal de Ouro Preto. Alguns estão equipados com modernos aparelhos eletrônicos, guardados durante a folia.
"A única fonte de renda estudantil é o Carnaval e a manutenção de casas antigas envolve sempre um custo muito grande", disse Rogério Alves, estudante de engenharia e morador da República Necrotério, que organiza o Caixão, maior bloco estudantil de Ouro Preto. Ele prefere não revelar o lucro obtido com a festa.
A cada Carnaval, a Necrotério recebe nos seus 11 quartos cerca de 70 hóspedes, para os quais disponibiliza 350 caixas de cerveja em garrafa. Para o desfile do bloco, vendeu neste ano 5,5 mil abadás pelo preço médio de R$ 100 e contratou a banda carioca Monobloco, por R$ 40 mil, para animar os foliões, que foram servidos com 80 mil latas de cerveja e amparados por estrutura de segurança profissional.
Separada por poucos metros da Necrotério, a República Adega também mostra força na organização do Bloco Cabrobró, com 3,5 mil integrantes e que tem como principal atração a banda Farofa Carioca.
"Vamos ficar perto do 0 a 0", garantiu o estudante há mais tempo na república, Leandro Felipe, 24 anos, referindo-se aos ganhos financeiros com a festa. "Uma banda custa R$ 50 mil, temos que comprar as bebidas 75 mil latas de cerveja, ice, energético, vodka, whiski e água, contratar segurança, gente para cozinhar e servir, alugar espaço", acrescentou.
Junto com o sucesso comercial do modelo de folia das repúblicas estudantis, vieram também as críticas de parte da população permanente local. O comerciante José Moreira, 53 anos, responsabiliza as repúblicas pela descaracterização do Carnaval de Ouro Preto, ao estimularem uma festa inacessível para grande parte dos moradores.
"Hoje o ouro-pretano virou visitante no seu próprio Carnaval. Virou mercado, a busca pelo lucro fácil. As repúblicas Estão impondo em cima de organização e marketing. Os estudantes não podem ter essa liberdade", criticou Moreira.
O argumento estudantil de que os lucros são revertidos na reforma das casas históricas não convence o comerciante. "Essas casas são do governo federal. Caberia ao governo reformá-las. Tem estudante fazendo panfletagem do Carnaval das repúblicas daqui em cruzeiros marítimos. Tem repúblicas tirando R$ 300 mil de lucro. Resta saber o que é feito do dinheiro. Depois do Carnaval doam R$ 5 mil de cestas básicas para tentar mostrar uma caráter filantrópico", atacou.
"Por que no ano todo as casas das repúblicas não servem de albergue estudantil?", questionou Vicente Trópia, dono de um dos restaurantes mais tradicionais da cidade, que se sente prejudicado pelo pacote de alimentação oferecido pelas repúblicas e pelo caos urbano provocado pelos estudantes.
Quem mais perde com os pacotes das repúblicas é a rede hoteleira, que não consegue concorrer com os preços. O hotel e a pousada de propriedade do empresário Raimundo Saraiva - onde a diária para o casal sai por R$ 285 - estão com taxa de ocupação de 50%. O preço cobrado é inviável para a maioria dos estudantes, mas segundo Saraiva, a desordem provocada pelo turismo em massa afasta do Carnaval ouro-pretano muitos de seus hóspedes em potencial.
As críticas são respondidas pelo estudante Leandro Felipe com uma provocação aos que são contrários ao modelo de Carnaval adotado pelos universitários: "As repúblicas, em geral, garantem uma movimentação importante na economia de Ouro Preto. Acho que as repúblicas deveriam passar um ano sem fazer Carnaval na cidade, para a comunidade sentir o impacto".
A suposta descaracterização cultural do Carnaval acarretada pelo modelo, por sua vez, é rechaçada pelo estudante Rogério Alves. "O Carnaval ficou mais organizado, menos perigoso e mais selecionado. Antes estava virando uma bagunça que era ruim para a imagem da cidade", garante.
Quem consegue trabalho na estrutura das repúblicas, como o pedreiro Jóbson Teixeira e a doméstica Luciana de Oliveira, garante que elas são importantes geradoras de emprego e não devem ser criticadas por organizarem as mega-festas de Carnaval.
Na queda de braço, a prefeitura fica com as repúblicas. Segundo o secretário de Cultura e Turismo, Gleiser Boroni, elas fazem parte da cultura da cidade, desenvolvem todas as promoções dentro da legalidade e geram receita para o município. "O que a prefeitura tem que fazer é exigir aprovação dos bombeiros para as festas, expedir alvará e cobrar o ISS", resumiu Boroni.