'Boa parte das nossas decisões não está sendo tomada por nós mesmos', diz Ronaldo Lemos
Autor de 'O Monge, o Iogue e o Faquir', advogado e especialista em tecnologia aponta as três principais armadilhas da inteligência artificial; leia entrevista e veja vídeo
Em seu novo livro, Ronaldo Lemos alerta que a tecnologia gera uma "captura mental" que nos afasta do controle de nossas próprias decisões e esgota nossa atenção, com o Brasil liderando o tempo de tela. Usando os arquétipos do monge, do iogue e do faquir, ele propõe equilibrar emoção, mente e corpo contra os vícios modernos. Lemos adverte ainda sobre as armadilhas da IA — como a perda cognitiva e a falsa humanização —, apontando o treino da atenção e a cultura como antídotos para essa exaustão.
Ronaldo Lemos defende que estamos vivendo em um sistema de "captura mental" operado pela tecnologia, que nos conduz ao vício, e que o primeiro passo para retomar o controle de nossa "carruagem" interior é enxergar que boa parte das nossas decisões não está sendo tomada por nós mesmos.
Esse é o assunto do novo livro do advogado, professor e criador do Marco Civil da Internet. Em O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas, que será lançado nesta quarta-feira, 26, em São Paulo, o autor se alicerça nos três arquétipos mencionados no título da obra a fim de instigar que o leitor treine a atenção para que, assim, consiga atingir um equilíbrio entre a filosofia, a espiritualidade e a saúde mental e física.
Lemos, que se define como um "usuário avançado de inteligência artificial", evitou investigá-la a fundo neste trabalho, ainda que não tenha se privado de externar sua preocupação com os efeitos nocivos da ferramenta. Nesta entrevista, inclusive, ele explica quais são as três principais armadilhas da IA: delegar a mente, torná-la humana e o êxtase da produtividade.
Leia abaixo a entrevista completa com Ronaldo Lemos
Neste livro, você adota uma postura de observador de comportamentos. Mas o que você enxergou dentro de si que desencadeou a criação deste livro?
Acho que muita gente esperava que eu escrevesse um livro sobre IA. E poderia escrever, pois sou um usuário avançado de IA. Mas se eu escrevesse um livro sobre isso, ele iria ficar velho em 3 meses, porque a velocidade de mudança é muito grande. Então, eu resolvi escrever um livro em face a um período de mudanças muito profundas. No Brasil, a média de uso de tela por dia é de 9 horas e 13 minutos. É a segunda maior do mundo, só perdemos para a África do Sul. Especialmente aqui no Brasil, as pessoas estão se dando conta de que elas estão cansadas e que boa parte desse tempo que elas passam conectadas em frente a uma tela é até algo que fazem contra a própria vontade. Então, o que me levou à reflexão sobre esse livro é o fato de que muita gente sente que perdeu o controle sobre as suas próprias decisões. O livro também vem de razões pessoais: a chegada do meu primeiro filho, que me fez pensar o que passa a ser importante para educar uma criança no mundo de hoje, e também o fato de eu ter feito 50 anos.
Você afirma que nós precisamos ser o 'mestre' e retomar o controle da nossa própria 'carruagem'. Qual é o primeiro passo para assumir que essa carruagem está desgovernada?
Há um texto fundamental para o hinduísmo, Katha Upanishad, que descreve a nossa condição humana como uma carruagem. O carro da carruagem é o nosso corpo, os cavalos são as nossas emoções e o cocheiro que segura as rédeas é a nossa mente. Só que a carruagem precisa ter um mestre que decide o percurso. E no mundo atual, esse mestre está cada vez mais ausente, porque a tecnologia aprendeu a conversar com o nosso cocheiro, a dissuadir os cavalos e a capturar o nosso corpo. Para retomar o controle, o livro propõe uma série de exercícios. Precisamos, primeiro, enxergar que boa parte das nossas decisões não está sendo tomada por nós mesmos. Também devemos retomar a principal ferramenta que temos como seres humanos: a nossa atenção. Se devotamos todos os dias a nossa atenção para um aparelho, o que sobra de atenção para darmos aos outros e a nós mesmos é muito pouco.
O que os arquétipos usados para estruturar o livro - o monge, o iogue e o faquir - podem nos ensinar para que corpo, coração e mente trabalhem juntos, sem que um sufoque o outro?
Esses arquétipos aparecem em basicamente todas as culturas. O monge representa a nossa relação com as emoções, o faquir representa o caminho do corpo e o iogue representa a disciplina da mente. E quando olhamos para cada um desses caminhos, vemos que eles podem ser caminhos de transformação positiva. Podemos usar a nossa mente, o nosso coração e o nosso corpo para nos tornarmos pessoas melhores, mas pode ser também que cada um se transforme em caminhos de captura...
Sim, em certo momento você fala das versões atuais desses arquétipos: o faquir tóxico, o monge dopaminérgico e o iogue acelerado. Estamos nos tornando um pouco de cada um deles?
Com certeza. O faquir submetia o corpo dele a provações severas, não porque queria ficar mais bonito para os outros, mas porque ele queria ser uma pessoa melhor. O caminho do corpo não é feito para os outros, é feito para nós mesmos. O faquir tóxico engloba as pessoas que fazem provações insanas, como agulhamentos faciais e corridas de 256 km. O monge dopaminérgico é aquele que se vicia em estímulos. Você vai chamar o elevador, não aguenta ficar a sós com seus próprios pensamentos, então tira o celular do bolso e vai querer preencher aquele tempo com dopamina. Já o iogue acelerado talvez seja o mais fácil de as pessoas se identificarem. É a pessoa que trabalha sem parar, não respeita férias, fins de semana, às vezes sacrifica família e amigos porque acha que deve trabalhar infinitamente. Então, a proposta do livro é equilíbrio, integração entre os caminhos, e que eles sejam usados de forma construtiva, e não capturados por esses estímulos externos que acabam controlando o que fazemos.
Você bate na tecla de que a IA deve ser apenas uma ferramenta e que ela não deve ocupar determinados papéis importantes na nossa vida. Quais os efeitos nocivos que a IA pode ter quando encontra o faquir tóxico, o monge dopaminérgico e o iogue acelerado?
A IA encontra as pessoas no momento de exaustão. Eu diria que a IA tem pelo menos três armadilhas. A primeira é você delegar os seus processos mentais para a IA. Se você tem uma tarefa mental e deixa a IA fazer por você, isso te emburrece. Outro problema: tratar a IA como um ser humano, ou seja, como terapeuta, como namorado ou namorada, como amigo, parente, confidente. Essa armadilha pega especialmente os jovens. Tenho visto pais que vêm me reclamar comigo, que veem os filhos tendo relações amorosas e experiências sexuais com a IA, tendo 13, 14 anos. O primeiro amor não pode ser com uma máquina. Temos que evitar isso totalmente. E a terceira armadilha da IA é o seu uso exagerado, no sentido de que a IA é muito poderosa e quando você começa a usá-la a seu favor, pode cair no que eu chamo de êxtase da produtividade. É você se achar um super-herói, que pode fazer coisas extraordinárias e que as outras pessoas não conseguem. Esse êxtase leva a um tipo de cansaço que nos Estados Unidos vem sendo chamado de fritura cerebral. E eu já senti isso, é horrível.
Nesse sistema de captura mental, que nos conduz ao vício, conforme você diz, como treinar a atenção pode nos ajudar a lidar com esse sistema?
A atenção é a pedra fundamental da vida humana. Você vive onde coloca a sua atenção. Quando chegar no final da sua vida, se você quiser fazer um resumo do que foi importante na sua vida, é só olhar para as coisas que você prestou atenção. E com o ritmo de uso de telas no Brasil, muitos vão poder colocar na sua lápide assim: passou 28 anos da vida em frente a um celular. Às vezes você pega o celular para fazer alguma coisa de trabalho e, de repente, cai ali numa rede social. Fica ali 3 horas passando a tela, você nem percebeu que o tempo passou, não fez o que precisava fazer e perdeu muito tempo da sua vida. O que sobra depois é uma sensação de vazio muito grande. Agora, se você pegar a sua atenção e doá-la para uma outra pessoa, tiver uma conversa em que você está realmente prestando atenção no que a outra pessoa está dizendo, você vai se sentir melhor e a pessoa com quem você está conversando também. A atenção, quando ela é doada, nos deixa realizados. O livro nos instiga a usar essa dádiva da nossa existência.
Eu queria falar um pouco sobre o papel da cultura, porque você sempre foi muito envolvido no setor cultural. É, inclusive, curador do C6 Fest. Qual é o papel da cultura na construção de uma sociedade com mais atenção e equilíbrio?
A cultura é um remédio. Por exemplo, quando eu tive problemas de saúde mental por excesso de uso da mente, o que me salvou foi a música. Eu vivia para a mente e o coração era ignorado, assim como o corpo. Quando o meu colapso chegou, eu comecei a correr, porque a corrida aliviava o meu sofrimento existencial. E a segunda coisa foi que, para reconectar o coração, o caminho foi através da música. Eu fiquei 3 anos da minha vida basicamente só ouvindo reggae, porque o reggae tem uma habilidade de cura, assim como o samba. E, obviamente, a cultura também está sob ataque da IA. Vemos hoje a IA escrevendo pelas pessoas, roubando a voz das pessoas. Se relacionar com essas imagens é algo que nos traz um vazio. É o oposto do que uma experiência cultural verdadeira nos traz. Quando você vive uma experiência cultural efetiva, o seu coração se alegra, a sua mente se acende e seu corpo pode até querer dançar espontaneamente. A cultura pode ser um grande antídoto contra toda essa captura que estamos vivenciando.
O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas
- Autor: Ronaldo Lemos
- Editora: Todavia (R$ 192 págs.; R$ 66 e R$ 54 o e-book)
- Lançamento em SP: 26/8, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi (Av. Brig. Faria Lima, 2232 - Jardim Paulistano)
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