"Backrooms": o fenômeno da internet que desafia Hollywood
Com orçamento modesto e impulsionado por fãs da Geração Z, terror dirigido por youtuber de 20 anos lidera bilheterias e sugere desgaste do modelo de Hollywood.No longa Backrooms: Um Não-Lugar, Clark (Chiwetel Ejiofor) é um arquiteto fracassado que administra uma loja decadente de móveis baratos. Deprimido após um divórcio, ele costuma beber até cair no sono no próprio estabelecimento. Até que um dia ele descobre um portal para um misterioso labirinto de corredores aparentemente infinitos.
Sua terapeuta, Mary, é interpretada pela atriz de Valor Sentimental, Renate Reinsve. Ela também acaba indo parar nos corredores assustadores, ao mesmo tempo que lida com suas próprias memórias traumáticas da infância.
Com apenas 20 anos, o diretor Kane Parsons se tornou o cineasta mais jovem da história a liderar as bilheterias dos Estados Unidos com um filme produzido pelo estúdio independente A24.
Somente no fim de semana de estreia, a produção — com orçamento de 10 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de reais) — arrecadou 81 milhões de dólares nos EUA e 118 milhões de dólares no total com vendas internacionais, tomando o primeiro lugar de O Mandaloriano e Grogu, o mais recente filme da franquia Star Wars.
Mesmo ainda aguardando estreia em várias partes do mundo nas primeiras semanas de junho, o filme já quebrou diversos recordes. Trata-se da maior estreia da história na América do Norte para um terror original e o melhor fim de semana de abertura para um diretor estreante com um filme fora de franquias.
Contribuindo para o sucesso está o fato de que o filme surgiu de um fenômeno viral que também se assemelha a um labirinto sem fim.
Uma única foto que inspirou todo um universo
Tudo começou com a fotografia de uma sala de escritório grande e vazia, com luzes fluorescentes e paredes amarelas deprimentes, que circulou em diversos fóruns ao longo da última década. Em maio de 2019, ela também apareceu num post do site anônimo de imagens 4chan.
Uma resposta à postagem batizou a imagem de "Backrooms" ("salas dos fundos", em tradução livre): "Se você não tiver cuidado e acabar noclipando para fora da realidade nos lugares errados, vai terminar nas Backrooms, onde só existe o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monotônico, o ruído constante de luzes fluorescentes zumbindo no nível máximo e aproximadamente 600 milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente, nas quais você ficará preso", diz a publicação icônica que deu início a toda uma mitologia online em torno do espaço.
A postagem continua de forma ameaçadora: "Deus te proteja caso você ouça algo andando por perto, porque com certeza aquilo já te ouviu."
"Noclip" é um termo usado no universo dos games para se referir a códigos que "desligam a detecção de colisão" - ou seja, que permitem atravessar superfícies sólidas. Em lendas urbanas da internet, isso também representa a ideia de sair da realidade e cair acidentalmente em dimensões secretas.
Outro termo importante para entender o fenômeno é creepypasta, variante de terror do jargão copypasta (de "copiar e colar"), por meio do qual blocos de texto se tornam virais ao serem reproduzidos na internet.
Usuários então expandem essas creepypastas, criando diferentes histórias paranormais que acabam se tornando o equivalente digital das lendas urbanas.
Desde então, inúmeros fãs das Backrooms publicam fotos relacionadas ao mito no Reddit, escrevem histórias em fóruns de fanfiction ou criam games de jumpscare (jogos com sustos repentinos) para plataformas como o Steam.
O criador de Ruptura, Dan Erickson, chegou a afirmar que o conceito das Backrooms influenciou o espaço de escritório estranho e aparentemente infinito da série.
YouTuber Kane Pixels leva a Geração Z aos cinemas
Kane Parsons está entre os fãs que mais contribuíram para o desenvolvimento do mito das Backrooms.
Ainda na adolescência, ele já era um youtuber experiente: teria começado a postar na plataforma aos 9 anos, produzindo vídeos do jogo Minecraft. Durante a pandemia de covid-19, aprendeu a usar o software de computação gráfica 3D de código aberto Blender para criar animações das Backrooms em sua série que viralizou.
Seu vídeo "The Backrooms (Found Footage)", publicado há quatro anos em seu canal Kane Pixels, ultrapassou 80 milhões de visualizações.
O vídeo mostra um jovem cineasta dos anos 1990 que acidentalmente "noclipa" para dentro de um labirinto extradimensional de salas abandonadas onde vivem entidades hostis.
Sua série de 22 vídeos sobre as Backrooms explora, por exemplo, como experimentos de uma corporação fictícia poderiam ter criado esses espaços "liminares", além de apresentar a autópsia de uma vítima não identificada feita por um patologista.
Como a geração do YouTube está mudando a estratégia de Hollywood
A popularidade de Parsons como Kane Pixels é vista como um fator importante para a estreia histórica de Backrooms.
O segundo sucesso surpreendente do mês é outro terror, também dirigido por um youtuber: o cineasta de 26 anos Curry Barker. Após três fins de semana em cartaz, seu filme Obsessão arrecadou 148 milhões de dólares (750 milhões de reais) no mundo todo com um orçamento inferior a 1 milhão de dólares (cerca de 5 milhões de reais).
Segundo a revista Variety, o sucesso desses youtubers marca "uma mudança tectônica em Hollywood, que envia ondas de choque por toda a indústria".
Diante da queda de 70% nas bilheterias de O Mandaloriano e Grogu em seu segundo fim de semana, analistas apontam que a Geração Z parece estar ficando cansada de franquias cinematográficas repetitivas, com spin-offs, prequelas e sequências intermináveis.
"O momento chegou", disse um executivo à revista The Hollywood Reporter. "O YouTube está impulsionando esses cineastas e nós estamos tendo dificuldade de acompanhar."
Ainda assim, Hollywood não deve abandonar tão cedo suas estratégias tradicionais, já que continuações seguem em pauta: relatos iniciais aliás, indicam que Kane Parsons também dirigirá uma sequência de seu recordista Backrooms.
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