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Você escolheu errado seu super-herói

13 mai 2022 02h00
| atualizado às 19h03
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Foto: Pixabay

Qual pessoa sendo dona de uma grande fortuna gostaria de se arriscar pelas noites em claro espancando bandidos pela cidade? Dedicar seus dias a praticar bullying em uma garotinha? Perseguir e matar todo marginal que encontrar? Ou punir severamente, inclusive com execução sumária até os pequenos infratores? Saiba que muitos gostariam disso, se não parassem para pensar melhor.

O mito do herói como um ser humano dotado de força e virtudes teve início com o poema épico “Epopeia de Gilgamesh”, escrito pelos sumérios no século VII a.c. De lá pra cá esse arquétipo do herói imbuído de repassar aos leitores os mais justos valores morais e altruísmo se repetiu por todo o mundo, tendo seu auge nos pulps e quadrinhos no século XX. Porém alguns autores souberam explorar pequenas falhas morais em alguns heróis, algumas tão graves que os tornaram piores que os vilões, mas os leitores amaram. 

A explicação para essa aceitação vem de que geralmente o homem não é educado para ser conciliador, pacífico ou com sentimentos visíveis, a educação masculina exalta a testosterona, o fascínio pelas armas, linguagem grosseira, insegurança emocional, ausência de sentimentos e imposição pela força, essa educação antes se disfarçava pelos longos períodos de guerra, que pediam homens fortes e aptos para defenderem seu país, e esse modelo de pensamento e comportamento masculino se tornou cultural, sendo perpetuado até hoje através de filmes, quadrinhos e brinquedos.

Nas HQs temos diversos exemplos de heróis-modelo de comportamento violento e perfil psicológico no limite da internação a começar por um dos mais icônicos vigilantes noturnos.

Batman, o homem-morcego criado por Bill Finger e Bob Kane, em suas primeiras histórias não se poupava em matar alguns bandidos em seu caminho, essa violência foi levada para seu primeiro seriado em 1943, onde ele jogava os oponentes do alto de um edifício para a morte. Nos anos 1980, artistas como Frank Miller intensificaram esse lado violento e quase psicótico do herói. É o tipo de pessoa que você jamais deixaria sozinho perto de seu filho.

O ápice dos anti-heróis ocorreu durante os anos 1970, marcados por um descontentamento político na maior parte do mundo, as pessoas estavam desacreditando nos heróis que muitas vezes mostravam um positivismo irreal para a época, então surgiram alguns personagens ainda “do bem” mas com pequenas lapsos de comportamento claramente assumidos, dando voz aos sentimentos que muitos jovens e adultos gostariam de colocar pra fora. Alguns destes novos heróis flertaram com o fascismo, como Juiz Dredd criado por John Wagner e Carlos Ezquerra em 1977, que atuava, julgava, condenava e até executava cidadãos e vilões. Quanto mais radical Dredd se tornava, mais ele se tornava popular entre os leitores. 

Nas páginas da revista do Homem-Aranha em fevereiro de 1974 surgiu o Justiceiro, um ex-combatente do Vietnã, que teve sua família assassinada por bandidos, e a partir desse momento ele passa a perseguir e matar toda e qualquer pessoa que infrinja a lei, se tornado a encarnação da máxima “bandido bom é bandido morto”, não é à toa que o símbolo de seu uniforme tenha sido adotado no Brasil por policiais e militares radicais. Além das HQs o Justiceiro ganhou três filmes para o cinema e uma série de TV fazendo o seu melhor: matar.

Apesar de estarem entre o time dos heróis, os personagens Comediante e Rorschach em Watchmen (1986), são amorais, violentos, mentalmente instáveis e com atos mais cruéis que seus inimigos, e mesmo o ponderado Ozymandias não hesita em matar parte da população em nome de um “bem maior”. 

O supergrupo The Authority criado por Warren Ellis e Brian Hitch se nomeia como uma espécie de polícia mundial, seguindo uma regra simples: matar qualquer vilão ou pessoa que ameace a ordem estabelecida por eles, e é através de um sistema de vigilância interdimensional, que eles vigiam cada país, cada cidade, cada cidadão, de maneira invasiva como no romance 1984.

O comportamento de Dredd e Justiceiro ganhou uma violenta sátira criada por Pat Mills e Kevin O’Neill: Marshall Law, um policial vestido com um uniforme de couro semelhante aos dos praticante de BDSM, com a missão de prender e matar qualquer outro mascarado que surja, seja ele herói ou vilão, e sem o menor remorso ou qualquer traço de empatia. 

Já a série de TV e quadrinhos The Boys, trata do abuso de poder perpetrado por seres superpoderosos que são glamorosos, adorados pela população e que usam de seus poderes para abusarem das pessoas comuns, então para combatê-los um pequeno grupo de pessoas comuns age de forma ainda mais violenta e fora da lei, é o uso de um erro para consertar outro erro, e o que muda entre eles é o direcionamento da violência. Essa trama foi criada por Garth Ennis e Darick Robertson. 

Certa vez os editores da Marvel Comics ponderaram de que Wolverine, o mais popular dos X-Men, estava por demais violento, e em uma tentativa de suavizar o herói, decretaram que ele nunca havia matado ninguém nas HQs, e que suas garras apenas deixavam os oponentes feridos. Isso gerou uma revolta entre os leitores que se sentiram traídos, afinal quanto mais garras e sangue melhor, e ninguém queria um Wolverine sem o peso de várias mortes em sua consciência.

O uso da violência e desajustes emocionais como gancho para aproximar o personagem ao leitor, não foi restrito ao mundo dos super-heróis, alguns quadrinhos e desenhos infantis, também se valeram dessa estratégia para criar uma conexão inconsciente com os leitores mais velhos.

Quando Walt Disney transformou o Mickey em personagem-símbolo da marca Disney, tirou dele todos os defeitos que ele tinha em suas primeiras histórias, transformou o ratinho em um cidadão alegre, honesto, simpático, respeitoso com a lei e com as pessoas. O Mickey foi projetado para ser o adulto que gostaríamos que nossos filhos se tornassem, já o Pato Donald assumiu os erros, raivas, explosões emocionais e frustrações comuns entre os adultos. Pelo espelho Disney nós queremos que nossos filhos sejam como o Mickey, enquanto nos comportamos como o Donald.

No Brasil, a maioria das pessoas com menos de cinquenta anos de idade cresceu lendo as histórias da Turma da Mônica criadas por Maurício de Sousa, onde predominavam as aventuras do Cebolinha, Cascão e Mônica, que se resumiam ao eterno bullying do Cebolinha e Cascão contra a Mônica tratando-a como “baixinha, gorducha e dentuça”, e esta por sua vez além de desmontar todo “plano infalível” do Cebolinha, terminava por agredi-los violentamente, e os desenhos de traços infantis camuflaram bem esse processo passivo-agressivo dos personagens.

O culto à violência desmedida em nome do “bem” talvez seja o que torna os vilões bem mais carismáticos e dedicados do que os heróis, e quando isso se mescla ao mocinho, nos sentimos livres para transpirarmos toda a nossa agressividade respaldados por ele.

Essa lição é bem percebida em Star Wars, onde todos torcemos por Luke Skywalker, mas no fundo o que gostaríamos mesmo, é de sermos o Darth Vader e ter um império para chamar de nosso.

...continua na próxima edição.

(*) Nikki Nixon é especialista em Processos Criativos, palestrante e fundador da Deuses e Monstros – Escola de Artes.

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