'Ticket To The Circus': a improvável jornada da Sra. Mailer
- Dwight Garner
Quando Barbara Jean Davis - que se tornaria Norris Church Mailer - conheceu Norman Mailer em uma festa em Russelville, Arkansas, em 1975, ela era uma professora colegial de artes e mãe divorciada. Ela nunca havia voado de avião. Ela tinha um armário cheio de roupas de poliéster.
Quando Barbara levou Mailer à sua casa naquela primeira noite, ela lhe serviu uma taça de cidra Boone's Farm. Norman Mailer era, bem, Norman Mailer, romancista, intelectual público, vociferante provocador social. Sua melhor produção ("Os Nus e os Mortos", "Os Exércitos da Noite") talvez já fosse passado, mas ele era o escritor mais conhecido e notório dos Estados Unidos, famoso por suas proezas tanto fora quanto dentro das páginas. Ele havia se candidatado a prefeito de Nova York, se casado cinco vezes, esfaqueado sua segunda esposa, Adele, em uma explosão ébria depois de uma festa e era o flagelo travesso das feministas. Sua reputação, como sua barriga redonda, o precedia.
Em sua divertida nova biografia, A Ticket to the Circus, Norris Mailer escreve que achava aquela barriga, assim como seu "pequeno e charmoso" traseiro, meio que sexy. Norman Mailer, aos 52, podia ter o dobro da idade dela, mas era "facilmente o homem mais interessante que já conheci". Ele irradiava energia, escreve, "como um pequeno aquecedor a vapor" (Mailer entendia de homens quentes: ela teve um breve relacionamento com Bill Clinton antes de ele casar com Hillary).
Pouco tempo depois, Barbara e Norman eram um casal. Ele lhe enviava cartas de amor nos moldes de Barry White ("E você, dama leal, é dourada como o sol."). Ela cortava seus cabelos lanosos e os guardava em uma almofada de cetim em forma de coração. Em pouco tempo, ele se separou de sua quinta esposa e das várias outras amantes. Ela se mudou para Nova York e adotou o nome Norris Church por causa de sua carreira incerta de modelo. Ela se tornou a sexta esposa de Mailer em 1980 e deu à luz John Buffalo. Ela estava ao lado do marido quando ele morreu em novembro de 2007.
A Ticket to the Circus não são memórias que revelam tudo, mas que revelam o bastante. A obra é a corajosa e às vezes sentimental autobiografia de Mailer, escrita com o odor de chá de limão típico de romancistas sulistas como Lee Smith. O livro detalha sua criação pobre no Arkansas: o pai construía estradas, a família morava num casebre improvisado. Aos três anos, Mailer ganhou o concurso de Pequena Miss Little Rock. Ela se casou aos 20 anos, com um homem que partiu para servir no Vietnã, e logo cedo começou a escutar uma voz em sua cabeça "dizendo-me que havia perdido o melhor da festa".
Mailer não esconde os elementos mais sombrios de sua história: os tratamentos de choque de sua mãe, o estupro pelo amigo do irmão mais velho. Ela também inclui porções embaraçosas que outros biógrafos poderiam ter omitido, como cartas e poemas melosos que ela enviava a Norman. (Você estava lá e/ Eu estava lá /Em um bolsão /De sol /No vácuo do espaço).
Seu livro se anima quando Norman entra definitivamente em cena. Ele se torna o "Henry Higgins da minha Eliza Doolittle", escreve a autora, e, logo, Bob Dylan, Joni Mitchell, Woody Allen e Jackie Onassis passam a frequentar suas festas; eles viajam a Manila para uma luta de Ali contra Frazier e saem com Imelda Marcos; eles fazem amizade com os Ramones, Farrah Fawcett e Fidel Castro. Ela comandava a vida de Norman como um navio e organizava os eventos e férias familiares que mantinham a grande família dele unida. Ainda assim, escreve ela, "o sexo era o cordão que nos mantinha unidos".
A Ticket to the Circus transborda de detalhes picantes sobre Norman Mailer. Ele era péssimo motorista. Ele gostava de chegar com horas de antecedência ao aeroporto. Ele tinha poucos amigos eruditos. Ele professava um amor pelo jazz, mas apreciava apenas sua atmosfera - detestava a música. Ele era fanático por salada de repolho. Seu melhor golpe numa luta era uma cabeçada. Mais tarde na vida, seu coquetel preferido passou a ser vinho tinto com um pouco de suco de laranja, o que Norris Mailer chama de "ponche de sangria suave". Nas férias, ele acordava animadamente seus filhos com cantos vulgares que havia aprendido no Exército.
Norris Mailer não se aprofunda nos escritos de Norman, nem em sua reputação de brutal antagonista das feministas. A petulância machista em seu livro O Prisioneiro do Sexo (1971), sugere ela, foi mal comprendida:
"Para mim, o humor e a ironia eram inerentes, mas não dá para transferir a piscadela para a página, então muita gente tratou tudo o que ele disse com perfeita seriedade, como seu famoso comentário de que mulheres devem ser mantidas em jaulas. Quem pensaria que ele estivesse falando sério?"
A Ticket to the Circus é uma história de amor, e é impossível ler essas memórias sem sentir uma pontada de inveja: esses dois tiveram vidas grandiosas e irradiantes em quase todos os aspectos. Essa vida também significou, para Norris Mailer, uma boa dose de mágoas. Ele continuou a ter amantes e às vezes dava desculpas risíveis sobre elas. Enquanto escrevia seu romance da CIA, O Fantasma de Harlot (1991), relata Norris, "Ele disse que precisava viver esse tipo de vida dupla para saber pelo que seus personagens estavam passando".
Ela se afastou emocionalmente dele por causa dos casos, escreve, e, embora o amasse, nunca superou essa distância. A certo ponto, ela pergunta: "Por que eu fui tão consumida por esse pequeno dínamo velho, gordo, bombástico e mentiroso?"O fim de Norman Mailer não é bonito. Antes de passar por uma cirurgia no fim da vida, os médicos tiraram todos os seus dentes para evitar infecções.
"Esse foi o começo de seu declínio", escreve Norris Mailer. Seus implantes dentais não vingaram, e ele foi forçado a usar uma dentadura que nunca serviu de verdade. Ele começou a perder peso.
Norris tinha seus próprios problemas de saúde, inclusive uma longa batalha contra o câncer. Essa é uma que ela ainda está lutando. Acreditamos em Norris quando ela escreve, quase ao final dessa graciosa biografia, "Se eu for amanhã, ainda serei ouvida".
(Tradução: Amy Traduções)