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O relato do pai de Anne Frank sobre sua filha: 'Só aprendi a conhecê-la realmente por meio do diário'

Em 25 de junho de 1947, o Diário de Anne Frank foi publicado pela primeira vez, tornando-se um best-seller em todo o mundo.

24 jun 2024 - 16h45
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Em 25 de junho de 1947, o Diário de Anne Frank foi publicado pela primeira vez, tornando-se um best-seller em todo o mundo.

Seu pai, Otto Frank, foi o responsável por fazer das escritas da filha um livro tão conhecido. Ele conta que, inicialmente, não suportava ler, e muito menos pensava em publicar, o diário de Anne, que, nesta semana, completa 57 anos desde o seu lançamento.

Em 1976, ele foi ao Estúdio Blue Peter da BBC para explicar por que fez isso. "Eu só aprendi a conhecê-la realmente por meio de seu diário", confessou Otto Frank a Lesley Judd, do Blue Peter, enquanto lhe mostrava os escritos pessoais de sua amada e falecida filha Anne.

Na verdade, Otto deu à sua inteligente e extrovertida filha um livro de autógrafos como presente em seu aniversário de 13 anos, em 12 de junho de 1942.

Mas Anne quase imediatamente decidiu usá-lo como um diário e começou a registrar seus pensamentos mais íntimos, escrevendo como se estivesse revelando segredos para um amigo próximo.

"Espero poder confiar totalmente em você, como nunca pude fazer com ninguém antes", leu Otto na primeira anotação do diário de Anne no programa infantil de TV. "E espero que você seja um grande apoio e conforto para mim."

Otto fugiu com a família para Amsterdã em 1933, saindo de Frankfurt, onde Anne nasceu, após o sucesso do Partido Nazista nas eleições federais alemãs e a nomeação de Adolf Hitler como chanceler do Reich.

Mas a segurança que a capital holandesa parecia oferecer diante da ameaça iminente dos nazistas foi apenas um alívio temporário para a família.

Em 1940, Hitler, tendo agora tomado o poder e se declarado führer, invadiu a Holanda.

Com a ocupação alemã surgiu uma onda de medidas antissemitas. Os judeus foram proibidos de manter negócios, forçados a usar estrelas amarelas de identificação e tiveram de obedecer a um toque de recolher.

Otto, como muitos judeus, vinha tentando emigrar para os EUA desde 1938. Mas a falta de uma política de asilo e o longo processo para obter um visto fizeram com que toda a burocracia não pudesse ser concluída antes que os nazistas fechassem os escritórios consulares dos EUA em todos os territórios ocupados pelos alemães em julho de 1941.

Um mês depois do aniversário de Anne, em 1942, a filha mais velha de Otto, Margot, recebeu uma convocação para se apresentar num campo de trabalhos forçados alemão.

Para fugir das autoridades, a família toda se mudou para um anexo secreto que Otto descobrira por cima das suas instalações comerciais em Amesterdã.

Nos dois anos seguintes, a família Frank ficou escondida naquele espaço, juntamente com outra família e um amigo. No ambiente sufocante, todos eram forçados a permanecer em silêncio durante o dia e, por medo de serem ouvidos, não podiam usar o banheiro até que a noite chegasse, quando o escritório ficava vazio.

Alimentos e suprimentos foram contrabandeados por um pequeno grupo de ajudantes de confiança.

Durante todo esse tempo, Anne continuou rabiscando seus pensamentos em segredo em seu diário. Sentindo falta de amigos da sua idade, ela inventou personagens fictícios como Kitty, para quem começou a escrever.

Sua ansiedade, aspirações e tédio, juntamente com as frustrações rotineiras de viver tão confinada com outras pessoas, estavam todas expostas nas páginas de seu diário.

A última data de registros é de 1º de agosto de 1944. Na manhã de 4 de agosto, a Gestapo invadiu o esconderijo e todos os ocupantes foram presos. A razão de sua descoberta ainda é contestada.

Os Franks foram levados para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde Otto foi separado de sua esposa Edith e das filhas Margot e Anne. Ele nunca mais as veria — as três morreriam nos campos.

Anne, que junto com sua irmã acabou sendo transferida para o campo de concentração de Bergen-Belsen, morreu de tifo em março de 1945, poucas semanas antes de o campo ser libertado.

Coragem e humanidade extraordinárias

Otto foi o único membro do anexo que sobreviveu. Após a guerra, ele retornou a Amsterdã para procurar sua família, ficando arrasado ao saber de seu destino.

Os diários e cartas de Anne foram resgatados de seu esconderijo saqueado por seus amigos Miep Gies e Bep Voskuijl, que puderam entregá-los a Otto quando ele voltou. Mas, devido a tanta dor, era insuportável olhar para eles.

"Não tenho forças para lê-los", escreveu ele à mãe na Suíça, em 22 de agosto de 1945.

Quando Otto finalmente conseguiu abrir os diários, os escritos foram uma revelação para ele.

Ofereceram-lhe uma janela para a mente da sua filha adolescente inteligente, vulnerável e expressiva, enquanto ela navegava pelas complexidades da adolescência nas circunstâncias mais aterradoras.

Em tom simples, eles detalhavam seus conflitos com a mãe e seus ressentimentos em relação à irmã, suas preocupações com sua reputação e a mudança de seu corpo.

Também revelaram o quão opressivo ela considerava o confinamento e o silêncio do anexo, e a sua irritação palpável com as pessoas com quem vivia.

Ela escreveu sobre seu isolamento e a ameaça constante e aterrorizante de sua descoberta. Como ela se sentia como "um pássaro canoro que teve suas asas cortadas e que se atira na escuridão total contra as grades de sua gaiola".

O diário original, exposto na Casa de Anne Frank, em Amsterdã
O diário original, exposto na Casa de Anne Frank, em Amsterdã
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas Otto também teve pôde ter uma ideia dos pequenos momentos de alegria da filha: a natureza que ela vislumbrou pela janela e seu romance com Peter van Daan, o garoto que também morava no anexo.

Ela escreveu sobre seus sonhos de patinar na Suíça e suas ambições de ser publicada; seus pensamentos sobre sua identidade e seus relacionamentos com amigos, reais e imaginários.

Ele começou a compreender a mente complexa e imaginativa de Anne à medida que ela mudava e amadurecia.

"Eu não seria mais capaz de escrever esse tipo de coisa", escreveu ela sobre uma de suas primeiras anotações em seu diário.

"Agora que estou relendo meu diário, depois de um ano e meio, estou surpresa com minha inocência infantil. No fundo, sei que nunca mais poderia ser tão inocente, por mais que quisesse."

Acima de tudo, Otto apreciou o dom de Anne como escritora e a extraordinária coragem e humanidade que ela tinha diante do terror implacável das circunstâncias.

"Depois de ler o diário, fiz algumas cópias e dei a amigos da família", disse ele à BBC em 1976.

"Um deles trabalhava em uma editora e me disse 'você não tem o direito de manter o diário como propriedade privada, é um documento humano e você deveria publicá-lo'."

Em 25 de junho de 1947, O Anexo Secreto, um livro compilado a partir das anotações e escritos do diário de Anne, foi publicado.

Além de corrigir alguns de seus erros de linguagem, Otto fez uma certa limpeza, editando algumas das impressões críticas de Anne sobre seu casamento, passagens sobre sua sexualidade e suas representações às vezes selvagens de pessoas que ela conhecia.

O livro foi um sucesso instantâneo, uma garota dando uma cara ao horror e à magnitude quase incompreensíveis do genocídio nazista.

Em 1952 foi publicado em inglês com o título Anne Frank: The Diary of a Young Girl. Foi transformada em uma peça de teatro ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1956 e em um filme três anos depois.

As palavras de Anne sobreviveram em muito à sua curta vida; elas foram traduzidas para mais de 70 idiomas e continuam a repercutir entre leitores de todo o mundo.

Questionado se ele tinha alguma reserva sobre publicar e revelar os pensamentos mais íntimos de sua filha, Otto Frank disse: "Não me arrependi porque Anne escreveu em um de seus diários: 'Quero continuar vivendo depois da minha morte', e, de certa forma, através de seu diário ela está vivendo em muitos corações."

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