Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

'Maria Erótica' observa o sexo durante o regime militar no Brasil

26 ago 2010 - 16h22
(atualizado às 16h29)
Compartilhar

Carol Almeida

Sexo e subversão. Notem que a letra que liga os dois substantivos não se trata de um verbo, mas por muitos anos no Brasil essas duas palavras vinham quase sempre atadas na seguinte construção gramatical: "sexo é subversão". Com o lançamento nesta quinta-feira (26) do livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo (veja fotos na aba acima), do jornalista, escritor e um dos poucos memorialistas brasileiros Gonçalo Junior, sexo e subversão voltam a contracenar no mesmo palco, mas agora como protagonistas de uma história sobre a qual poucos ainda se debruçaram com sinceridade e profundidade: a ditadura militar no Brasil.

Com seu novo livro, Gonçalo nos apresenta ao regime ditatorial brasileiro segundo o ponto de vista daquilo que o fez forte e, de certa forma, amplamente aceito por parte da classe média nacional: os valores morais da tradição, família e propriedade. É partindo desse sustentáculo moral que o autor tece uma história coletiva do Brasil a partir da repressão do regime ao sexo, ao corpo e, em última instância, ao desejo. Ou nas palavras do próprio Gonçalo: "O regime militar encontraria na repressão sexual uma forma de tentar se perpetuar no poder, graças ao discurso demonizador contra qualquer forma de nudez ou de exposição do corpo".

Tomando como personagens principais dessa história dois brasileiros de origem japonesa, Minami Keizi e Claudio Seto, Gonçalo destrincha todos os processos do mercado editorial brasileiro de revistas eróticas e sua relação direta com a censura. O que começa com um coincidente gosto de ambos os nomes citados acima, o mangá (quadrinhos japoneses), termina se concretizando em uma editora que parte de um sonho em se fazer quadrinhos nacionais para um grande público e termina se revelando um marco para as edições eróticas que começam a ser impressas justamente no momento mais difícil para a liberdade de expressão em território brasileiro.

Nesse fogo cruzado entre um regime político que ganhava parte da simpatia da população por ressaltar valores morais e um mundo que entrava em ebulição com a revolução sexual, a independência da mulher e os métodos anticoncepcionais, o mercado de revistas eróticas começou a crescer, ainda que sob o olhar panóptico dos censuradores.

O livro de Gonçalo é importante porque lança um novo olhar sobre um período de verdades ainda um tanto nebulosas para boa parte dos brasileiros e faz isso de uma maneira simples, porém bastante contextualizada e pesquisada a fundo. A partir das histórias daqueles que construíram e trabalharam em duas editoras, o autor revela uma parte importante da história da vida privada dos brasileiros que, nas palavras sábias de Nelson Rodrigues, sempre foram "netos retardatários de Bocage".

Com as histórias das editoras Edrel, em São Paulo, e a Grafipar, em Curitiba, a primeira herdeira de iniciativas inovadoras nas histórias em quadrinhos e a segunda que curiosamente se firmou a partir da edição de dicionários, surgem publicações que dividiram águas para a chamada "revista masculina": Estórias Adultas, Garotas & Piadas (ambas da Edrel), Penthouse e a Maria Erótica que dá título ao livro (ambas da Grafipar) viram objetos de pesquisa fundamentais para se entender um momento que o país viveu, simultaneamente, uma vanguarda artística e uma repressão criativa.

O que começou como uma pesquisa sobre a vida de duas pessoas fundamentais para as histórias em quadrinhos do Brasil, Minami e Seto, terminou como um compêndio sobre os limites morais que ajudaram a levantar a bandeira do regime militar.

Maria Erótica e o Clamor do Sexo - Lançamento nesta quinta-feira (26), na Comix (Alameda Jaú, 1998, Jardins, São Paulo), a partir das 18h

Foto: Divulgação
Fonte: Redação Terra
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra