Investigação aponta possível ajuda interna em furto de obras renascentistas na Itália
Grupo invadiu museu na Sicília e levou pinturas de Antonello da Messina
As investigações sobre o furto de obras do pintor renascentista Antonello da Messina no Museu Regional Accaccina Messina (MuMe), no sul da Itália, avançam em diferentes frentes nesta terça-feira (18) e apontam para a possibilidade de envolvimento de pessoas de dentro da instituição.
O crime ocorreu na noite de sábado (15), durante o feriado de Ferragosto, e mobilizou a polícia, os Carabineiros especializados na proteção do patrimônio cultural e a Promotoria de Messina.
Em entrevista ao telejornal TG1, o procurador-chefe de Messina, Antonio D'Amato, afirmou que os investigadores trabalham com várias hipóteses.
"As pistas que estamos seguindo apontam para várias direções, incluindo a possibilidade de ajuda interna. A promotoria está analisando falhas na segurança e na supervisão da equipe", declarou.
Segundo ele, também não está descartada a atuação de organizações criminosas de perfil mafioso, historicamente associadas ao roubo e ao tráfico de obras de arte na Itália.
Os peritos recolheram diversos vestígios deixados pelos criminosos e analisam o material em busca de elementos que possam ajudar a identificar os responsáveis. As imagens das câmeras de segurança também estão sendo examinadas. Os suspeitos aparecem com os rostos cobertos por capacetes.
As circunstâncias do crime indicam que o grupo pode não ter seguido um plano totalmente elaborado. O alarme do museu disparou e o sistema de videovigilância registrou a ação.
Durante a fuga, os assaltantes abandonaram do lado de fora do prédio dois dos cinco painéis do Políptico de São Gregório, obra de Antonello da Messina datada de 1473. As peças foram encontradas por volta das 21h por pessoas que passavam pelo local e acionaram a polícia.
Entre as obras levadas está ainda uma pintura de dupla face que representa, de um lado, a Virgem com o Menino Jesus e um franciscano em adoração e, do outro, a Pietà. A peça estava protegida por vidro blindado.
Uma van examinada na segunda-feira (17) por suspeita de ter sido utilizada no crime não pertence, segundo fontes da investigação, aos autores do roubo.
Os quatro funcionários que estavam de serviço na noite do crime ? duas servidoras do quadro regional e dois homens anteriormente vinculados ao programa ASU, contratados pela Servizi Ausiliari Sicilia ? foram afastados compulsoriamente de suas funções.
Eles foram interrogados pela polícia e pelos Carabineiros, mas afirmaram não ter percebido o roubo.
Os funcionários só teriam tomado conhecimento do desaparecimento das obras quando agentes foram até a entrada principal do museu para verificar se os dois painéis encontrados na rua pertenciam ao acervo da instituição.
Processos disciplinares deverão ser instaurados depois que o Departamento de Patrimônio Cultural da Região da Sicília receber o relatório da diretora do museu, Marisa Mercurio. A punição máxima prevista é a demissão.
Também foram verificadas as documentações e os registros internos mantidos pelo museu nos dias anteriores ao roubo. Até o momento, segundo informações da investigação, não foram encontradas irregularidades.
O governador da Sicília, Renato Schifani, determinou uma inspeção no museu. Ontem, o conselheiro regional de Patrimônio Cultural, Francesco Scarpinato, esteve no local e reuniu-se com funcionários.
Apesar do roubo, o MuMe reabriu normalmente nesta terça-feira (18) e cerca de 30 pessoas o visitaram nesta manhã, enquanto 15 funcionários permaneciam em serviço.
Os suportes onde estavam expostos os painéis de Antonello da Messina foram cobertos por panos pretos. Um funcionário afirmou que a equipe está especialmente atenta após o episódio e relatou ter advertido uma pessoa que tentava escalar a grade externa.
A visitante Elisabetta Bonfato, que encontrou os dois painéis recuperados ao lado do marido, afirmou que duas barras metálicas da cerca externa estavam afastadas havia meses.
O museu abriga um importante acervo arqueológico, medieval e artístico, com obras dos séculos XV ao XIX. Entre os destaques estão trabalhos de Caravaggio, como "A Ressurreição de Lázaro" e "A Adoração dos Pastores", além de pinturas de Mattia Preti, Girolamo Alibrandi, Alonso Rodríguez e outros artistas sicilianos e do sul da Itália.
"Viemos admirar este museu. É verdadeiramente magnífico; é uma pena o que aconteceu", disse um visitante. Para ele, o roubo representa uma perda para Messina, para a comunidade e para o mundo da arte.
As investigações continuam para esclarecer as circunstâncias do crime, identificar os responsáveis e localizar as obras que permanecem desaparecidas.
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