'Guerra' por ingressos de turnê do BTS vira pesadelo para fãs que caíram em golpes online
Como a demanda por ingressos supera a oferta em uma proporção de 15 para um, torcedores desesperados se tornaram alvos fáceis de golpistas.
Quando a jovem indonésia Vevee entrou no Ticketmaster em 9 de junho, ela acreditava que sua espera de anos para ver o grupo BTS estava finalmente chegando ao fim.
Como milhões de fãs em todo o mundo, a jovem de 26 anos achava que estava pronta para a batalha que é conseguir ingressos online. Ela até tirou o dia de folga do trabalho.
A extensa turnê global do grupo faria uma parada em sua cidade — a capital da Indonésia, Jacarta — e, como fã de longa data, ela não conseguia imaginar perder isso.
Sentada diante do computador, com os olhos fixos no número da fila que definiria seu destino, Vevee esperou por horas. Quando chegou sua vez, recebeu a notícia de que os ingressos tinham se esgotado.
Mas houve um novo processo de venda. E ela tentou de novo, mas — de novo — sua sorte não mudou. "Parecia impossível porque a demanda era simplesmente absurda", diz à BBC.
Determinada a garantir seu lugar, Vevee encontrou uma conta revendendo ingressos no X e gastou US$ 1,2 mil em quatro assentos VIP. Isso equivale a cerca de dois meses do seu salário.
Mas logo depois pararam de responder. "Assim que enviei o dinheiro, sumiram. É horrível. Estou muito triste e de coração partido", diz a jovem de 26 anos.
Fãs desesperados no Sudeste Asiático, onde o BTS fará 15 dos 88 shows, perderam mais de US$ 100 mil enquanto golpistas se aproveitam da enorme demanda por ingressos.
Tem sido um mês de altos e baixos para os fãs da banda, que se autodenominam Army ("Exército").
Felizes em ver o BTS de volta aos palcos após a pandemia e um hiato de três anos, mas frustrados com a competição extremamente acirrada pelos ingressos, eles se tornaram alvos fáceis para golpistas.
Na Tailândia, parlamentares estão analisando uma petição feita por 126 fãs que foram enganados - eles querem ajuda para entrar em uma "fila de espera".
Golpistas também se infiltram em grupos de fãs online, prometendo acesso exclusivo ou preços mais baixos.
Assim que o dinheiro é transferido, eles desaparecem. Alguns chegam a oferecer "procurações" — geralmente usadas para transferir decisões legais a outra pessoa — para convencer as vítimas de que os ingressos são autênticos.
Essas são táticas conhecidas o suficiente para que as autoridades tenham emitido vários alertas. Mesmo assim, os fãs continuam sendo enganados.
Golpistas fingem urgência
A turnê, que começou em abril e vai até 2027, passará por 34 cidades. O BTS e sua gravadora Hybe poderão faturar quase US$ 2 bilhões com o retorno, vindos de shows, produtos, licenciamento, vendas de álbuns e receitas de streaming, disseram analistas à agência Reuters.
Em toda a Ásia, o número de pessoas disputando ingressos superou em 15 vezes a quantidade disponível, segundo a BBC.
Novas datas continuam sendo adicionadas devido à impressionante demanda. Na semana passada, Jacarta e Bulacan, nas Filipinas, confirmaram um terceiro show cada.
Quando a nova data foi anunciada, Vevee decidiu "brigar por esses ingressos novamente", mas por meios oficiais, ao contrário da última vez, quando o pânico falou mais alto, explica ela.
"Eu estava prestes a entrar em uma reunião de trabalho e estava com muito medo de que outra pessoa conseguisse os ingressos. Só queria transferir o dinheiro rapidamente para garantir", diz.
"Se eu tivesse parado um momento para me acalmar, talvez tivesse percebido os sinais de alerta."
Em Singapura, a polícia recebeu pelo menos 62 denúncias envolvendo ingressos para shows do BTS desde 1º de junho, com prejuízos de mais de 68 mil dólares de Singapura (cerca de R$ 270 mil).
A empresa de comércio eletrônico Carousell suspendeu a revenda de ingressos em sua plataforma, e a proibição ficará em vigor até 22 de dezembro, data do último show do BTS em Singapura.
Na semana passada, a polícia da Malásia disse ter recebido 28 denúncias de pessoas que afirmam ter sido enganadas ao tentar garantir ingressos. As autoridades estão tentando rastrear "contas laranja" envolvidas nas transações, segundo informaram.
Nos primeiros anos, os shows do BTS aconteciam principalmente na Coreia do Sul, Japão e nos EUA. À medida que a banda foi ficando mais famosa pelo mundo, a agenda de shows se expandiu para mais regiões da Ásia, Europa, Oriente Médio e América Latina.
Mas a atual Arirang World Tour é a primeira vez que o grupo realiza vários shows em cinco países do Sudeste Asiático — Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia.
Os ingressos na região custam entre US$ 100 e US$ 300. O pacote mais caro inclui acesso à passagem de som antes do show, assentos premium e produtos do BTS.
Para fãs como Vevee — que acompanharam o grupo em seus altos, baixos e depois em sua ascensão meteórica — assistir à nova turnê é algo especial.
Vevee diz que tinha 14 anos quando descobriu o BTS, cerca de um ano após a estreia do grupo em 2013. Ela gostava da música, mas também dos sete integrantes — RM, Jin, Suga, J-Hope, V, Jimin e Jungkook — que descreve como "muito genuínos".
Em 2019, ela voou sozinha para Bangkok para assistir ao BTS em sua última turnê mundial. Ela conta que foi sua primeira viagem sozinha e que não conhecia ninguém no show, mas recebeu "muita ajuda" de outros fãs. "Foi realmente uma experiência inesquecível e maravilhosa."
Sete anos depois, quando soube que o BTS iria a Jacarta, começou a economizar. "Eu me preparei muito para conseguir esses ingressos, mas, sinceramente, não sou só eu. Todo army se prepara intensamente para isso."
Ela diz que alguns fãs alugaram computadores em cibercafés por uma semana inteira porque não podiam correr o risco de não conseguir um lugar no dia das vendas. Eles acreditam que as altas velocidades de conexão dos computadores poderiam aumentar suas chances.
"Na Indonésia, não estamos apenas lutando pela guerra dos ingressos", diz Vevee. "Lutamos para garantir o melhor cibercafé e até para alugar celulares de última geração. É uma guerra em todas as frentes."
E quando perdem, ficam desanimados.
"Agora que a parada nas Filipinas finalmente foi confirmada, depois do que parece uma eternidade, dói saber que pessoas que esperaram quase uma década podem não ter a chance de vê-los", escreveu um fã filipino no Threads.
"Alguns de nós não estão apenas tentando ir a um show. Estamos tentando finalmente ver as sete pessoas que apoiamos há anos."
Também há fãs que não querem depender apenas da sorte.
Na semana passada, Juraluk Kunaruk apresentou uma queixa no Parlamento da Tailândia em nome de 126 vítimas, cada uma das quais transferiu centenas de dólares para o mesmo usuário do X dias antes da venda de ingressos.
O usuário havia prometido ajudar a conseguir bons lugares. Mas no dia em que as vendas começaram, a conta no X desapareceu.
"Eu vinha acompanhando essa conta há bastante tempo. Eles tinham muitas avaliações e seguidores, então pareciam confiáveis. Os preços também eram razoáveis", diz Juraluk, que perdeu 25 mil baht (US$ 760 ou R$ 3,9 mil) ao pagar pelo que achava serem pacotes VIP.
Nas últimas duas semanas, a jovem de 23 anos passou horas viajando de sua cidade natal até Bangkok para se reunir com parlamentares.
"Os deputados prometeram que vão tentar recuperar nosso dinheiro. Então ainda tenho esperança", diz.
Ela também não desistiu do show: "Ainda quero ir porque não sei quando terei outra oportunidade de vê-los".
Isso não é surpreendente, já que golpes afetaram shows extremamente populares no passado, incluindo a Eras Tour, de Taylor Swift. Alguns fãs pediram à produtora Live Nation e a seus parceiros de venda de ingressos que se esforcem mais para prevenir contra golpes.
A Ticketmaster, subsidiária da Live Nation responsável pela venda de ingressos da turnê do BTS em muitos países, diz que já "reforçou a luta contra cambistas e bots com nova tecnologia de IA e regras mais rigorosas".
Por exemplo, os ingressos serão verificados com base nos endereços de e-mail dos participantes, enquanto fãs com ingressos revendidos podem ser impedidos de entrar no dia do show.
Os fãs devem "comprar ingressos apenas por meio de fontes oficiais", disse uma porta-voz da Ticketmaster à BBC. "O site do artista sempre poderá orientar os fãs no caminho correto."
Mas fãs decepcionados parecem incapazes de resistir ao que parece ser uma última chance de conseguir ingressos.
Cookie, uma fã nas Filipinas, recorreu a uma pessoa que vendia ingressos depois de não conseguir comprá-los em duas ocasiões. Ela achava que tinha sido cuidadosa.
"Adicionei ela no Facebook, verifiquei a conta, o que estudou, de onde era", diz a atendente de suporte ao cliente de 30 anos.
"Assim como outras vítimas ouvidas pela BBC, Cookie não teve mais resposta após o pagamento: a golpista a bloqueou no Facebook, e ela nunca recebeu os ingressos."
"Eu me sinto envergonhada. Nem contei à minha família ou aos meus amigos mais próximos o que aconteceu", diz Cookie.
"Não quero ser julgada ou ouvir 'você é burra'. Foi um ato desesperado, porque eu realmente queria estar lá."
Vevee tentou novamente sabendo que seria "uma batalha difícil", porque o show mais recente em Jacarta acontece no aniversário de um dos integrantes, V.
Ela falhou na primeira tentativa na pré-venda na sexta-feira. "Parece que simplesmente todo mundo está tentando esse último show."
Sem ingressos e em lágrimas, ela traçou uma estratégia para a venda geral do dia seguinte.
Ela e seus amigos se dividiram por Jacarta e "cada um tentou comprar ingressos de locais diferentes, usando diferentes conexões de internet e contas".
E desta vez funcionou. Ela conseguiu os ingressos.
Com reportagem de Virma Simonette Rivera em Manila
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