Espanha: Copa do Mundo de Cinema
Enquanto o cinema europeu ganhava o mundo no pós-Segunda Guerra Mundial, a Espanha vivenciava tempos bastante difíceis no âmbito das manifestações artísticas, cerceadas pela ditadura do general Franco
Por Tem Que Ver*
Campeã mundial em 2010, na África do Sul, a Espanha chegou, nesta Copa do Mundo da FIFA de 2026, à sua 17° participação no torneio. Sob o comando de Luis de La Fuente, que assumiu La Roja em dezembro de 2022, os espanhóis vêm motivados após conquistar a última Eurocopa, disputada em 2024.
Presença carimbada nas Copas desde 1978, a Espanha se classificou para o Mundial deste ano de maneira muito fácil, ganhando quase todas as partidas contra Bulgária, Geórgia e Turquia pelas Eliminatórias da UEFA.
Por fazer fronteira com a França, berço da sétima arte, a Espanha não tardou a receber exibições cinematográficas logo após o pioneirismo dos irmãos Lumière. No período do primeiro cinema, destacou-se a figura de Segundo de Chomón, cineasta que dirigiu obras de considerável inventividade. Posteriormente, à época das vanguardas europeias no cinema e por longas décadas do século XX, o nome de Luis Buñuel seria eternizado em virtude do surrealismo provocador de seus filmes.
Enquanto o cinema europeu ganhava o mundo no pós-Segunda Guerra Mundial, a Espanha vivenciava tempos bastante difíceis no âmbito das manifestações artísticas, cerceadas pela ditadura do general Franco. Apesar das dificuldades enfrentadas para se fazer cinema no país, diretores como Carlos Saura e Luis García Berlanga, Jesús Franco e Victor Erice conseguiram produzir obras sublimes. A liberdade criativa voltaria com força nos anos 1980, década em que ganharia os holofotes o nome de Pedro Almodóvar. Talvez o mais famoso diretor espanhol mais famoso de todos os tempos, Almodóvar é dono de uma marca autoral inconfundível, caracterizada comédias melodramáticas de cores intensas e personagens femininas de protagonismo saliente.
Como representante da Espanha na Copa do Mundo de Cinema, o TemQueVer e o Cine Mulholland trazem O Espírito da Colmeia, primeiro longa-metragem dirigido por Victor Erice, disponível na Filmicca. Lançado no ocaso do regime franquista, o filme não é apenas uma reflexão sobre a infância; trata-se de um ato de dissidência política sofisticado e esteticamente refinado, utilizando a linguagem cinematográfica para contornar a censura e capturar o trauma de uma nação. Ele acabou por pavimentar o caminho para que o cinema espanhol discutisse o trauma da ditadura sem precisar recorrer ao panfletarismo.
O Espírito da Colmeia se passa em 1940, imediatamente após o fim da Guerra Civil Espanhola, numa vila isolada no planalto castelhano. O vazio geográfico espelha o vazio existencial e o silêncio sufocante que se instalou no país. A narrativa acompanha a pequena Ana (Ana Torrent) após ela assistir ao clássico Frankenstein, de James Whale. A partir dali, a busca de Ana pelo "monstro" (que ela passa a acreditar ser um espírito que vive na região) torna-se uma fuga psicológica da realidade opressiva que a cerca. Quando Ana encontra um soldado republicano fugitivo escondido em um celeiro abandonado, sua mente infantil funde a figura do soldado com a do monstro de Frankenstein. Ao alimentar e proteger o fugitivo, ela realiza um ato puramente humanitário que desafia a lógica punitiva do fascismo. A subsequente execução do soldado pelas forças do governo faz com que Ana seja confrontada com a brutalidade crua do mundo real.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que ver Cinema
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