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Entrevista/Vittorio Storaro, o 'mago' que escreve com a luz

Diretor está no Brasil para promover mostra de fotografia

11 jun 2018
19h46
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Por Beatriz Lia - "Nós precisamos do cinema. E de um cinema de qualidade, porque isso é bom para o crescimento de um país", afirmou o célebre diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, em entrevista à ANSA.

Vittorio Storaro, o 'mago' que escreve com a luz
Vittorio Storaro, o 'mago' que escreve com a luz
Foto: EPA / Ansa - Brasil

Mais conhecido por "mago da luz", apesar de acreditar que suas produções não têm nada de "mágico", mas sim muito "profissionalismo", Storaro está no Brasil desde a semana passada para a promoção de dois eventos.

O primeiro deles ocorreu na última quinta-feira (7), no terraço panorâmico do Consulado Geral da Itália no Rio de Janeiro, que exibiu o filme ""Il Té nel Deserto", que lhe rendeu o Oscar de "melhor fotografia".

Além disso, Storaro inaugurou no último sábado (9) a exposição "Escrever com a luz", no Museu de Arte Moderna do Rio, com 115 imagens de seus principais trabalhos e 41 obras de arte nas quais se inspirou.

"Estou muito contente pela mostra porque ela vem da publicação de uma trilogia de livros que preparei por trinta anos que não são sobre mim. São sobre a pesquisa da filosofia da visão que apliquei em tantos filmes", explicou.

Vencedor de três prêmios Oscar, Storaro é o responsável pela fotografia de filmes como "Apocalipse Now", "O Último Imperador" e "Reds".

Ele tem como principais inspirações para suas produções as pinturas de Caravaggio, Leonardo da Vinci e Michelangelo.

Confira a entrevista com Storaro:

ANSA: O senhor já havia visitado o Brasil?

Vittorio Storaro: Sim, eu vim para cá um ano atrás para um festival de cinema que participei por alguns dias.

ANSA: O que o senhor acha do cinema brasileiro?

Storaro: Desculpe-me, mas infelizmente eu não conheço o cinema brasileiro. Sinto muito mesmo, porque o cinema de uma nação é espelho de sua cultura, sociedade, inteligência e de sua história.

ANSA: E que o senhor acha do cinema italiano?

Storaro: Nos últimos anos, eu tenho trabalhado mais no exterior que na Itália, e eu não faço filmes com tantos diretores... Desde o início, eu selecionei ou fui selecionado por apenas alguns cineastas.

Do cinema italiano eu conheço Luca Ronconi, Giuliano Montaldo. Mas, na verdade, meu portfólio mais criativo foi com Bernardo Bertolucci.

ANSA: Além dos italianos, com quais diretores internacionais o senhor trabalhou?

Storaro: Com o norte-americano Francis Coppola - e foi muito agradável poder dividir minha experiência italiana com os Estados Unidos.

Além disso, trabalhei com Carlos Saura, do cinema espanhol, com um filme musical. Eu adoro a possibilidade de visualizar as imagens com a música, cria um ritmo inspirador para mim.

E, nos últimos três anos, Woody Allen me chamou para fazer filmes com ele: "Café Society", "Roda Gigante" e um que acabou de ser finalizado, a "A Rainy Day in New York".

Além disso, eu faço parte da Academia de Cinema Italiano, Europeu e dos Estados Unidos. A vida de academia também é muito boa, pois te permite colaborar em outras coisas além da direção, como encontros e seminários.

Além disso, ressalta o quanto nós precisamos de cinema. E de um cinema de qualidade, porque isso nos ajuda a crescer.

ANSA: Aqui no Brasil, o cinema e as artes em geral não são muito valorizados. Como poderíamos mudar isso?

Storaro: Isso ocorre também na Itália. Uma vez, Francis Coppola me disse: "Vittorio, eu fico encantado com o número de grandes diretores que um país pequeno como a Itália tem hoje". E, na ocasião, ele citou 50 diretores de alto nível.

Hoje em dia, se me perguntam quais são os diretores que mais admiro, não consigo completar uma mão. Eu acho que esse projeto que está acontecendo no Rio de Janeiro [Semana do Cinema Italiano no Mundo], de chamar pessoas para assistir a um filme de Bernardo Bertolucci, inspirado em um livro, é uma boa iniciativa.

ANSA: Quais são os principais problemas da indústria cinematográfica hoje em dia?

Storaro: Muitos anos atrás, na Europa, fizeram uma divisão entre "cinema de autor" [em que o diretor é fundamental para o filme em todos seus aspectos, iluminação, produção, direção, etc] e "cinema de gênero" [que engloba filmes de fantasia, ficção científica e de terror].

Os jovens diretores não são considerados "autores", e isso é um grande erro. Há jovens que não têm uma experiência na escrita e que não conseguem realizar personagens com solidez e histórias com boas estruturas.

Contudo, Federico Fellini, por exemplo, não é considerado um "autor", é um cineasta. Bernardo Bertolucci também não é um autor, mesmo tendo buscado inspiração em romances.

Não sei se há um equilíbrio na nova geração de diretores.... São filmes que às vezes são interessantes, porque não seguemos padrões cinematográficos. Mas não necessariamente um bom diretor é um bom escritor.

Depois, há uma arrogância dos jovens que, pensando ser "autores", não podem colocar nada em discussão. E, com isso, alienam a figura do produtor e dos que fazem a distribuição, que podem discutir a história de um filme com um diretor.

ANSA: O senhor foi escolhido como embaixador do "Fare Cinema" no Brasil e terá uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como o senhor se sentiu?

Storaro: Eu faço diversos seminários no mundo. Porque eu adoro contar aos jovens a minha experiência e quais são as "diretrizes" que eles devem seguir, como não ter medo de arriscar, de conhecer bem história e todas as várias artes que compõem o cinema e de fazer uma boa preparação antes de começar qualquer projeto.

Com relação ao programa do Museu de Arte Moderna, estou muito contente pela exposição, porque ela vem da publicação de uma trilogia de livros que preparei por trinta anos que não são sobre mim. São sobre a pesquisa sobre a filosofia da visão que apliquei em tantos filmes.

Isso é uma coisa que alimento desde o começo com diretores italianos: uma sensação de que cada filme precisava da sua visão em específico. Fomos educados a tentar entender o contexto principal dos filmes e traduzi-los no plano visual, e isso me ajudou muito a estudar, pesquisar e fazer relações com a pintura e filosofia.

Eu consigo fazer belas fotografias, eu tenho o dom de ser um escritor de imagens e não de palavras. E, pouco a pouco, vi que a linguagem da luz com a qual eu me expressava poderia ser exprimida na fotografia fixa, ou em movimento, ou no teatro, ou na arquitetura, etc.

A linguagem da luz é universal, isso me agrada, me completa, me permite conhecer vários aspectos da arte.

ANSA: O senhor é conhecido como "mago da luz". Qual é a importância da luz nos filmes?

Storaro: Ser considerado um mago, por mais que seja divertido, não é verdade. Não há nada de sobrenatural na nossa profissão. Ela é muito séria, com conhecimento de várias artes, e te permite se expressar na arte, principalmente nesse período em que usamos a imagem digital, e não química.

Havia um pouco de "magia" quando a gente filmava e não via o que estava sendo gravado. O resultado só era visto dias, semanas depois, quando o laboratório te enviava o material.

Hoje em dia, vê-se imediatamente o nosso pensamento, então, de certa forma, a "magia", o "mistério" que a palavra "cinema" poderia ter, foi cortado. Com o cinema digital, tudo é bem visível.

Portanto, precisamos de conhecimento dos significados das artes visíveis, de forma que possamos modificar as imagens com os diretores de maneira apropriada, englobando a história, personagens e o período de gravação.

ANSA: O senhor mencionou a mudança da tecnologia no cinema. Como é possível fazer uma luz "bela" para todos os tipos de tela, como celular, tablet, e mesmo o cinema?

Storaro: Eu acho que não existe uma luz "feia" ou "bela". Há, no campo da arte visível, luzes apropriadas para cada conceito, como pintura, teatro, fotografia, filme e para espetáculos televisivos que contam um tipo de história e devem ser iluminados de uma maneira apropriada.

A linguagem da luz é maravilhosa, mas precisa ser conhecida e estudada, no plano teórico, técnico, artístico e filosófico.

No meu caso, eu uso lições de luzes de Caravaggio, Leonardo da Vinci e Michelangelo, porque eles exprimiram em uma única imagem um conceito universal.

Por fim, o que precisamos pensar é que a luz deve envolver formas sentimentais, equilibradas, políticas e contar histórias diferentes.

Ansa - Brasil   

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