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Entre a nostalgia e a lei: como os fogos das Festas Juninas deixaram de ser barulho de infância e viraram pauta de saúde pública

Saudosismo junino e segurança em fogos de artifício: veja como leis, dados e riscos transformam bombinhas, traques e a paisagem sonora

2 jun 2026 - 06h30
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As noites de junho no Brasil já soaram diferentes. Crianças esperavam escurecer para encher as calçadas de traques de massa, estalos de salão, peões rodopiando e buscapés rasgando o céu. As Festas Juninas misturavam cheiro de pólvora, milho verde e fogueiras diante dos portões. Hoje, porém, o cenário mudou bastante, e a lembrança dos fogos de infância convive com um debate permanente sobre segurança e barulho.

Durante décadas, muitos bairros brasileiros viveram a chamada "guerra fria" de bombinhas entre vizinhos. Meninos escondiam rojões atrás de muros. Adultos fingiam reclamar, mas participavam da estratégia de quem estourava mais traques. A memória afetiva ainda ocupa espaço grande nas conversas de família. No entanto, a rotina hospitalar, os boletins de ocorrência e as novas leis apontam outra face dessa tradição.

Quadrilha junina – Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Quadrilha junina – Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Foto: Giro 10

Fogos de artifício: de brinquedo de calçada a caso de segurança pública

Os fogos de artifício entraram no cotidiano brasileiro como diversão popular. O Decreto-Lei 4.238, de 1942, já tratava da fiscalização de explosivos e sinalizadores. Na prática, porém, a fiscalização avançou de forma lenta. Até os anos 1990, muitas cidades vendiam fogos em barracas improvisadas, sem controle de idade ou origem do produto. Assim, crianças compravam bombas potentes como se escolhessem balas em uma vendinha.

Com o tempo, o Exército passou a regulamentar a produção, o transporte e o comércio com regras mais rígidas. A instituição classificou os artefatos por risco e exigiu registros para fábricas e distribuidores. A legislação também passou a exigir avisos claros nas embalagens, com restrição de uso por menores. Mesmo assim, os números de acidentes continuaram altos, especialmente nas semanas de São João e São Pedro.

A cada junho, hospitais de referência em queimados registraram aumentos expressivos de atendimentos. Dados de serviços de saúde indicaram, ao longo dos anos 2000 e 2010, dezenas de casos graves por temporada. Muitos envolviam mãos, olhos e rosto. Em diversas capitais, médicos relatavam amputações de dedos e lesões oculares permanentes. Além disso, os fogos caseiros, sem padrão industrial, agravavam o cenário e alimentavam um mercado paralelo difícil de mapear.

Como a legislação e as proibições municipais mudaram o São João?

Enquanto as lembranças de peões incendiados girando no asfalto ganhavam tom nostálgico, o poder público ampliou restrições. O Exército reforçou normas técnicas. Já estados e municípios editaram leis específicas. A partir da segunda década dos anos 2000, várias cidades brasileiras proibiram fogos com estampido. As normas miraram sobretudo rojões, bombas de alto impacto e peças que produzem estrondos intensos.

Essas leis não eliminaram os fogos de artifício. Elas abriram espaço para artefatos silenciosos ou de baixo ruído. Assim, empresas do setor passaram a investir em efeitos luminosos e em shows pirotécnicos com menos barulho. Grandes eventos migraram gradualmente para fogos que priorizam cores e desenhos no céu, reduzindo a vibração sonora. Em muitos casos, festas particulares seguiram o mesmo caminho, pressionadas por multas e pela fiscalização local.

Ao mesmo tempo, campanhas de conscientização ganharam força. Órgãos de saúde, conselhos profissionais e associações de proteção animal divulgaram estatísticas e orientações. Eles mostraram o vínculo entre fogos tradicionais e internações por queimaduras. Também destacaram os impactos do barulho em bebês, idosos, pessoas com deficiência auditiva e indivíduos no espectro autista. Em paralelo, ONGs relataram fugas de animais de estimação, acidentes no trânsito e aumento de casos de ansiedade em cães e gatos após noites de foguetório intenso.

O que se perdeu e o que se ganhou com o fim da "guerra de bombinhas"?

A infância de muitas gerações incluía rituais hoje quase desaparecidos. Crianças formavam rodas para disputar quem acendia mais estalinhos. Pais ensinavam a segurar o traque de massa no chão, com certo cuidado improvisado. Vizinhos se provocavam com batalhas de bombinhas no portão. A calçada amanhecia coberta de papel queimado, e a vizinhança reconhecia o fim da temporada de São João pelas marcas negras no piso.

Essa paisagem sonora, porém, carregava riscos constantes. Com o aumento do registro de acidentes, as famílias passaram a repensar a tradição. Muitos adultos que viveram a "guerra fria" de bombinhas agora evitam colocar isqueiros nas mãos dos filhos. As redes sociais difundem relatos de pessoas que perderam parte da visão, da audição ou a mobilidade de dedos por causa de fogos aparentemente inofensivos. Assim, o saudosismo encontra barreiras na experiência de quem lida diariamente com sequelas permanentes.

De outro lado, o debate sobre barulho avançou para além da segurança física. Pessoas com autismo, por exemplo, sofrem com o impacto sensorial dos estampidos, que podem provocar crises intensas. Idosos acamados ou em recuperação relatam sobressaltos e noites sem sono. Animais domésticos fogem, atacam portões ou se ferem ao tentar escapar do som. Diante disso, campanhas recentes reforçam a preferência por fogos silenciosos e por outras formas de celebrar a data, como apresentações de quadrilha, shows de luzes e fogueiras controladas.

Essa transição não apaga o passado. As histórias de buscapés que atravessavam a rua ainda circulam em mesas de bar e almoços de domingo. As lembranças de peões que queimavam a sola do tênis continuam presentes em relatos de infância. Porém, o cenário atual revela outra prioridade. As Festas Juninas seguem vivas, com bandeirinhas, comidas típicas e músicas de forró. A paisagem sonora, por sua vez, se afasta, pouco a pouco, do estampido constante e se aproxima de um modelo que concilia memória afetiva, legislação e responsabilidade coletiva.

Quadrilha junina no Acre – Divulgação
Quadrilha junina no Acre – Divulgação
Foto: Giro 10
  • Respeito à legislação: conhecer as proibições locais evita multas e acidentes.
  • Preferência por fogos silenciosos: reduz danos a pessoas sensíveis ao som.
  • Compra em estabelecimentos regularizados: diminui riscos de explosões irregulares.
  • Supervisão de adultos: impede o uso de artefatos por crianças sem orientação.
  • Alternativas de celebração: fogueiras controladas, luzes, música e brincadeiras de quintal.

Entre lembranças de bombinhas na calçada e a realidade atual dos pronto-socorros, o São João brasileiro segue em transformação. A cada ano, novas gerações descobrem as festas por outros caminhos. Elas talvez não repitam a "guerra de traques" dos pais e avós. Ainda assim, encontram na mesma época do ano um ponto de encontro entre a tradição popular e o cuidado com a vida, o silêncio possível e a segurança de todos.

Giro 10
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