Desumanização em Gaza é similar ao Holocausto, dizem diretores de 'Naza'
Documentário sobre mortes de civis por Israel estreou no Festival de Veneza
O documentário "Naza", estreado no Festival de Veneza pelos diretores israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, denuncia o uso de inteligência artificial pelo exército de Israel para direcionar ataques e calcular mortes de civis em Gaza. Baseado em relatos anônimos de militares, o longa expõe a vigilância em massa no enclave e compara a desumanização dos palestinos à do Holocausto, contextualizando o conflito devastador deflagrado em 2023.
Um novo documentário de dois israelenses vencedores do Oscar estreou nesta quinta-feira (10) no Festival de Cinema de Veneza, na Itália, com depoimentos contundentes sobre o uso de inteligência artificial para promover assassinatos em massa na Faixa de Gaza.
Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro autores de "Sem Chão", vencedor da estatueta de melhor documentário no Oscar de 2025, reuniram em seu novo trabalho, "Naza", relatos de mais de 20 integrantes das Forças de Defesa de Israel (IDF) e dos serviços de inteligência do país, sob condição de anonimato.
O nome do filme é emprestado de uma sigla militar usada pela inteligência israelense para indicar o número de civis que podem ser mortos durante um determinado ataque aéreo, ou seja, a unidade de medida para as chamadas "baixas colaterais" da guerra.
Produzido pelo jornal britânico The Guardian, o longa é fruto de três anos de investigação e o único documentário em cartaz na competição principal do Festival de Veneza, que incluiu "Naza" de última hora na lista de concorrentes ao Leão de Ouro. A obra descreve em detalhes como a vigilância em massa na Faixa de Gaza, onde toda a rede de telecomunicações é monitorada por Israel, foi combinada com tecnologia de IA para identificar alvos.
A inteligência artificial decide com certa autonomia se atacar ou não determinada residência: matar um dirigente do Hamas pode custar a vida de uma família com seis crianças; destruir um prédio pode resultar em até 50 mortes de civis.
Em determinado momento do filme, um dos entrevistados questiona: "Eu acho que os nazistas são maus, então o que eu sou?" "Existem muitas diferenças, é claro, entre o Holocausto e o que está acontecendo em Gaza, mas uma coisa consistente nesses casos é a questão da responsabilização e da justiça, que é fundamental para avançarmos", afirmaram Abraham e Szor em coletiva de imprensa em Veneza, nesta quinta-feira.
"O que é certo é que os padrões de desumanização são semelhantes", acrescentaram. Segundo Abraham, o "muro de negação" em Israel é "espesso e resistente demais para ser penetrado ou atravessado", e o documentário não deve provocar efeitos sobre o premiê Benjamin Netanyahu em vista das eleições legislativas de 27 de outubro.
"O tema do massacre dos palestinos, sobre o qual falamos no filme, não está exatamente em discussão nas eleições em Israel", salientou.
A guerra em Gaza foi deflagrada por atentados do Hamas que mataram mais de 1,2 mil pessoas em Israel, em outubro de 2023.
Os bombardeios e a incursão terrestre contra o enclave palestino deixaram mais de 73 mil mortos e 174 mil feridos, além de transformar o território em uma pilha de escombros. .
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