“Gente é o que me interessa”, diz coreógrafa Deborah Colker

Um dos maiores nomes da dança contemporânea brasileira e internacional fala de sua carreira, do novo espetáculo e do sonho de fazer um filme

1 jun 2015
09h00
atualizado às 18h38
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A carioca Deborah Colker dispensa apresentações. Aos 53 anos, ela continua polêmica e ousada. Na direção da companhia de dança que leva seu nome há mais de vinte anos, a coreógrafa é uma marca forte no mundo das artes. Ela – que não para nunca – cola a etiqueta de sua grife em colaborações artísticas em diferentes áreas de atuação.

Hiperativa, Deborah Colker é referência de dança contemporânea no Brasil e no mundo
Hiperativa, Deborah Colker é referência de dança contemporânea no Brasil e no mundo
Foto: Flávio Colker / Divulgação

Em uma entrevista generosa e exclusivíssima ao Terra, Deborah falou dos principais momentos de sua carreira e revelou, entre outras coisas, que gosta de ser “abduzida” e que pretende transformar seu próximo trabalho, com estreia prevista para 2017, em espetáculo e filme, uma das poucas coisas que ainda não fez na sua longa e diversificada vida artística. 

Terra – Quais são suas maiores influências?
Deborah – Minha maior influência foi ter percebido que não havia fronteiras entre as linguagens artísticas. O importante é transitar pelo mundo das ideias, do conhecimento. Gosto de ser abduzida.

Terra – Poderia citar algumas pessoas que já abduziram você?
Deborah
- Os cineastas Luis Buñuel, Federico Fellini, Pedro Almodóvar, Cláudio Assis e  Lírio Ferreira; os escritores Joseph Kessel, Alexander Pushkin, João Cabral de Melo Neto e Josué de Castro. E, na dança, os mais antigos, que considero meus pais e avós e que construíram importantes vocabulários de corpo e movimento: Martha Graham, Merce Cunningham, Twyla Tharp, Pina Bausch e Isadora Duncan.

Terra – Você estudou piano. Qual a importância disto no seu trabalho?
Deborah - Estudar música e conhecer sua estrutura é fundamental. Aprendi a disciplina e que é preciso dominar a técnica para ter liberdade artística. Habilidades que exijo dos meus bailarinos.

Terra – E o voleibol? O que carrega com você desta época?
Deborah – Energia. Coletividade. Voleibol e dança são muito parecidos: jogo que se joga junto, onde cada um se completa e é necessário ter habilidade e espontaneidade. Destaco a garra. Como no palco, é preciso entrar com tudo em campo.

Terra – Por que decidiu estudar Psicologia?
Deborah - Gente é o que me interessa. Gosto de entender a natureza humana. É preciso entender onde começa o próximo para ver onde termina você.

Terra – Quem atraiu (ou abduziu) você para a dança?
Deborah – No início, Zenit Rample, Lennie Dale, Marli Tavares e Heloisa Vasconcelos, que havia dançado no Kirov. Mas, foi com o grupo Coringa, da Graciela Figueroa, que descobri um mundo sem fronteiras: a dança contemporânea.

Terra – E como você se tornou a primeira diretora de movimento no Brasil?
Deborah – Quem criou isto foi o Ulysses Cruz, diretor de TV e teatro e que tinha um grupo muito importante, o Boi Voador. Quando a gente trabalhou, em 1989, no “La ronde”, ele perguntou como eu ia assinar. E eu disse que não sabia porque o meu negócio é movimento. 

Terra – E o que faz exatamente um diretor de movimento?
Deborah – Existe uma função dentro da Royal Academy que se chama direção de movimento, que é responsável por perceber as necessidades de movimentação, desde deslocamentos à plasticidade. 

Terra – Como foi o trabalho com o Cirque du Soleil, no qual você criou o espetáculo “OVO”?
Deborah - Um desafio monumental: 53 pessoas em cena, uma banda, oito línguas. E eu tinha que construir uma história que seria vista por todos os públicos, desde os mais jovens até os mais idosos. Era necessário falar com delicadeza do pequeno mundo dos insetos, transformando o micro na ideia macro. Quase morri. Mas consegui.

Terra – Tem previsão de vinda do espetáculo ao Brasil?
Deborah - Absolutamente nenhuma. No momento, está no Japão.

Terra – Você revolucionou as comissões de frente dos desfiles das escolas de samba no Carnaval. Isto não trouxe problemas?
Deborah – Teve gente que adorou e houve quem metesse o pau. Comecei em 1995 com a Mangueira. Naquela época, a velha guarda das escolas era quem fazia. Pensei: se me chamaram é porque sabiam que eu gosto de tirar as coisas do lugar. Quebrei regras porque me esquecia, às vezes, que é uma competição. E hoje vemos como as comissões estão bem diferentes. Já entrei com a Viradouro e volto com a Imperatriz no próximo ano. O Carnaval é uma avenida falando com o mundo.

Terra – A Copa do Mundo também. Fale de sua criação em 2006 na Alemanha.
Deborah – Fui chamada pelos organizadores da Alemanha para a programação cultural que é realizada com independência do calendário dos jogos. E a Fifa para a cultura investe o mínimo. Criei “Maracanã”, em Hamburgo, apenas com bailarinos de projetos sociais brasileiros e com bailarinos alemães. Minha inspiração foi o futebol.

Terra – Falando em futebol, o cenógrafo Gringo Cardia, o compositor Berna Ceppas e o produtor João Elias sempre estão escalados. Em time que está ganhando não se mexe?
Deborah - Temos um alinhamento artístico. A gente tem um processo criativo intenso. É um time que dá trabalho pra caramba para mim, mas joga muito bem. Mas, já mexi. Entraram e saíram Cildo Meireles, Chelpa Ferro, Vitor Arruda, entre outros. Apesar das brigas, construímos juntos a companhia.

Terra – Como você lida com a crítica?
Deborah - Hoje eu lido (com a crítica) como o Laurence Olivier. Ele disse que uma crítica pode atrapalhar seu café da manhã, mas o almoço, jamais. [risos]. Crítica é uma coisa [pausa para suspiro] às vezes política, mal escrita, mal compreendida. É raro uma crítica que tenha me feito avançar, querer fazer melhor. Este é o papel de uma crítica. E não querer destruir uma companhia, destruir um artista.

Terra – Como é sua rotina?
Deborah – Fico das 10h30 às 21h dentro do Centro de Movimento Deborah Colker, sede da companhia e da escola de dança, que tem direção da minha filha Clara Colker, a quem dou suporte, enquanto me ocupo com a preparação dos espetáculos. 2015 é um ano de “Mix”, “Belle”, “Tatyana” e da criação do novo trabalho.

Terra – Novo trabalho?
Deborah – É uma adaptação do livro “O Cão sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto, que estreia em 2017. E ainda não tem nome.

Terra – Você sempre dançou nos seus espetáculos. Por que não apareceu em “Belle”, criação de 2014? Parou?
Deborah - Cada vez mais danço menos, por causa dos compromissos. Mas, vou dançar em julho com o Thiago Soares, bailarino do Royal Ballet. Ele vem ao Brasil fazer uma turnê comemorativa dos seus 15 anos de carreira. Dançaremos quatro coreografias de “Paixão”, que faz parte do meu espetáculo “Mix”.

Terra – Qual é o segredo do seu sucesso?
Deborah - Trabalho e sinceridade.

Terra - O que mais ama e o que mais odeia na dança?
Deborah - Os bailarinos [risos].

Terra - O que você ainda não fez e quer muito fazer?
Deborah - Quero que esse próximo trabalho, inspirado numa obra do Cabral de Melo Neto, seja, além do espetáculo, um filme. Quero muito.

Terra – Qual seria o título de sua autobiografia?
Deborah – “Deborah Colker – Em carne e osso”.

Fonte: Cross Content
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