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Biografia recupera a trajetória do craque Didi

9 ago 2009 - 17h57
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O futebol é um jogo de repetição que nunca se repete da mesma maneira. Desde a primeira vez que a bola entrou no gol, o objetivo é fazer de novo. Por isso, é tão importante a memória do jogo, passes e dribles atávicos.

Muitos tentaram as jogadas que Pelé, genialmente, tentou - e até conseguiram fazer o que ele não fez, um chute antes do meio-campo que efetivamente resultou em gol. Há Zico, num Flamengo 7 x 1 ADN, disputado em 1979, no Estádio Caio Martins, em Niterói, marcando um gol em jogada semelhante à de Pelé na Copa de 70, no México, depois de fintar o goleiro uruguaio Mazurkiewicz apenas com o corpo, sem tocar na bola. Mais recentemente, as tevês repetiram à exaustão a arrancada de Messi contra o Getafe que viram como parecida à de Maradona contra a Inglaterra, na Copa de 1986, também no México - quando Messi nem tinha nascido.

E, em qualquer campinho do mundo, veem-se elásticos de Rivelino, bicicletas de Leônidas, pedaladas de Robinho - em que pese este não ter sido o inventor da jogada.

A folha seca, obra e graça de Valdir Pereira, o Didi, ninguém ainda fez igual nem parecido. Há cobranças de falta que dão à bola uma trajetória imprevisível, mas são folhas pálidas em comparação à original.

Como muitas das grandes invenções da humanidade, a folha seca surgiu do acaso. Num Botafogo e América, disputado sob chuva fina que deixava escorregadio o gramado do Maracanã, Didi, após um drible, recebeu forte entrada de Ivan, volante vigoroso mais leal que, mais tarde, se tornaria médico. No calor do jogo, o meia nada sentiu. No vestiário, comemorando a vitória por 1 a 0, a dor começou. Em casa, o tornozelo direito já estava bastante inchado. Durante a semana, não havia jeito de a dor ceder. Afastado do time alvinegro, o craque só aos poucos voltou aos treinos, quando percebeu que o pé lhe doía na hora em que tocava na bola. Teve de encontrar uma maneira de bater nela sem se magoar. E essa maneira toda especial - um segredo guardado a sete chaves - dava um efeito surpreendente na trajetória da bola.

Didi descobrira ali uma das jogadas mais sublimes do futebol cuja história está contada em detalhes no livro Didi: o gênio da folha seca, do jornalista Péris Ribeiro, que reaparece em segunda e revista edição da Gryphus, leitura indispensável para quem gosta de futebol.

No prefácio, João Máximo lembra que nenhum craque brasileiro, nem Pelé, nem Garrincha, "teve ou tem personalidade tão envolta em mistério e, por isso, tão sedutora". Amigo, admirador e biógrafo, Péris Ribeiro fornece informações detalhadas, desde a infância na Campos natal até a morte no Rio, em 2001 - dados que permitem ao leitor suas próprias conclusões a respeito do tal mistério. O que não resta dúvida é que Didi é o inventor único da folha seca.

Nem sempre as palavras conseguem traduzir a mágica. Foi assim com a folha seca. Está no Dicionário do futebol, de Haroldo Maranhão: "Chute de bola parada com os três dedos do pé direito, em que ela descreve uma curva ascendente de muito efeito, para descair rápido e entrar no gol". Vá lá, embora o chute não seja necessariamente efetuado com a bola parada - ela pode estar muito bem em movimento - e tampouco com o pé direito. Basta lembrar que discípulos como Gérson fizeram parecido, sem alcançar a perfeição do criador, que também se utilizava da jogada para fazer lançamentos no vazio.

Melhor ficar com o cronista Nelson Rodrigues que, mudando a metáfora da folha em flor, via em Didi "um virtuose inexcedível. Trata a bola amorosamente. Ela parece, aos seus pés, uma orquídea rara e sensível, que deve ser cultivada com requinte e deleite".

Sempre foi tema de nossos melhores cronistas esportivos, que lhe dedicaram páginas e páginas. Seu futebol era de fato inspirador e a turma, é preciso reconhecer, tinha um fraco por ele, por sua fina estampa e por sua voz de locutor. Ou talvez porque, mesmo tendo pendurado as chuteiras em 1966, no São Paulo, ainda hoje seja considerado um dos jogadores mais cerebrais da história do futebol.

Tanto que Paulo Mendes Campos, cronista de futebol bissexto, deu a um texto justamente o título Didi, coisa mental. As primeiras e definitivas linhas: "Da Vinci mudou a ótica estética ao dizer que pintura é coisa mental. Didi, mais que ninguém, introduziu no futebol o poder da inteligência. Não foi um espontâneo, um inspirado, um romântico; foi o cerebral, o racionalista, o clássico".

Voltemos à folha seca. Aproveitando a ideia de Nelson Rodrigues, pode-se dizer que o craque trabalhou a jogada com zelo de jardineiro oriental. Até dar por concluída a obra, ensaiou e ensaiou. Para fortalecer o tornozelo machucado, improvisou uma alça de arame num paralelepípedo e passou horas levantando-o com o pé. Depois dos treinos, Didi ficava pelo menos 15 minutos chutando a gol, mesmo sem barreira ou goleiro, no campo do Botafogo na Rua General Severiano. De tanto bater na bola, a unha do dedão mudava, ficava roxa, caía a cada 45 dias. Era segredo absoluto. Ele não queria que ninguém visse, pois poderiam perceber a trama.

Com barreira é melhor
Quando enfim a folha seca fez sua aparição oficial, o mundo ficou pasmo. Em 1957 a seleção brasileira precisava vencer o Peru para se classificar à Copa do Mundo da Suécia. O jogo se arrastava num angustiante 0 a 0, resultado que obrigaria a realização de uma nova partida (na primeira, em Lima, houve empate em 1 a 1) em campo neutro. Surge uma falta a favor do Brasil nas proximidades da grande área adversária, gol à direita das tribunas do Maracanã. Faltavam uns quatro minutos para o fim, e o goleiro peruano mandou o time todo para a barreira. Sem saber, ele acabou ajudando Didi, pois a folha seca funciona melhor com barreira, que encobre a visão do goleiro. Didi bateu e não deu outra: a bola quase parou no ar, fez uma curva e entrou no canto. Até os torcedores demoraram para entender o que se passara. Só depois de um tempinho, explodiu o grito de gol.

Aqui surge um dos mistérios que envolvem Didi. Carlos Heitor Cony, tricolor que de raiva se afastou dos campos quando o Fluminense vendeu Didi para o Botafogo, jura que a história oficial - e que está relatada em minúcias no livro de Péris Ribeiro recém-lançado - não é bem essa. A folha seca não teria surgido na partida contra o Peru, e sim num amistoso do tricolor carioca contra um time suíço, "cujo nome, traduzido, era gafanhoto. A camisa dos caras era verde, daí o nome", escreveu Cony numa crônica.

A Copa de 58 foi a prova de fogo e a consagração. Jamais se viu maior elegância no fino trato da bola, à qual o craque sempre se referia como "menina". O porte altivo de "príncipe etíope" (segundo Nelson Rodrigues), ao mesmo tempo flexível com um "palmeira" (de acordo com Mário Filho). Olhos à altura do horizonte, pé direito de onde saíam incríveis passes de curva, calculados a uma distância de não menos de 35 metros, fizeram dele "o homem que passa" (na definição de Armando Nogueira).

Na Suécia, ainda deixou sua marca particular ao fazer - de folha seca! - o segundo dos cinco gols contra a França na semifinal. Ao cabo do certame, Didi voltou consagrado como o melhor jogador da Copa.

Um feito inimaginável para o menino pobre nascido em 8 de outubro de 1928, cuja mãe se desesperava porque o mandava de manhã para fazer compras no armazém e só via o filho de volta à noite, quando voltava morto das famosas peladas da rua Alquibadan.

Didi tinha um irmão, Dodô. Ambos deixaram Campos para tentar a sorte no Madureira. O detalhe é que o Didi veio de contrapeso, porque queriam mesmo era Dodô. Logo o caçula se destacou e chamou a atenção do poderoso Fluminense, pelo qual foi campeão em 1951, um ano depois de fazer o gol inaugural do Maracanã, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia.

A contragosto, Didi deixou as Laranjeiras, motivado sobretudo pelos boatos que envolviam seu casamento com a bela Guiomar. O Botafogo ofereceu um dinheirão pelo passe, e o craque foi se juntar a outros num time inesquecível, com Garrincha, Nílton Santos, Quarentinha, Paulinho Valentin, campeão carioca carioca de 1957, 61 e 62. O perfeito entrosamento com Mané - que o chamava de Crioulo - prosseguiu na Copa de 62, no Chile, onde a seleção brasileira se tornou bicampeã.

Sobre a controvertida temporada no Real Madrid, em 1959, uma única palavra explica tudo: ciúme. Da parte do grande argentino naturalizada espanhol Di Stefano, que liderou o boicote ao único jogador negro a formar no "maior e mais caro time do mundo", com Kopa, Puskas, Kocsis, Santamaria, Dominguez.

Jornal do Brasil Jornal do Brasil
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