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Amyr Klink ganha filme e explica por que não quis ajudar a filha Tamara a virar navegadora: 'História se constrói, não se herda'

'100 Dias' mostra a travessia de Klink da Namíbia até Salvador que o levou ao Livro Guinesss dos Recordes. Longa estreia em 29 de outubro com direção de Carlos Saldanha, de 'A Era do Gelo'.

16 out 2026 - 06h50
(atualizado às 07h02)
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Resumo
A épica travessia do Atlântico a remo feita por Amyr Klink inspirou o filme "100 Dias", dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança. Em entrevista, o navegador de 71 anos elogiou a precisão do longa e relembrou seus desafios marítimos. Klink também revelou não ter dado apoio financeiro nem conselhos à filha Tamara em sua carreira náutica, defendendo que ela precisava construir a própria trajetória com os recursos modernos, pois a história de alguém deve ser conquistada, e não herdada.
O navegador Amyr Klink, que cruzou a remo o Oceano Atlântico de Namíbia até o Brasil, em Salvador, em 1984
O navegador Amyr Klink, que cruzou a remo o Oceano Atlântico de Namíbia até o Brasil, em Salvador, em 1984
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

Os remos que cobrem toda a parede da sala de estar não deixam Amyr Klink esquecer de sua trajetória recordista nos mares. Mas agora ele também terá um filme para se lembrar de quando entrou no Livro Guinness dos Recordes ao cruzar a remo o Oceano Atlântico, da Namíbia, na África, até o Brasil, em Salvador.

Com direção de Carlos Saldanha, de A Era do Gelo e Rio, 100 Dias estreia nos cinemas em 29 de outubro. Filipe Bragança, que viveu Sidney Magal na cinebiografia Meu Sangue Ferve por Você, interpreta Klink.

Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, Klink, de 71 anos, relembrou a travessia e debateu as vantagens e os desafios de navegar em tempos de tanta tecnologia e, ao mesmo tempo, de um clima cada vez mais instável e perigoso.

O navegador, que hoje viaja pelo país dando palestras e administra uma marina em Paraty (RJ), falou ainda da relação com uma de suas filhas, Tamara Klink, de 29 anos, e contou por que decidiu não apoiá-la em sua trajetória no mar.

"Ajudei ela com zero centavos, com pouquíssima informação, para que ela entendesse que precisava fazer a história dela, não herdar a história do pai", disse.

"As tecnologias que eu tinha eram muito precárias, e hoje os recursos são espetaculares. É outro universo. Ela tinha que aproveitar esses recursos."

Leia e assista a trechos da entrevista abaixo.

Amyr Klink e o ator Filipe Bragança, seu intérprete no filme 100 Dias, sobre a trajetória do navegador de Namíbia ao Brasil feita a remo
Amyr Klink e o ator Filipe Bragança, seu intérprete no filme 100 Dias, sobre a trajetória do navegador de Namíbia ao Brasil feita a remo
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

BBC News Brasil — Já teve a oportunidade de assistir ao filme? O que achou?

Amyr Klink — Assisti. Fiquei impressionado com o preciosismo do diretor Carlos Saldanha em reproduzir detalhes da viagem que talvez eu não tenha reproduzido no meu livro.

BBC News Brasil — É, de certa forma, um filme sobre solidão e resiliência. O que acontece quando se fica tanto tempo sem ninguém por perto?

Klink — É uma delícia. Eu tinha uma vida muito complicada e mergulhei no projeto. Eram tantas as encrencas, que a travessia foi a parte mais fácil. A solidão ensina que a gente pode fazer mais com menos, a valorizar as pessoas invisíveis que fazem parte da nossa vida. Foi uma baita escola, importante para as dezenas de viagens que eu faria nos anos seguintes.

BBC News Brasil — Hoje se fala muito de saúde mental, diferentemente daquela época, né?

Klink — Não se falava. Mas a maior pressão não foi a viagem. Foi a preparação, as dificuldades burocráticas, porque a Namíbia ainda vivia sob o regime do apartheid, era ocupada pela África do Sul. Tive tantas dificuldades, que remar foi a parte mais fácil.

BBC News Brasil — O filme não mostra muito isso, certo?

Klink — Um filme sobre um livro é sempre um recorte. Eles foram muito felizes em escolher um recorte emocionante. Tem cenas que eu até tentei descrever no livro, mas Saldanha conseguiu trazer para as telas de maneira magnífica.

BBC News Brasil — Você deu alguma dica ou conselho para o diretor ou o ator que o interpretou?

Klink — Nenhum. O livro é meu, e o filme, deles. Dei total liberdade. Não queria ser chato, mandar fazer assim ou assado. Mas nem usaram tanto essa liberdade. A produção foi tão criteriosa, perfeccionista, que resolveram levantar detalhes que nem eu me lembrava mais.

Fiquei surpreso com o desempenho do Filipe Bragança. Não o conhecia, mas vi o filme em que ele interpretou Sidney Magal e, quando vi aquela potência, sabia que daria certo. Fico até confuso quando vejo as imagens do filme, se sou eu 40 anos atrás ou se é ele.

BBC News Brasil — Faz 42 anos da travessia. As memórias já se foram?

Klink — Eu fiz muitas coisas, mas não me esqueço nenhum segundo dessa travessia, porque foi muito didática. Foi uma escola sobre estar no mar, enfrentar intempéries e não ter tudo ao meu favor.

BBC News Brasil — Às vezes, acredita-se que resiliência é nunca desistir e ultrapassar qualquer limite. Como você vê esse ideal de resiliência?

Klink — Tive muita vontade de desistir, porque foi muito difícil. Mas me preparei tão bem, que eu sabia que era possível. Ninguém tinha feito, mas era possível, aí segui em frente. Foi legal perceber que pude inspirar pessoas a fazerem projetos malucos. O último foi o Raphael Garcia, que acaba de completar a mesma travessia. Tive a sorte de recebê-lo em Salvador.

BBC News Brasil — Sua filha, Tamara, também faz travessias oceânicas. Você já teve medo por ela?

Klink — Eu sabia que tinha uma atividade de altíssimo risco e ela escolheu seguir. Mas fiquei muito feliz que ela conseguiu. E tenho o privilégio de dizer que ajudei ela com zero centavos, com pouquíssima informação, para que ela entendesse que precisava fazer a história dela, não herdar a história do pai.

BBC News Brasil — Por que você decidiu não ajudá-la?

Klink — O mundo evolui. As tecnologias que eu tinha eram muito precárias, e hoje os recursos são espetaculares. É outro universo. Ela tinha que aproveitar esses recursos, embora a dificuldade no mar nunca vá diminuir. Aliás, piora, porque hoje tem as questões climáticas.

Ela não ficou triste quando disse que não ia ajudá-la com meus conselhos porque hoje ela pode ter acesso a conselhos muito mais competentes. Quando ela terminou as primeiras travessias, fiquei orgulhoso, como pai, e falei: 'Filha, agora empresto meu barco para você'. Aí ela disse: 'Agora não quero mais'. Ela entendeu isso e colocou em prática. Mas adoraria que ela não tivesse escolhido este caminho.

BBC News Brasil — Por quê?

Klink — Porque é um caminho de altíssimo risco. Mas ela está muito feliz e construiu a história dela. Isso é muito importante: história não é uma coisa que você herda, ganha ou que o dinheiro compra. É uma coisa que você faz. Ela fez a história dela, e eu torço por ela. Não sei para onde ela vai, mas sei que ela está feliz.

Travessia da África ao Brasil levou Amyr Klink a entrar no Livro Guiness dos Recordes
Travessia da África ao Brasil levou Amyr Klink a entrar no Livro Guiness dos Recordes
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

BBC News Brasil — Você sente falta de alguma coisa que fazia quando jovem?

Klink — Não. Estou feliz porque hoje tenho recursos espetaculares para fazer coisas difíceis de maneira simples. Fui feliz de poder transitar de uma época em que a navegação era super precária para um momento onde a gente tem monitoramento, rastreamento, internet satelital, telefonia, Starlink, Inmarsat. É um baita privilégio transitar de um mundo que não mudava há séculos para um mundo onde a gente está superequipado de soluções.

BBC News Brasil — Essas evoluções fazem a travessia perder a graça?

Klink — Não perde a graça porque as dificuldades continuam. Você sabe onde quer chegar, mas não sabe o caminho que vai fazer, então o desafio continua. E talvez piora, porque hoje tem a angústia: você sabe o quanto voltou para trás, o quanto avançou, enquanto eu tinha o privilégio da ignorância. Continuava indo sem saber que muitas vezes eu tinha perdido progresso.

BBC News Brasil — Hoje também existe, cada vez mais, a ideia de usar medicamentos, até anabolizantes, para fazer o corpo ir mais longe. Como você vê essa relação que temos criado com a performance?

Klink — Isso não funciona a longo prazo. Pode ser um paliativo a curto prazo, mas a longo prazo você tem que confiar que é bom. Nisso o remo foi uma escola. Ele ensina que você conquista sua competência com tempo, dedicação e consistência.

BBC News Brasil — Você já sentiu culpa por escolher uma vida tão pouco convencional, que exigia tanta distância da família?

Klink — Nas primeiras grandes viagens que fiz, ainda era solteiro. Depois conheci uma mulher que curtia isso e falava: 'Prefiro que fique seis meses sumido na Antártica, porque eu te monitoro, do que um fim de semana no Rio de Janeiro sozinho'. Temos uma cumplicidade. Quando nos casamos, pensei em comprar um apartamento em vez de terminar um barco, e ela disse que não, que era para eu terminar o barco. Aí me apaixonei por ela.

BBC News Brasil — Aos 71 anos, quais são os sonhos ainda a serem perseguidos?

Klink — Gosto de fazer coisas inéditas de maneira simples. Me encantei pela ideia das casas flutuantes, fizemos uma série de documentários e hoje minha atividade econômica segue em cima do mar. Meu escritório em Paraty é sobre o mar, não sobre a terra. Eu gosto muito do que faço.

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