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'A moda se tornou uma ferramenta de luta': designer indígena apresenta olhar decolonial em Paris

A designer de moda e pesquisadora Dayana Molina, fundadora da Nalimo, primeira marca de moda autoral originária do Brasil, e seu sócio, Limbert Mamani, arquiteto e diretor criativo da marca, se apresentaram durante a Semana da Moda de Paris, levando ao cenário internacional sua visão de uma moda brasileira contemporânea, ancestral e decolonial.

6 nov 2026 - 14h54
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Resumo
A designer indígena Dayana Molina, criadora do movimento #DecolonizeFashion, levou sua marca Nalimo à Semana de Moda de Paris pela segunda vez. Unindo ancestralidade, sustentabilidade e inovação, a estilista combate padrões eurocêntricos e defende a representatividade originária como ferramenta de luta política e ecológica. Reconhecida globalmente e vestindo artistas como Anitta, Dayana também integra o projeto multicultural "Lembrar de si", reafirmando a potência da identidade indígena na moda.

Criadora do movimento #DecolonizeFashion, que questiona os padrões eurocêntricos da moda, Dayana Molina defende um setor mais diverso e conectado às suas origens.

"Esse movimento parte do princípio de que eu, como jovem indígena, não me enxergava em nenhum espaço culturalmente na sociedade, no sentido de representatividade mesmo", explica. "Eu pensava: por qual motivo não há garotas como eu estampando capas de revistas, falando de beleza ou criando algum tipo de relação que nos permita nos empoderar e nos sentir bonitas? Então, o princípio disso começa aí."

Ela levou esses questionamentos para a vida profissional. Durante os anos de estudo e pesquisa na área da moda, a designer também começou "a fazer um diálogo sobre antropologia e consumo", questões que passaram a direcionar seu trabalho.

"Para mim, a moda se tornou uma ferramenta de luta, de representatividade e de comunicação também, para falar sobre coisas que sempre foram um incômodo, não só para mim, mas também para outras garotas, para outros jovens indígenas, e que, em algum momento, a gente precisava mudar um pouco isso", diz.

O movimento #DecolonizeFashion é uma vertente de uma hashtag criada por Dayana, a partir do movimento "Descolonize a Moda", que deu origem ao título de seu livro, Antropologia da moda: descolonizando o vestir e a cultura da roupa. A obra propõe um pensamento crítico sobre a indústria da moda e as lacunas provocadas pela falta de representatividade indígena.

A Nalimo se apresentou durante a Semana da Moda de Paris, na temporada prêt-à-porter primavera-verão, de 28 de setembro a 6 de outubro. Esta é a segunda vez que a marca está presente no evento.

Para Dayana, essa participação é particularmente significativa neste momento, pois "promove um diálogo que a gente já vem construindo há muito tempo", diz. "Se existe um problema, a gente precisa conversar sobre esse problema. E eu acho que a sociedade aprende quando a gente constrói um diálogo saudável, maduro e intelectual."

A designer destaca ainda a importância de ampliar esse debate para além das fronteiras brasileiras. "Falar globalmente sobre a moda a partir de vertentes de ecologia, sustentabilidade, representatividade, proteção ambiental, e sobre a importância de a gente fazer uma moda que se conecta com os nossos valores, e não uma moda acelerada, que destrói o planeta e tudo mais. Então, eu acho que tem muitas coisas que envolvem moda e clima e que colocam o nosso trabalho no centro desse debate", afirma.

Peça da coleção Nalimo.
Peça da coleção Nalimo.
Foto: RFI

Evolução

Para Limbert, a indústria da moda tem avançado na representação dos povos indígenas. "Temos trazido uma grande perspectiva de como a gente vem educando os consumidores e até uma maneira de ensinar e usar a moda", diz.

Ele explica que o desfile na Semana da Moda de Paris, além de homenagear os dez anos da Nalimo, com referências aos primeiros desfiles da marca, foi uma forma de quebrar estereótipos sobre os povos indígenas. "A gente abraça muito as novas tecnologias e está sempre antenado, porque somos pessoas criativas. E a criatividade vai além do que a nossa ferramenta permite", afirma Limbert.

"A nossa maior expertise é sempre ser criativo, independentemente do formato, seja utilizando um computador, um celular, um tecido, uma tela ou um pedaço de papel. A gente cria arte o tempo todo", acrescenta.

Além disso, os dois designers defendem que a excelência é fundamental no processo de criação. "Porque não adianta a gente trazer somente uma materialidade, uma ideia, sem aplicar esse lugar de sofisticação", diz o arquiteto.

A marca conjuga o uso de fibras naturais com técnicas ancestrais em peças contemporâneas que conquistaram, entre outros nomes, celebridades como Anitta, que usou criações da Nalimo em clipes de seu novo álbum, EQUILIBRIVM I e II. A dupla de designers também criou um figurino especial para a turnê da cantora, com quem vem realizando colaborações e desenvolvendo peças especiais para apresentações.

Para Dayana e Limbert, essa parceria tem grande impacto em termos de visibilidade e reconhecimento da moda indígena no Brasil.

"Eu acredito muito na importância de artistas fazerem isso, porque esses artistas carregam também uma responsabilidade com aquilo que comunicam e, quando comunicam algo que faz sentido, fortalecem criadores como nós", afirmam.

Coleção Nalimo.
Coleção Nalimo.
Foto: RFI

Projeto "Lembrar de si"

Dayana é uma das participantes do projeto "Lembrar de si", desenvolvido pela produtora, cineasta e autora Andrea Apurinã, radicada há 18 anos em Paris. A iniciativa reúne literatura, fotografia, audiovisual e moda.

"Lembrar de si é uma viagem que eu quero propor aos leitores, de se conectarem com a própria essência. A gente vive cada vez mais através de imposições do sistema familiar, religioso, político, que afastam a gente da própria essência. E a ideia é trazer às pessoas a coragem de assumir a própria identidade", explica Andrea.

O livro terá oito capítulos, cada um escrito em um país diferente. Segundo a autora, este é o primeiro de uma série de projetos. Nesta primeira edição, os países visitados serão Portugal, Itália, Grécia, Turquia, Espanha, Marrocos, França e Brasil. Oito designers, não apenas indígenas, representarão os oito países.

A produtora, cineasta e autora Andrea Apurinã, nos estúdios da RFI, em Paris.
A produtora, cineasta e autora Andrea Apurinã, nos estúdios da RFI, em Paris.
Foto: RFI

"Eu vou percorrer esses oito países, que estarão representados tanto na forma escrita e na fotografia quanto no audiovisual", explica Andrea. "Então, o objetivo é trazer, de diversas formas, diferentes expressões culturais para que eu alcance o máximo de pessoas, para que elas possam não só compartilhar a experiência que eu estarei vivendo, mas compartilhar da própria experiência delas, para que elas façam essa viagem para dentro de si, onde, na nossa ancestralidade, no início de tudo, não havia interferência externa. Então, é um convite a ter coragem de viver a sua identidade, qualquer que seja", diz.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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