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70 fotógrafas brasileiras têm trabalho reunido em novo livro

Coletânea de imagens de profissionais de várias épocas confere a devida relevância a essas mulheres nas artes visuais

10 mar 2022 - 05h10
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A pesquisadora e historiadora Yara Schreiber Dines preparou o livro Fotógrafas Brasileiras - Imagens Substantivas (Editora Grifo), uma coletânea que procura rastrear a produção de fotógrafas brasileiras ou estrangeiras que aqui desenvolveram seu trabalho em uma tentativa de mapear a sua produção imagética.

"Na publicação, propomos a visibilização e o empoderamento de fotógrafas brasileiras ainda pouco lembradas, no intuito de que haja o fortalecimento de seus ensaios e exposições e a criação efetiva de uma política pública de formação de arquivos de mulheres artistas nas instituições públicas e privadas, a fim de propiciar a realização de pesquisas e reflexões", explica. "O livro busca sua valorização e reconhecimento ao enfatizar a trajetória e a ação de mulheres fotógrafas visando a ocupação de seu devido espaço social como criadoras e produtoras de saber no campo da arte e da fotografia."

Iniciando sua pesquisa no começo do século 20, com a fotógrafa Gioconda Rizzo (1897-2004), que foi a primeira mulher a abrir um estúdio fotográfico em São Paulo (1914), a autora perpassa pelos vários momentos nos quais as artistas em muito contribuíram para o desenvolvimento da estética fotográfica brasileira. Lembrando das fotojornalistas ou ainda artistas plásticas que, na virada do século 20 para o 21, se apropriaram da imagem e a levaram para suas produções. São fotógrafas de quase todo o Brasil. O livro apresenta uma pequena biografia das artistas e algumas de suas fotos. Yara Scheiber Dines ouviu 50 fotógrafas incluindo também o Coletivo Mamana, organizado só por mulheres, e o Movimento Fotógrafas brasileiras.

Em seu artigo introdutório, Yara destaca o trabalho de pioneiras como Hildegard Rosenthal (1913-1990) e Alice Bril (1920-2013), imigrantes da Alemanha que vieram para São Paulo nos anos 1930 atuando como fotojornalistas e fotógrafas documentais modernas e pioneiras nessas áreas.

"As duas fotógrafas flagravam cenas de rua, o que era uma ousadia para a época, pois, nas décadas de 1940 e 1950, a maior parte das fotógrafas no País ainda atuavam dentro de ambientes fechados, como os ateliês", escreve a historiadora, que destaca ainda a importante ação de outras fotógrafas imigrantes: Maureen Bisilliat, que veio da Inglaterra, e Claudia Andujar, proveniente da Hungria.

O ponto alto do livro é o belíssimo ensaio Mulheres de Visão - A Fotografia Como Trajetória do Olhar, que aqui funciona como introdução. Escrito pelas pesquisadoras e historiadoras Angela Magalhães e Nadja Peregrino, o artigo relata a história e o contexto sócio-histórico no qual as fotógrafas viveram e criaram sua produção. Livros como estes são muito necessários, embora seria bem-vindo um aprofundamento crítico das produções.

Mas se trata de uma obra necessária para quem quiser pesquisar a produção destas "mulheres de visão" (parafraseando Angela Magalhães e Nadja Peregrino), ciente de que há ainda o que falar e outras fotógrafas para pesquisar, especialmente as menos conhecidas. Mesmo assim, trabalhos que reúnem em uma coletânea nomes importantes da fotografia brasileira são bem-vindos.

Assim, não podemos nos esquecer de ensaios anteriores que, em sua época, fizeram um mapeamento semelhante e de outros projetos hoje muito envolvidos nas pesquisas da produção das fotógrafas.

Sempre presentes na história da fotografia desde sua invenção nas primeiras décadas do século 19, muitas vezes, porém, essas narrativas ficaram escondidas e não percebidas. Mulheres que tinham estúdios, cobriam guerras, eram contratadas por revistas e jornais e sempre estiveram em todos os lugares onde havia histórias para serem contadas ou gêneros estéticos para serem apresentados. Mas, por algum motivo, ficaram relegadas durante muito tempo a um silêncio incompreensível.

Há vários anos, pesquisadoras, acadêmicas e curadoras vêm trazendo à tona a importância desses trabalhos para o desenvolvimento estético da linguagem. Não um simples olhar feminino que, de antemão, seria restritivo, mas um tipo de observação que foi construindo uma narrativa visual do mundo.

No começo dos anos 1990, a pesquisadora norte-americana Naomi Rosenblum lançou o livro A History of Women Photographers, quase uma "enciclopédia" na qual a autora pesquisou as mulheres do século 19 até o 20 em todo o mundo. Nesta edição, seis fotógrafas brasileiras compareceram: Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Cyntia Brito, Lily Sverner (que também estão no livro de Yara Dines) e Ameris Paolini.

Com a chegada do século 21, muitas coletâneas sobre fotógrafas foram lançadas, fruto de coletivos só de fotógrafas mulheres, reuniões de mulheres da imagem, fotolivros, etc. Em 2019, em Fortaleza, nasceu o projeto Sol para Mulheres, coordenado por Patricia Veloso e realizado pela Imagem Brasil Galeria, com o intuito de reafirmar o compromisso dessa galeria em valorizar e divulgar o trabalho de produtoras de imagem no Ceará, incentivando a criação artística e o compartilhar de conhecimentos.

No ano passado, foi lançado oficialmente o site Mulheres Luz, com curadoria da fotógrafa e produtora Mônica Maia e objetivo de visibilizar, difundir e democratizar o acesso aos conteúdos produzidos por fotógrafas e mulheres da imagem no Brasil, reunindo ensaios e portfólios voltados a diversos temas, tempos e territórios, além de veicular pesquisas e publicações culturais. Ambos os projetos oferecem cursos, palestras, exposições e publicações. Conheço bem estes projetos - para o Mulheres Luz, fui consultada como professora e, para Sol para Mulheres, ministrei algumas palestras.

Ainda em 2021, tivemos o FFala, primeiro festival de fotografas latino-americanas e o lançamento do livro Mulheres Fotógrafas / Mulheres Fotografadas, Fotografia e Gênero na América Latina, coletânea de autoras e autores organizada pelas pesquisadoras Erika Zerwes e Helouise Costa. Vinte e nove textos que apresentam e discutem com olhar afiado a produção na América Latina.

Uma boa notícia é que, nos últimos dois anos, histórias e imagens que não eram tão conhecidas entraram nas redes sociais ou saíram das prateleiras empoeiradas da academia, ocupando um lugar que sempre lhes pertenceu.

SERVIÇO

O livro Fotógrafas Brasileiras - Imagem Substantiva terá lançamento na Livraria da Travessa, em Pinheiros, no próximo dia 30

Estadão
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