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Movimentos querem protagonismo em debate da crise climática

Evento organizado pela Rede Afroambiental, na zona sul de SP, reuniu representantes de religiões de matriz africana e de povos indígenas

14 jul 2022 - 05h00
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Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Para os povos tradicionais, não existe meio ambiente. Existe o todo. "Quando a gente pensa em ecologia, a gente não pensa em recursos hídricos, em recursos minerais. A gente tem a dimensão sagrada da ecologia".

É assim que o mestre Aderbal Ashogun introduz uma luta que percorre seu sangue e que se iniciou com sua mãe, Beatriz Moreira Costa, mais conhecida como Mãe Beata de Yemanjá, escritora, militante e ativista que fundou a Rede Afroambiental, em 1992.

“Educação ambiental para os povos de matriz africana é uma falácia. Nós temos o nosso conhecimento e queremos levá-lo”, explica. Naquele ano, ela também representou os Povos de Terreiro ao discursar na Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro — os 30 anos do evento serão lembrados em outubro de 2022.

Mãe Beata faleceu em 2017 aos 86 anos, mas o filho continua em movimento e com propostas para a conferência que voltará a ser sediada na capital fluminense, a Rio+30. Em roda de conversa no sábado (9/7), no espaço da Agência Solano Trindade, no Campo Limpo, zona sul da cidade de São Paulo, Aderbal chamou a atenção para a urgência do debate sobre crise climática pelo olhar das populações negra e indígena.

"Em 30 anos, o que houve foi um abandono de pauta e quando viram que nós queríamos o protagonismo, as ONGs verdes, o governo, abandonaram a pauta porque acharam que poderiam fazer a luta por nós, acharam que poderiam curar a terra com conhecimento eurocêntrico, que é de violência, que é de tratar a natureza como recurso”, explica.

Essa perspectiva também alça o conceito de racismo ambiental, quando determinadas populações são jogadas à morte e ao apagamento, com aval do Estado, por projetos e situações que afetam a natureza. A ialorixá e mestre em cultura popular Maria Elizabeth Santiago de Oliveira, mais conhecida como Mãe Beth de Oxum, aponta como exemplo as fortes chuvas e deslizamentos que assolaram Recife, em Pernambuco, e mataram 175 pessoas, entre maio e junho deste ano, atingindo, principalmente, moradores de morros e encostas.

“Recife é cortado por vários rios e é a cidade mais vulnerável do Brasil, do ponto de vista do avanço do mar, e se a gente não tiver uma ação concreta da sociedade, de políticas públicas, já está no script. É incrível como a sociedade deu as costas para os rios. É só caos, construções desordenadas às margens dos rios, destruição às margens dos rios e agora a gente viu a tragédia de mais de 130 mortes. Muita chuva, muita miséria, muita calamidade: é uma tragédia anunciada!”, denuncia.

São as populações mais vulneráveis, em sua maioria pessoas negras, que sofrem com dois extremos, já que, por conta do racismo, passaram a viver em regiões periféricas e de risco, sem políticas públicas, aponta Mãe Beth.

“Lá na minha comunidade, a gente passa sete dias sem água. É um dia por semana [com água]. E aí [tem] toda a problemática que isso acarreta. Essa água que nos falta está sobrando nos prédios de Boa Viagem, nos prédios da elite. Racismo ambiental na lata, literalmente”, conta ao mencionar sua vivência na periferia do centro histórico de Olinda, na região metropolitana de Recife.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Além disso, destaca que a crise climática, da qual os governos e a sociedade têm responsabilidade, também destrói e apaga as culturas afrodescendentes. “A gente não tem um lugar para fazer nossos rituais. O rio corta a cidade e a gente não pode fazer. A gente não tem segurança porque nossas práticas são criminalizadas”, pontua. “Temos essas práticas milenarmente. O meu ancestral mais antigo são as águas doces, eu sou filha da Oxum. A gente tem uma relação sagrada com isso, com a mata, a gente cultua pai Tupã, o caboclo, os orixás e a morada deles é a natureza. Só que a política é para exterminar”.

Felipe Brito, coordenador da Ocupação Cultural Jeholu, explica que os conhecimentos dos povos tradicionais não são vistos como tecnologias no sistema capitalista. “A tecnologia do povo preto é uma tecnologia de afeto. O terreiro é a tecnologia da afetividade sem tornar o indivíduo invisível e a sociedade branca a todo o momento nos coloca no lugar da individualização”, conta.

Outro exemplo de racismo ambiental elencado por Felipe, que atravessa a intolerância religiosa, foi a discussão do abate religioso animal. “No estado de São Paulo, em várias câmaras municipais, nós enquanto movimento tentávamos barrar projetos de lei que proibiam o abate religioso animal na matriz africana. Porque o ritual kosher, halal [sacrifício de animais em rituais judeus e muçulmanos], islâmico continuavam lá, mas na matriz africana, que é coisa de preto, não podia. E quem ia nos atacar eram os veganos dizendo que estávamos atentando contra a vida, mas sempre tinham por trás ‘Jesus Cristo é o senhor’”, critica. “A mesma pessoa que critica nosso abate no terreiro é a que vai comprar carne no açougue”, prossegue. “A tecnologia do racismo para nos matar é sutil, mas muito violenta, e que nos faz acreditar que os culpados somos nós.”

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Projeto de ‘envolvimento’

“O projeto político hoje está com os povos tradicionais”, sentencia a ialorixá e educadora Ya Wanda d'Omolu. “As pessoas estão reclamando da terra. Nós cultuamos a terra. As pessoas estão falando das águas, nós alimentamos as águas. As pessoas estão falando de corpos violados. Nós cuidamos de corpos. As pessoas estão falando de alimentação. Nós estamos sustentando os terreiros e as tribos alimentando todos os dias. Apesar da irresponsabilidade dos homens das canetas, nós estamos aqui secularmente”.

A irresponsabilidade das canetas inclui o arrefecimento das políticas ambientais, aumento de desmatamento e conflitos por terra que culminam em assassinatos de integrantes de comunidades, especialmente indígenas. A liderança e ativista Sonia Guajajara, de origem da Terra Indígena Araribóia no Maranhão, soma, ainda, a atuação do governo federal, sob a figura do presidente Jair Bolsonaro (PL), na condução da pandemia.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Aqui a pandemia atingiu mais ainda não porque os nossos morreram por conta da contaminação, mas morreram pela irresponsabilidade do governo, pela falta de estrutura, de atendimento adequado para evitar essas mortes”, critica.

“Então, de mais de 600 mil mortes no Brasil, nós indígenas fomos cerca de 1.100 contabilizados [até agosto de 2021], e quando a gente perde 1.100 dos nossos de aproximadamente 1 milhão que somos no Brasil, parte da nossa cultura também enfraquece porque foram muitos de nossos professores, nossos anciãos, que eram a própria cultura viva”, explica. “E com esse genocídio que se antecipou, não tiveram tempo de repassar para os mais jovens esse conhecimento ancestral. Por isso, nós temos essa missão de manter nossa luta, manter nossa identidade, nossas raízes e manter viva essa origem que o próprio Brasil nega e desconhece.”

Além disso, Sonia aponta que a destruição ambiental potencializa riscos de novas pandemias. “Esse desequilíbrio de um modelo totalmente predatório, opressor e centralizador começa na exploração da mãe Terra. Então, cada um não consegue estar mais ali no seu lugar. Foram várias espécies e nós somos só mais uma que co-habitamos com outras. Se um perde o seu lugar, ele vai procurar outro lugar para que possa ir. E o vírus passou a se hospedar nas pessoas.”

A ativista também enfatiza que a preservação da natureza costuma ser vista de forma equivocada, como um obstáculo ao dito “progresso”. “Lá em 1500, o que foi essa chegada europeia? Poderia ter sido muito bem um encontro de culturas, já existiam povos aqui, mas não foi. Chegaram pessoas que se consideravam mais do que os outros, de culturas superiores, e começou essa sobreposição de cultura, considerando quem estava aqui como culturas inferiores e, portanto, tudo que estava ali vivo era improdutivo, eram riquezas que precisam ser exploradas e comercializadas, e para ter lucro, ter essa comercialização, era preciso destruir a natureza”, explica. “E essa destruição aconteceu, inclusive, dos nossos povos, nossos corpos foram violados para dar lugar à ganância. Todo o projeto de desenvolvimento teve como pano de fundo o extermínio das culturas indígenas e negras porque sempre fomos vistos como empecilhos.”

Ela, que é formada em Letras, passou a questionar o conceito de desenvolvimento. “‘Des’ é retirar. Então, é quando você deixa de envolver. Para a elite, para o capital, está correto: eles querem o desenvolvimento porque querem deixar de envolver a gente. Para nós, essa palavra não serve, a gente quer ser envolvido e, por isso, nós temos que apresentar nosso projeto de envolvimento”, afirma.

Para isso, Sonia sugere que uma forma de levar esse projeto é ocupar espaços de poder para evitar mortes e destruição. Ela, inclusive, é pré-candidata a deputada federal pelo PSOL de São Paulo para o pleito deste ano e foi a primeira mulher indígena a disputar uma chapa presidencial nas eleições de 2018.
“A gente tem que estar no lugar em que possa participar das decisões do país, possa elaborar leis, possa executar leis”, sentencia. Em 2020, houve um aumento de 28% de indígenas eleitos em cargos de vereador, prefeito e vice-prefeito comparado com 2016: 237 representantes de povos originários, segundo dados compilados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e pelo Instituto Socioambiental.

Mãe Beth também indica que é preciso promover acesso ao conhecimento. Ela lançou com os filhos, em 2014, um projeto nas escolas públicas de Olinda chamado Contos de Ifá, um jogo educacional sobre mitologia de matriz africana com base na Lei 10.639/03, que trata do ensino da história e da cultura africana nas escolas. “A gente precisa se apropriar das tecnologias porque hoje a comunicação está nas redes sociais”, explica. “Quem é que está programando? É a juventude branca e rica”.

Aderbal Ashogun, da Rede Afroambiental, aponta que é necessário investir na conscientização e educação das pessoas. “Não adianta querer combater a crise climática com a exploração do lítio para carro elétrico rodar na Europa. Não adianta ter moinhos com geração de energia que estão matando a cultura do Ceará. Não adianta as lideranças neopentecostais promoverem estado de calamidade da diversidade cultural porque todos nós estamos em risco.”

Uma das propostas de Aderbal para a Rio+30 é que os movimentos negros e indígenas sejam beneficiados pelo Fundo Verde do Clima, que foi criado em 2010 e é vinculado  à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas com o objetivo de destinar recursos a projetos de mitigação de impactos ambientais. “É um fundo que tem que ver investido nas cidades, mas eles privilegiam a economia verde, o monóxido de carbono e esqueceram de investir na educação, na pessoa humana. Nós queremos a ecologia humana. Queremos o reconhecimento da nossa cultura como ferramenta de transformação para combater a crise climática”.

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