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Ondas cerebrais lentas do sono profundo podem indicar risco de demência, sugere estudo francês

A atividade cerebral é caracterizada por ondas elétricas que podem ser registradas na superfície do crânio por meio de um exame chamado eletroencefalograma (EEG). A amplitude e a frequência dessas ondas variam conforme as tarefas realizadas.No Instituto do Cérebro do Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris, uma equipe de pesquisadores estuda o papel dessas ondas nos mecanismos cognitivos dos adultos, especialmente aqueles relacionados à atenção.

20 out 2026 - 10h28
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Resumo
Pesquisadores franceses descobriram que a presença de ondas cerebrais lentas durante a vigília pode indicar risco precoce de demência e Alzheimer. O estudo com cerca de 300 idosos revelou que indivíduos com maior amplitude dessas ondas em repouso acumularam mais placas da proteína beta-amiloide após dois anos. Detectável via eletroencefalograma simples, esse padrão atua como um biomarcador preditivo para antecipar diagnósticos e direcionar tratamentos antes do declínio cognitivo dos pacientes.

Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

Environ 35 millions de personnes dans le monde seraient atteintes de la maladie d'Alzheimer.
Environ 35 millions de personnes dans le monde seraient atteintes de la maladie d'Alzheimer.
Foto: © Unsplash / Merrilee Schultz / RFI

Nos últimos anos, pesquisadores descobriram que ondas lentas, semelhantes às observadas durante o sono, também podem ser detectadas quando a pessoa está acordada. Os neurocientistas Thomas Andrillon e Delphine Oudiette, que trabalham no instituto parisiense, utilizaram essas informações como ponto de partida para um projeto que investiga uma possível relação entre essas ondas e o risco de desenvolver demência ou doença de Alzheimer no futuro.

As pesquisas abrem caminho para a identificação de um fator preditivo da doença, com o objetivo de antecipar diagnósticos e retardar o aparecimento dos sintomas. Em estado de vigília, a atividade dessas ondas lentas costuma aumentar após um esforço cognitivo ou durante tarefas que exigem alta concentração. Elas também são mais frequentes quando há privação de sono e lapsos de atenção.

Pierre Champetier, pesquisador do Instituto do Cérebro e primeiro autor de um dos estudos, explica que neurônios de determinadas regiões cerebrais sincronizam sua atividade, de forma semelhante ao que ocorre durante o sono, mesmo quando a pessoa está acordada. Segundo ele, essa observação pode ser importante para compreender melhor a doença de Alzheimer.

"Além dos problemas de memória, pacientes com doenças neurodegenerativas frequentemente apresentam déficits de atenção e distúrbios do sono", explica. "O descanso costuma ser mais fragmentado, e diferentes fases do sono são alteradas, em especial o sono REM (Rapid Eyes Mouvement) e as ondas lentas características do sono profundo. Há cerca de quinze anos, diversos estudos sugerem que essas ondas lentas desempenham um papel importante na manutenção da saúde cerebral", acrescenta.

Análise de dados existentes

A equipe analisou dados de uma coorte de cerca de 300 participantes entre 70 e 85 anos. Todos relatavam queixas de memória, embora apresentassem resultados normais em testes neuropsicológicos. Os voluntários foram submetidos a uma bateria de exames que incluía avaliação cognitiva, eletroencefalograma em repouso e exames de imagem cerebral, como ressonância magnética e tomografia por emissão de pósitrons (PET scan).

O objetivo era detectar depósitos da proteína beta-amiloide e sinais de neurodegeneração, dois marcadores associados à doença de Alzheimer. Os exames foram repetidos dois anos depois. Essa abordagem permitiu aos pesquisadores avaliar uma possível relação entre as ondas lentas registradas durante a vigília e o desempenho cognitivo dos participantes.

Os pesquisadores fizeram uma descoberta surpreendente: entre os participantes que inicialmente não apresentavam placas amiloides características da doença de Alzheimer, aqueles que exibiam ondas lentas de maior amplitude no início do estudo foram os que acumularam mais depósitos amiloides alguns anos depois.

"É importante destacar que este é um primeiro estudo, o primeiro a examinar especificamente as ondas lentas nesse contexto. Antes que esse tipo de avaliação possa ser incorporado à prática clínica, muitos estudos adicionais ainda serão necessários. Se pesquisas futuras confirmarem esses resultados e demonstrarem a utilidade do monitoramento dessas ondas lentas, uma vantagem importante é que o EEG é um exame simples de realizar", diz o cientista francês.

"O objetivo, porém, não é substituir os métodos de diagnósticos existentes. Nas doenças neurodegenerativas, o diagnóstico normalmente se baseia em um conjunto de indícios. O médico leva em consideração as queixas do paciente, seu desempenho em testes cognitivos, as observações de familiares e os biomarcadores obtidos por exames complementares, como ressonância magnética e PET scan."

O pesquisador ressalta que alterações nas ondas lentas cerebrais não são exclusivas da doença de Alzheimer e, caso os resultados sejam confirmados, o principal interesse seria identificar, de forma muito precoce, os pacientes com maior probabilidade de desenvolver a doença.

"Hoje, os biomarcadores podem ser medidos com relativa facilidade, inclusive por meio de exames de sangue. No entanto, um resultado positivo não significa necessariamente que a capacidade cognitiva irá declinar. Algumas pessoas apresentam esses marcadores, mas permanecem estáveis em termos cognitivos. O objetivo é identificar quais pacientes realmente evoluirão para a doença", diz.

O desafio dos tratamentos

As primeiras terapias baseadas em anticorpos antiamiloides demonstraram alguns benefícios, embora ainda modestos em relação à evolução cognitiva e à percepção dos próprios pacientes, lembra o pesquisador. A utilização desses medicamentos continua controversa e eles não são aprovados em todos os países, principalmente devido ao risco de efeitos colaterais. Além disso, precisam ser administrados em estágios muito iniciais da doença para serem eficazes e têm custo elevado.

"Isso levanta uma questão essencial: a quais pacientes esses tratamentos devem ser oferecidos? Como qualquer medicamento, eles apresentam riscos. Se forem administrados a pessoas que permaneceriam estáveis sem tratamento e que talvez nunca desenvolvessem a doença, os benefícios podem não compensar os possíveis efeitos colaterais", ressalta.

"É nesse ponto que nosso estudo pode contribuir. Embora ainda haja um longo caminho a percorrer, o objetivo é acrescentar uma nova ferramenta para identificar as pessoas com maior risco de progressão da doença. Não se trata de substituir exames já estabelecidos, como a ressonância magnética ou o PET scan, mas de complementar as informações fornecidas por eles."

Sinais de alerta

O pesquisador francês lembra que alterações do sono, mais frequentes com o envelhecimento, estão associadas a um aumento do risco de doenças neurodegenerativas. "Pessoas que sofrem de distúrbios crônicos do sono, como insônia persistente, apresentam, a longo prazo, maior risco de desenvolver essas patologias. Esse risco não está relacionado a apenas uma doença cerebral, mas a várias."

Algumas mudanças no sono associadas ao envelhecimento são normais e não devem causar preocupação. Outras, porém, podem representar um verdadeiro sinal de alerta. Por exemplo, uma pessoa que sempre dormiu bem e passa a acordar sistematicamente às quatro ou cinco da manhã deve procurar um médico, sobretudo se isso estiver afetando sua rotina. Outro exemplo, cita Pierre Champetier, é a apneia do sono, um problema que pode ficar anos sem diagnóstico e manejo terapêutico adequado.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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