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'Não faz sentido o Brasil ficar à margem da evolução da tecnologia'

Para o engenheiro e blogueiro do Estadão, Guy Perelmuter, País precisa investir em pesquisa para não ser soterrado por tsunami de inovações

16 nov 2019 - 05h10
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Um dos mestres da ficção científica contemporânea, o William Gibson (de Neuromancer, que inspirou o filme Matrix) tem uma frase que descreve muito bem o ciclo de disrupção que o mundo vive hoje: "O futuro já chegou, só não está uniformemente distribuído". Pode parecer complexo, mas há quem tente dar conta de explicar o que Gibson quer dizer.

Uma boa forma de decifrar a frase está presente em Futuro Presente: O Mundo Movido à Tecnologia, livro que o engenheiro e blogueiro do Estadão Guy Perelmuter lança no fim do mês. "O livro fala sobre como a convergência de várias evoluções, como a internet, smartphones ou sensores, estão nos levando a um novo estágio de maturidade tecnológica", diz Perelmuter.

Vencedor do Prêmio Jovem Cientista nos anos 1990, pesquisador de inteligência artificial e hoje investidor de startups, ele apresenta, ao longo de mais de 300 páginas, o contexto histórico e o panorama futuro de revoluções como carros autônomos e voadores, inteligência artificial ou biotecnologia. "Dizer qual dessas áreas é mais importante é como perguntar qual das quatro pernas de uma mesa é a mais importante", afirma.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

No que consiste o livro 'Futuro Presente'?

A tecnologia hoje desperta o interesse de todo mundo. Mas existe um aspecto dela que passa embaixo do radar das pessoas: como a convergência de várias evoluções está nos levando a um novo estágio de maturidade tecnológica. Estou falando de microprocessadores, memória, internet, sensores, smartphones, blocos de tecnologia que viabilizam uma série de verticais. Estudei inteligência artificial nos anos 1990 e achei que era uma revolução iminente. O mesmo vale para aplicações em robótica ou biotecnologia. São áreas que demoraram 20 anos para se concretizar, mas que hoje tem impacto em atividades econômicas, governamentais e no nosso dia a dia. O livro tenta explicar, em linguagem acessível, o que é esse novo mundo.

O sr. mantém um blog no 'Estadão' há três anos sobre muitos desses temas. Como os textos influenciaram este livro?

As colunas foram o ponto de partida do livro, mas mesmo num texto digital, há certa limitação. O livro busca aproveitar e extrapolar esses temas. As colunas foram o insumo básico do livro, mas trazem agora contexto histórico e detalhamento que permitem a visualização de um contexto único.

Cada capítulo trata de uma tecnologia. Qual é a tecnologia mais importante, na sua visão?

É a mesma coisa que perguntar qual das quatro pernas de uma mesa é a mais importante. Nesse cenário de convergência, as tecnologias se apoiam umas nas outras. O leitor pode pular de um capítulo para outro na ordem que preferir, se quiser entender mais sobre blockchain, criptografia ou decifrar as redes sociais. Por conta do meu histórico acadêmico, porém, creio que inteligência artificial é uma área crítica. Hoje, todas as tendências estão se apropriando de IA, antecipando de forma palpável para as pessoas a convergência, realidade com a qual teremos de nos acostumar.

O sr. estudou IA há 20 anos. Por que levou tanto tempo para ela se tornar corriqueira?

Há uma frase do psicólogo Joseph Licklider, que eu gosto muito: as pessoas tendem a superestimar o que pode ser feito em um ano e subestimar o que pode ser feito em cinco ou dez anos. É compreensível: toda tecnologia tem um 'hype' inicial, a expectativa de que aquilo vai transbordar para o dia a dia em meses. Aí vem a decepção, pois isso nunca acontece, e as pessoas deixam de considerar os impactos de tecnologia na próxima década. Hoje, IA está muito perto de atingir a vida do cidadão comum. Isso só aconteceu porque temos processamento de dados mais barato e acessível, armazenamento na nuvem por um valor módico e sensores que custam uma fração do que custavam. Mas a inteligência artificial é só uma ponta do iceberg.

Quais são os riscos do Brasil ficar muito para trás no meio dessa convergência?

É um risco não só evidente, mas que pode ser catastrófico. Somos um país exportador de commodities e importador de tecnologias. O momento é delicado, porque a convergência é significativa e é preciso fazer pesquisa dentro de casa. Não tem um lugar do mundo em que o fomento à pesquisa não seja alimentado pelo governo - a nanotecnologia, por exemplo, recebeu mais de US$ 20 bilhões a fundo perdido do governo americano. Aqui não é assim. Além disso, o registro de propriedade intelectual é muito demorado - é complicado ser competitivo em um cenário de inovação rápida, em que uma tecnologia fica obsoleta em meses ou poucos anos.

Ou seja: o cenário no Brasil precisa mudar muito...

Quando é só uma tecnologia, (esse atraso) já é ruim. No tsunami de inovações que vivemos, é ainda mais complicado. Não faz sentido o Brasil ficar à margem da evolução da tecnologia, até a velocidade desse processo não vai se reduzir.

Estadão
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