Japão prepara missão inédita para coletar amostras de lua de Marte, em colaboração com EUA e Europa
Cientistas japoneses preparam uma missão às luas de Marte para coletar amostras que podem ajudar a desvendar a origem do Sistema Solar e da vida na Terra, naquela que pretende ser a primeira viagem de ida e volta à região marciana.
O Japão lançará a missão inédita MMX, em parceria com EUA e Europa, rumo a Marte. A sonda coletará amostras da superfície da lua Fobos e observará Deimos, realizando a primeira viagem de ida e volta ao sistema marciano. Com o auxílio do robô IDEFIX, o projeto busca desvendar a origem do Sistema Solar, avaliar o surgimento de ambientes habitáveis e preparar futuras viagens tripuladas, em meio à corrida espacial contra a China pelo retorno de materiais da região.
A sonda não tripulada Martian Moons eXploration (MMX), uma colaboração entre as agências espaciais dos Estados Unidos e da Europa, além de diversas universidades e empresas de tecnologia, também poderá contribuir para preparar futuras missões tripuladas a Marte.
O foguete H3, que transportará a MMX, deve decolar do Centro Espacial de Tanegashima na terça-feira, às 4h41 (16h41 de segunda-feira, no horário de Brasília), segundo a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA).
"Poder participar de uma missão tão grandiosa é incrivelmente empolgante", disse Makoto Arita, gerente do projeto da equipe do foguete H3 da JAXA, a jornalistas dois dias antes do lançamento.
A espaçonave deve chegar às proximidades de Marte por volta de agosto do próximo ano. Ela entrará em órbita de uma de suas luas, Fobos, antes de pousar e coletar pelo menos 10 gramas de material de sua superfície durante três anos de operações na esfera de influência de Marte.
Um robô chamado IDEFIX — nome francês do cachorro do personagem de quadrinhos Asterix, Ideafix — fará primeiro observações da superfície para garantir que o pouso seja realizado com segurança.
"A coleta de amostras de Fobos é, naturalmente, uma estreia mundial, mas isso significa que esta é a primeira viagem de ida e volta ao sistema marciano", disse à AFP Yasuhiro Kawakatsu, gerente do projeto MMX.
A JAXA afirmou que a missão também estudará a possibilidade de utilizar Fobos como uma "estação espacial natural", estabelecendo os requisitos para uma viagem de ida e volta a Marte — algo "essencial para a exploração tripulada de Marte". A sonda também observará Deimos, a outra lua do planeta vermelho, mas não pousará nela, antes de retornar à Terra.
Impacto ou captura
A JAXA espera que a missão ajude a esclarecer como Marte e suas duas luas se formaram, uma informação fundamental para compreender como surgiu o Sistema Solar.
Uma das teorias sobre a origem das luas marcianas, conhecida como hipótese do "grande impacto", é que elas tenham se formado após a colisão de um corpo celeste com Marte. Já a hipótese da "captura" sustenta que as luas seriam asteroides capturados pela gravidade de Marte.
Determinar qual teoria está correta ajudará a compreender "como um ambiente habitável para a vida pode ter surgido nos planetas terrestres", afirmou a JAXA, referindo-se aos quatro mundos rochosos mais próximos do Sol: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.
"A MMX trará esclarecimentos sobre os mecanismos de transporte que levaram água, elementos voláteis e compostos orgânicos das regiões externas do Sistema Solar para a região interna dos planetas rochosos — processos que podem ter desempenhado um papel fundamental na transformação desses mundos em ambientes habitáveis", disse Patrick Michel, astrofísico francês que trabalha no projeto IDEFIX.
"Se Fobos e Deimos forem de fato remanescentes desses primeiros sistemas de transporte, elas podem conter pistas sobre a própria origem da vida ou, para sermos mais precisos, sobre o transporte dos materiais fundamentais para o surgimento da vida nos planetas rochosos", disse ele à AFP.
No fundo do "poço gravitacional"
A MMX é uma colaboração com o Centro Nacional de Estudos Espaciais da França (CNES), o Centro Aeroespacial Alemão (DLR), a NASA, a Agência Espacial Europeia (ESA) e cerca de 20 universidades e empresas de tecnologia.
O desenvolvimento das pernas de pouso da espaçonave foi particularmente difícil porque a gravidade de Fobos é extremamente fraca, segundo cientistas da JAXA. A missão japonesa não tripulada Smart Lander for Investigating Moon (SLIM) — apelidada de "Moon Sniper" — tombou após pousar na Lua da Terra em 2024, mas ainda conseguiu transmitir dados e sobreviver a várias noites lunares de duas semanas.
O Japão também tem experiência na coleta e no retorno de amostras do espaço. A sonda não tripulada Hayabusa-2, da JAXA, trouxe de volta à Terra, em 2020, 5,4 gramas de rochas e poeira coletadas de um asteroide localizado a várias centenas de milhões de quilômetros do nosso planeta.
Na próxima missão, "teremos que viajar muito perto de Marte e retornar", o que significa escapar da forte gravidade do planeta, disse Kawakatsu aos jornalistas. Fobos orbita a cerca de 6 mil quilômetros acima da superfície de Marte. "É difícil chegar ao fundo do que chamamos de 'poço gravitacional'", afirmou Kawakatsu.
Missão da China
As agências espaciais dos Estados Unidos e da China vêm competindo na obtenção de amostras coletadas na superfície de Marte.
O robô Perseverance, da NASA, que explora o planeta vermelho desde 2021, já coletou amostras. A missão, no entanto, foi efetivamente cancelada pelo governo do presidente Donald Trump após uma votação no Congresso americano em janeiro.
A China, por sua vez, anunciou que sua espaçonave Tianwen-3 deve ser lançada por volta de 2028 e espera trazer amostras de Marte para a Terra já em 2031 — potencialmente antes do retorno da MMX.
Cientistas da JAXA afirmam que areia e rochas de Fobos podem oferecer uma variedade maior de amostras do que as encontradas no próprio planeta, especialmente se a lua tiver se formado a partir da colisão entre um corpo celeste e Marte.
com AFP
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