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Estudo francês mostra como cheiros reativam memórias da infância no cérebro

O cheiro daquele bolo quentinho de chocolate preparado pela mãe desperta emoções e memórias, mas, até hoje, os cientistas ainda não sabiam explicar como um odor faz ressurgir lembranças da infância. O mistério acaba de ser desvendado por uma pesquisa publicada recentemente na revista PLOS Biology, que mostra que essas experiências precoces deixam marcas cerebrais. Esses registros podem reativar, ao longo de toda a vida, o contexto e as emoções associados a essas memórias.

15 set 2026 - 09h53
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Resumo
Um estudo francês revelou como o cérebro preserva memórias olfativas da infância associadas a emoções positivas. A pesquisa com humanos e camundongos mostrou que exposições periódicas ao aroma evitam o esquecimento. Com o tempo, a lembrança migra do bulbo olfatório, onde neurônios com alta plasticidade registram o estímulo inicial, para o sistema límbico, que processa emoções. Essa mudança nos circuitos neurais explica a forte sensação de nostalgia que certos odores despertam na vida adulta.

Taíssa Stivanin, da redação da RFI em Paris

Durante a pesquisa, que durou cerca de quatro anos, os cientistas franceses questionaram por que o cérebro seleciona e memoriza alguns dos cheiros que sentimos quando somos crianças. "Este estudo é uma continuação dos trabalhos que eu já desenvolvia na equipe, que consistem em compreender a percepção e a olfação", explica a neurobiologista francesa Nathalie Mandairon, uma das autoras. "Por que alguns cheiros são bons, agradáveis, prazerosos e temos vontade de senti-los novamente? Por que outros não?"

Para entender esse mecanismo neural, a equipe aplicou um questionário a um grupo de 640 voluntários. Os dados mostraram que as lembranças evocadas pelos odores eram positivas, acompanhadas de emoções agradáveis. A consolidação dessa memória, que depende de várias estruturas cerebrais, estava associada à repetição da experiência.

Com base nesses resultados, a equipe desenvolveu um modelo experimental com camundongos. Os animais foram condicionados a associar um odor considerado agradável a um ambiente repleto de experiências positivas: gaiolas com brinquedos, rodas de corrida, companhia de outros camundongos e acesso livre à comida. Os pesquisadores gravaram as vocalizações emitidas pelos animais, que indicavam um estado de satisfação.

A equipe realizou o experimento com camundongos jovens, de 2 a 3 meses, e outros mais velhos, com seis meses. Nessa fase da vida, eles haviam se esquecido do cheiro. Os cientistas então analisaram os dados dos participantes que responderam ao questionário e relataram ter sido expostos ao odor da infância ao longo da vida, cerca de uma vez por ano.  "Isso foi muito interessante. Se a exposição fosse excessiva, o cheiro acabaria sendo associado a outras experiências; se fosse insuficiente, o cheiro seria esquecido", explica a cientista francesa.

"Nós simulamos esse nível de exposição 'humano' nos camundongos e percebemos que, ao realizar pequenas exposições periódicas ao longo da vida, os animais de 6 meses, que já eram jovens adultos, mantinham a memória do cheiro. Só que, nessa altura, essa memória não dependia mais do bulbo olfatório: mostramos que essa estrutura foi deixada de lado em favor do circuito do sistema límbico, que gerencia as emoções", detalha Nathalie Mandairon.

Esse dado indica que a lembrança foi armazenada no cérebro e continuava a influenciar o comportamento dos animais. "Demonstramos também que há uma forte participação do bulbo olfatório no processo. Ele é a primeira estação central, digamos assim, de retransmissão da informação olfativa, com destaque para neurônios chamados células granulares", diz a neurobiologista francesa.

"Esses neurônios têm uma particularidade: embora o nosso cérebro geralmente já esteja formado quando nascemos, eles continuam surgindo nos dias seguintes ao parto. Ou seja, muito mais tarde em comparação com os demais. Isso significa que estão em um período de grande plasticidade quando a informação olfativa é decodificada pelo cérebro".

Segundo a pesquisadora, esses neurônios, além de serem plásticos também são muito estáveis. "Na pesquisa, mostramos que esses neurônios são muito importantes porque, se inibíssemos sua atividade, os camundongos deixavam de apresentar preferência pelo cheiro sentido na infância", completa.

Memória e emoções

Recapitulando, quando sentimos um cheiro da infância na idade adulta, o bulbo olfatório, conectado aos circuitos da memória e da recompensa no cérebro, ajuda a reativar as lembranças associadas a essa experiência passada. Com o tempo, essas informações passam a mobilizar mais intensamente os circuitos do sistema límbico, responsáveis pelas emoções e pela sensação de nostalgia relacionadas a essas recordações.

A lembrança muda de localização no cérebro e, ao longo do tempo, migra para estruturas diferentes. De acordo com a cientista francesa, isso explica por que os cheiros se tornam mais nostálgicos à medida que envelhecemos. Esse é o tema de sua nova pesquisa: entender melhor o conteúdo da memória humana. "Sentimos muitos cheiros na infância. Então por que arquivamos apenas alguns deles na memória? E o que esses odores têm em comum?"

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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