El Niño pode provocar eventos climáticos extremos e fazer de 2027 o ano mais quente já registrado
O próximo episódio de El Niño pode ser o mais intenso em mais de um século, segundo previsões do Met Office, o serviço meteorológico britânico, divulgadas nesta sexta-feira (21), e de outros especialistas. A intensidade do fenômeno pode fazer de 2027 o ano mais quente já registrado, com efeitos sobre temperaturas, chuvas e secas em várias partes do mundo.
Modelos climáticos indicam que o próximo El Niño pode ser o mais intenso já registrado, com probabilidade de elevar a temperatura do Pacífico em até 3,9°C. Combinado ao aquecimento global, o fenômeno deve provocar secas severas na América do Sul e tempestades na Europa, além de acrescentar 0,3°C à média do planeta. Cientistas alertam que o impacto pode fazer de 2027 o ano mais quente da história, atingindo 1,7°C acima dos níveis pré-industriais e antecipando o futuro climático em uma década.
"Eu nunca vi um fenômeno como esse se desenhar em nossas previsões", afirmou à BBC Adam Scaife, responsável pelas previsões de longo prazo do Met Office. Segundo ele, os modelos apontam para um episódio excepcional, com um pico superior a 3°C de aumento na temperatura da superfície do mar na região de referência do Pacífico.
As projeções reunidas pelo painel Climate Brink, com base em dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 já está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. As previsões apontam para um possível pico de 3,9°C em novembro, acima dos cerca de 3°C registrados em 2015, durante o episódio que até agora detinha o recorde de intensidade.
A NOAA estima, segundo o material, 69% de probabilidade de que o próximo episódio seja o mais intenso desde o início dos registros em 1950, utilizando uma nova metodologia de acompanhamento, o Relative Oceanic Niño Index (RONI).
O que é El Niño
El Niño é um fenômeno natural e temporário que ocorre, em geral, a cada dois a sete anos. Ele provoca o aquecimento anormal das águas superficiais do centro e do leste do Pacífico equatorial.
O fenômeno começa quando os ventos de leste, que normalmente mantêm as águas quentes acumuladas no oeste do Pacífico, enfraquecem. A água quente então se desloca em direção ao leste e chega à superfície.
O aquecimento do oceano altera a circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.
O resultado pode ser mais calor e seca em algumas regiões e mais chuva e temperaturas mais baixas em outras, além de favorecer eventos extremos.
América do Sul entre as regiões mais afetadas
Os efeitos mais fortes são esperados principalmente nas regiões tropicais.
Segundo Adam Scaife, o fenômeno poderá provocar secas severas na América do Sul e no oeste do Pacífico. Ao mesmo tempo, seus efeitos podem alcançar regiões muito mais distantes.
No Reino Unido, por exemplo, o Met Office já identifica sinais de uma possível intensificação das chuvas e tempestades a partir de novembro, com impactos também no noroeste da Europa.
Os efeitos, porém, não são necessariamente iguais em todos os episódios de El Niño. Michelle L'Heureux, do Centro de Previsão Climática da NOAA, alerta que episódios mais fortes aumentam a possibilidade de determinadas consequências, mas não garantem que elas ocorrerão em todas as regiões.
Alguns efeitos já são observados. Na Indonésia, um período prolongado e intenso de seca contribuiu para a propagação de incêndios que queimaram centenas de milhares de hectares.
Por que 2027 pode ser o ano mais quente
O impacto de El Niño sobre as temperaturas globais costuma ser mais pronunciado no ano seguinte ao desenvolvimento do fenômeno.
Por isso, os climatologistas Zeke Hausfather e Andrew Dessler estimam que El Niño poderá acrescentar aproximadamente 0,3°C à temperatura média global em 2027.
Dessler, professor da Universidade Texas A&M, compara o fenômeno a uma espécie de antecipação do futuro climático. Segundo seus cálculos, um aumento dessa magnitude nas temperaturas médias globais só seria esperado naturalmente em torno de 2037.
O pesquisador ressalta, porém, que o aquecimento adicional associado ao fenômeno estará concentrado principalmente no Pacífico equatorial.
Mike McPhaden, pesquisador do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico da NOAA, considera possível que a temperatura média global em 2027 fique 1,7°C acima dos níveis pré-industriais.
El Niño e o aquecimento global
El Niño é um fenômeno natural, mas ocorre hoje em um planeta que já está mais quente por causa das emissões humanas de gases de efeito estufa.
Os cientistas concordam que o aquecimento global pode amplificar os efeitos de El Niño. Uma atmosfera mais quente contém mais umidade, o que pode intensificar as chuvas onde o fenômeno já favorece precipitações. Nas regiões em que El Niño provoca secas, o aquecimento pode contribuir para uma maior secura do solo.
A questão de saber se o aquecimento global também torna o próprio El Niño mais intenso, entretanto, ainda não tem consenso científico.
Há indícios nesse sentido. Segundo Mike McPhaden, o aquecimento dos mares tropicais pode tornar mais sensíveis os ventos que alimentam o fenômeno e, por meio da convecção atmosférica, acelerar seu desenvolvimento.
Com base em indicadores naturais de climas passados, registros meteorológicos que remontam ao século XIX e modelos climáticos, McPhaden estima que a amplitude dos episódios de El Niño tenha aumentado cerca de 10% ao longo do último século.
A possível intensidade excepcional do próximo El Niño não significa, por si só, que todas as regiões do planeta terão condições climáticas extremas. Os efeitos variam conforme a localização e as características de cada episódio.
Mas a combinação entre um El Niño potencialmente excepcional e um planeta já aquecido pelo efeito estufa aumenta o risco de temperaturas recordes e de eventos extremos em diferentes partes do mundo.
Se as projeções atuais se confirmarem, 2027 poderá não apenas estabelecer um novo recorde de temperatura global, mas também oferecer uma antecipação das condições climáticas que, sem a influência de um El Niño excepcional, só seriam esperadas mais de uma década depois.
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