Sem ar-condicionado, calor desafia hospitais alemães
Construídos em épocas de verões amenos, maioria dos hospitais alemães não possui sistema de ar-condicionado. Estabelecimentos precisam agora improvisar durantes ondas de calor extremo.O Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE), no norte da Alemanha, tem se preparado para dias de calor. Há muitas árvores no terreno, um parque em frente ao local e videiras nas fachadas de alguns prédios.
Tudo isso ajuda a combater o calor. As árvores, sobretudo, refrescam o ambiente ao redor com sua sombra e ao absorverem o calor do ar por evaporação. As plantas nas fachadas dos prédios também têm um efeito refrescante e impedem que os raios solares aqueçam as paredes.
"Bancos também foram instalados embaixo das árvores para que pacientes, visitantes e funcionários possam descansar à sombra", afirma Frank Dzukowski, chefe do departamento de sustentabilidade do UKE. Há três anos, o hospital de Hamburgo desenvolveu um plano abrangente de proteção contra o calor.
Devido às mudanças climáticas causadas pelo homem, a Europa aquece de forma particularmente rápida, e a Alemanha também enfrenta cada vez mais dias quentes com temperaturas acima de 30 ºC.
Entre as décadas de 1950 e 1970, os verões mais quentes no país europeu registravam até cerca de oito dias com temperaturas acima dos 30 ºC. Na década de 1980, esse número subiu para dez. Nos anos 2000, chegou a 19, e na última década, em um ano recorde de calor os termômetros ultrapassaram 30 ºC em 20 dias.
O calor extremo representa um risco para a saúde. As ondas de calor, em particular, têm um efeito desgastante. Elas são definidas como períodos em que as temperaturas que se mantêm acima de 30 ºC ou mais por vários dias consecutivos e não caem abaixo de 20 ºC à noite
Hospitais alemães ainda não estão preparados
Diante desse cenário, a questão principal é se os hospitais são mesmo capazes de proteger adequadamente seus pacientes do calor. A maioria dos hospitais alemães foi construída quando as ondas de calor ainda eram uma exceção, portanto, geralmente não possuem ar-condicionado.
Mesmo no Centro Médico Universitário de Hamburgo, o ar-condicionado está disponível apenas em áreas específicas, como unidades de terapia intensiva e salas de cirurgia, relata Frank Dzukowski. Além disso, foram instalados quebra-sóis externos no prédio principal, que abriga aproximadamente metade de todos os leitos de pacientes.
"Onde isso não for possível, podem ser instalados elementos de sombreamento interno ou películas de controle solar para reduzir a quantidade de calor e luz solar que entra no prédio." Pacientes especialmente doentes ou frágeis são, se possível, colocados em quartos que não aquecem tão rapidamente. Os quartos dos funcionários podem ser resfriados um pouco com ventilação noturna.
É importante que um plano de proteção contra o calor não apenas defina as medidas individuais, mas também atribua responsabilidades e avalie as experiências específicas, afirma Dzukowski.
Em 2024, o Instituto Alemão de Hospitais realizou uma pesquisa com 289 estabelecimentos para determinar se eles haviam implementado medidas contra o calor. O resultado: 60% responderam que não. A grande maioria dos hospitais (96%) citou a falta de verbas como principal razão para isso. O alto nível de burocracia também impede que muitos estabelecimentos façam mais para melhorar a proteção contra o calor. "Dada a difícil situação econômica atual, eles frequentemente têm outras prioridades", afirma a pesquisa.
Falta recursos
De acordo com a Federação Alemã de Hospitais (DKG), essa situação não deverá ter mudado muito em 2026. A entidade sem fins lucrativos representa os interesses dos hospitais na Alemanha.
Há décadas, os estados alemães não cumprem sua obrigação de refinanciar os custos reais de investimento feitos pelos hospitais, critica o presidente da DKG, Gerald Gaß. "Na prática, isso muitas vezes significa que os hospitais investem os recursos limitados que possuem em atendimento direto ao paciente, por exemplo, comprando equipamentos ou financiando reparos urgentes, em vez de modernizar o sistema de ar-condicionado."
Gaß afirma que os hospitais precisam encontrar maneiras de resfriar os ambientes sem gastar quantias excessivas.
Já existem muitas dicas de como lidar com o calor, incluindo medidas de proteção de baixo custo, como roupas de trabalho leves, cobertores finos, refeições adaptadas ao calor e a instalação de bebedouros.
Mas, "para realmente proteger um hospital, seus pacientes e sua equipe durante ondas de calor, é necessário investimento", afirma Gaß. A DKG defende a criação de fundo climático no valor de 31 bilhões de euros (R$ 183 bilhões). Parte desse dinheiro deve ser destinada à proteção contra o calor.
Viabilizando o Atendimento Médico
O hospital Charité, em Berlim, realizou uma simulação com o tema "proteção contra o calor em condições extremas" e planos iniciais foram elaborados. A questão central era se o hospital consegue manter o atendimento médico mesmo durante uma onda de calor prolongada.
O cenário hipotético: várias semanas de temperaturas recordes acima de 40 ºC, acompanhadas de noites tropicais sem qualquer sistema de refrigeração.
A maioria das enfermarias da Charité também não possui ar-condicionado. Portanto, o hospital criou um "mapa de calor", dividindo o prédio de acordo com as temperaturas dos ambientes: em áreas de alto risco com aquecimento rápido e refúgios frescos onde funcionários e pacientes poderiam se recuperar temporariamente do calor.
Segundo o Charité, é muito provável que o pronto-socorro fique sobrecarregado durante ondas de calor severas. Além disso, é preciso prever a escassez de pessoal, uma vez que os funcionários podem adoecer ou ter que cuidar de suas famílias caso escolas ou casas de repouso fechem devido ao calor. Ajustes nas escalas de trabalho, terceirização de certas tarefas e adiamento de cirurgias e tratamentos ambulatoriais podem ajudar nessa situação.
A equipe de crise do Charité concluiu que os hospitais precisam estar mais bem preparados para o calor extremo.
Atualmente, os hospitais alemães não conseguem garantir adequadamente o atendimento médico durante uma crise de calor. Para solucionar esse problema, o governo precisa criar a estrutura necessária e promover especificamente a reforma de hospitais para torná-los mais resilientes às mudanças climáticas.
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