Países ensaiam largar petróleo fora da rota oficial das COPs
Encontro na Colômbia testa cooperação internacional para longe dos fósseis. Brasil quer liderar debate, mas plano nacional mantém hidrocarbonetos até 2055.Às margens do mar caribenho, a primeira Conferência sobre a Transição para longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, abriu um espaço mais leve de ação coletiva contra a crise climática.
Livre das amarras de uma negociação diplomática oficial, como as Conferências do Clima da ONU (COP), o encontro foi marcado por posições e falas mais honestas do que aquelas que os países participantes costumam pronunciar nestes encontros internacionais anuais sobre o combate ao aquecimento global.
Liderada por Irene Vélez Torres, ministra de Meio Ambiente do país anfitrião, a reunião encerrada nesta quarta-feira (29/04) mobilizou delegações de 57 países, além de representantes da sociedade civil, pesquisadores, indígenas e comunidades tradicionais.
A indústria do petróleo foi barrada. Na última COP, em Belém, pelo menos 1.600 lobistas foram identificados - número que cresce a cada edição.
"Cada país está contando sua própria história, sua própria experiência", declarou Ana Toni, diretora-executiva da COP30, a jornalistas, mencionando as trocas de informações em salas fechadas sobre temas como transição energética justa e finanças.
Foi no meio da conferência em Belém capitaneada por Toni, em 2025, que a Colômbia anunciou, com apoio da Holanda, que realizaria um encontro alternativo. Àquela altura, as negociações diplomáticas estavam travadas e muitos negociadores vetavam qualquer menção ao fim da era fóssil no documento final.
Consenso para se afastar dos fósseis
Vista como "caótica" por alguns participantes, a conferência experimental chegou ao fim com um consenso: havia uma vontade genuína de tratar diretamente da principal causa das mudanças climáticas.
A queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, é a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa. Por causa deles, a temperatura média global já subiu 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, quando o planeta ainda girava sem as máquinas a vapor.
Esta marca está muito próxima da meta de 1,5°C firmada na COP 21, em Paris, depois de décadas de alertas da ciência. Naquele 2015 histórico, os países participantes, incluindo Estados Unidos e China, concordaram em cortar suas emissões gradualmente. Mas o termômetro não parou de subir desde então.
Depois de Santa Marta
A conferência acabou com data marcada para a segunda edição: Irlanda e Tuvalu serão os anfitriões no ano que vem. O país insular do Pacifico está sumindo com a elevação do nível do mar causado pelas mudanças do clima.
Até lá, os países participantes se comprometeram a seguir a cooperação internacional em busca de estratégias para abandonar o petróleo. Uma das decisões anunciadas foi a criação de um comitê diretor para planejar as discussões, além de um painel científico para ajudar a guiar a transição energética.
A declaração também firmou frentes prioritárias de trabalho, como desenvolver políticas comerciais alinhadas à transição e a reforma do sistema financeiro para apoiar essa transformação - como o fim dos subsídios aos fósseis.
A medida de sucesso dessa conferência, apontam especialistas ouvidos pela DW, será o que vai acontecer quando todos voltarem para casa. É cada nação que deve construir seu próprio "mapa do caminho" - o roteiro nacional de abandono dos derivados de petróleo.
"O único indicador possível, no momento, é o número de países que se comprometerão a elaborar roadmaps nacionais", disse à DW Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
Um caminho longo
França foi o primeiro a anunciar, ainda em Santa Marta, um roteiro nacional para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Por outro lado, na Guiana Francesa, território ultramarino do país europeu, o legislativo tenta mudar regras para permitir a exploração de petróleo em sua costa - seguindo os passos da vizinha Guiana e do Brasil na Margem Equatorial.
O "teatro político", diz Angelo, referindo-se ao caso francês, faz parte do jogo. O que chamou a atenção na reunião colombiana é a sinalização de vários países planejando traçar uma rota gradual de abandono.
No Brasil, a conversa já foi iniciada. Após a COP 30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encomendou um mapa do caminho a ser elaborado por alguns ministérios. Mas a proposta de Plano Nacional de Transição Energética publicada pelo Ministério de Minas e Energia horas antes do fim da conferência na Colômbia decepcionou.
"É um constrangimento para o Brasil, que foi elogiado como o proponente dos mapas do caminho em Santa Marta, que um plano de transição que não faz transição seja apresentado por um ministro de Lula enquanto países tentam fazer um debate sério aqui na Colômbia sobre como sair dos combustíveis fósseis", reagiu Angelo.
Energia nova, choque antigo
Ainda assim, o momento criado na conferência inédita é importante para o Brasil e o resto do mundo, avalia Anna Cárcamo, especialista em políticas climáticas do Greenpeace Brasil.
"Ela traz uma energia nova à discussão que, nas COPs, está congelada desde 2023. Esta conferência é um modelo novo, que está sendo testado, mas sentimos que o processo foi mais participativo", afirma Cárcamo à DW.
Naquele ano, na COP 28 em Dubai, o documento final mencionou, pela primeira vez na história das rodadas da ONU, a transição para longe dos combustíveis fósseis. O texto evitou falar explicitamente sobre "eliminação" de petróleo, gás e carvão, mas estabeleceu como limite o ano de 2050 para zerar as emissões líquidas do setor, o que deve ser feito por meio de uma transição acelerada nesta década, dizia o documento.
Laura Montaño, advogada colombiana e coordenadora regional da Rede de Justiça de Recursos, reconhece o esforço da ministra Torres e do governo de Gustavo Petro de retomar uma discussão séria em paralelo aos ritos diplomáticos oficiais, mas lembra que a anfitriã corre risco grande de mudar de direção com as eleições presidenciais que se aproximam.
"O contexto geopolítico e a guerra no Irã mais uma vez mostram que não podemos mais depender dos combustíveis fósseis. Todos estão sofrendo com a alta dos preços, com inflação - e com a crise climática causada pela queima do petróleo. Vale a pena testar esse modelo alternativo proposto aqui, com os países que estão engajados aqui, e acelerar a transição", avalia Montaño.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.