Novo Atlas Cultural de Soluções Científicas é ferramenta para conectar produção científica e políticas públicas
O Atlas ajudará a tornar visíveis perguntas abertas pela influência cada vez maior da Inteligência Artificial. Especialmente sobre como preservar o ser humano como referência central na pesquisa científica
O Atlas Cultural de Soluções Científicas para o Brasil, iniciativa da Fundação Conrado Wessel, utiliza Inteligência Artificial para conectar a vasta produção científica nacional a problemas práticos do país. Mais que um repositório, a plataforma atua como ferramenta de suporte à formulação de políticas públicas, traduzindo dados complexos em recomendações acionáveis. O projeto busca democratizar o conhecimento técnico com foco no rigor metodológico, governança e transparência das evidências.
O The Conversation Brasil publica regularmente artigos em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, instituição dedicada à valorização da ciência e da cultura brasileiras. A edição atual apresenta o Atlas Cultural de Soluções Científicas para o Brasil, projeto que busca usar Inteligência Artificial para organizar e relacionar a produção científica a questões de interesse público. Neste artigo, Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel, narra como surgiu a iniciativa, conta em que estágio se encontra e de que forma poderá aproximar o conhecimento produzido pela ciência dos desafios enfrentados pelo país.
As guerras contemporâneas, localizadas ou de alcance global, envolvem disputas pelo controle das tecnologias de informação e comunicação e, em sua geração mais recente, da Inteligência Artificial. O comportamento político, as decisões jurídicas e as sanções econômicas são cada vez mais influenciados por essa questão. É justamente aí que reside um dos principais campos de batalha da atualidade. Quem controla a comunicação controla o mundo, e isso não é uma metáfora.
Tanto é assim que, nas relações entre Estados Unidos e China, começa a ser formulado um novo paradigma, definido como "estabilidade estratégica". O conceito substitui, ao menos discursivamente, a lógica da dominação geopolítica pelo reconhecimento mútuo: a admissão de que o outro não pode ser dominado, detém poder equivalente e precisa ser considerado nos acordos futuros. Há, aí, uma mudança importante. A ideia clássica da hegemonia absoluta cede lugar ao reconhecimento de um equilíbrio tenso entre potências. Esse equilíbrio passa, inevitavelmente, pela tecnologia.
Sob essa perspectiva, podem ser vistas as tensões no Estreito de Taiwan, opondo diretamente a China e o governo taiwanês que compra armas dos Estados Unidos. Taiwan ocupa uma posição decisiva na produção mundial de semicondutores, componentes fundamentais para o desenvolvimento da inteligência artificial. Para a China, portanto, a questão não é apenas identitária ou territorial. É estratégica. Quem controla essa infraestrutura controla uma parte importante das condições tecnológicas do futuro.
Cuba entra nesse rol por razões distintas, mas igualmente estruturais. Há, evidentemente, o peso do lobby cubano-americano e o retorno do discurso intervencionista de Washington. Mas o que realmente está em jogo é que Cuba está aparelhada para interceptar comunicações que transitam pelo território norte-americano. Seus parceiros estratégicos equiparam a ilha com essa capacidade. Do ponto de vista do controle da informação, isso é extraordinariamente relevante. A pressão para que Cuba ceda não é apenas política, mas também tecnológica.
Quantidade incalculável de conhecimento
A disputa não se limita ao controle de equipamentos, redes e sistemas de comunicação. Ela alcança a própria produção do conhecimento. O fato concreto é que a quantidade de conhecimento produzida hoje é humanamente inabarcável. Quando acessamos uma biblioteca digital e observamos o acervo disponível, percebemos que não existe condição cognitiva nem temporal de acompanhar essa produção em sua totalidade. Não é falta de inteligência. É uma questão de escala.
A Inteligência Artificial muda essa situação. Ela representa uma mudança de paradigma na ciência no sentido mais preciso do termo, uma alteração na concepção do que significa formular uma teoria, organizar evidências e testar hipóteses. Os grandes bancos de dados que alimentam esses sistemas tornam possível uma forma nova e, em muitos sentidos, mais poderosa de acesso ao conhecimento acumulado.
E se durante muito tempo a computação permaneceu como uma espécie de código esotérico, dominado por especialistas, a inteligência artificial interfere nessa assimetria. Com o aprendizado da linguagem natural pelas máquinas, essa distância diminui e a tecnologia se socializa. Falamos com ela e ela responde na mesma linguagem em que formulamos problemas cotidianos, científicos ou políticos.
Essa aproximação amplia o acesso, mas apresenta novas responsabilidades. Quando a inteligência artificial processa milhões de artigos e organiza recomendações, o sujeito do conhecimento deixa de ser apenas um pesquisador ou uma comunidade científica identificável. Torna-se distribuído entre algoritmos, bancos de dados e escolhas feitas por quem desenvolve os sistemas. A questão não é apenas se a inteligência artificial é um instrumento, mas como esse instrumento molda a mão que o utiliza.
Ferramenta para subsidiar decisões
Foi nesse cenário que teve início o interesse da Fundação Conrado Wessel em desenvolver o Atlas Cultural de Soluções Científicas para o Brasil. A ideia surgiu em 2025, durante um almoço com as fundadoras da Agência Bori. Elas contaram que possuíam um banco de dados com mais de 200 mil artigos científicos.
Fiquei pensando em quem conseguiria acessar efetivamente esse potencial e em como transformar esse repositório em respostas úteis para os problemas reais do Brasil. A pergunta então se impôs: por que não desenvolver um sistema capaz de fazer essa leitura, orientado por questões concretas sobre a realidade social, política e econômica do país?
O Brasil produz ciência de qualidade, mas enfrenta uma dificuldade histórica para fazer com que esse conhecimento oriente políticas públicas. A ciência chega aos decisores de maneira fragmentada, técnica e dispersa. Estes, por sua vez, operam sob tempo curto e com informações incompletas. No meio, consultorias fazem a ponte, com custo elevado e alcance limitado.
O resultado é previsível: decisões ineficientes, baixo uso de evidências e uma assimetria brutal de acesso. O Atlas de Soluções pretende reduzir esse atrito. Mas é importante dizer exatamente o que está sendo feito. Não se trata de biblioteca digital ou de um repositório sofisticado. Estamos construindo uma ferramenta de decisão.
A diferença é fundamental. Um repositório organiza conhecimento. Uma ferramenta de decisão procura responder a uma pergunta prática: diante de um problema específico, o que se deve fazer agora? Isso implica contextualização, priorização e recomendação operacional. Implica, sobretudo, traduzir a evidência em linguagem acionável, sem perder rigor.
Um experimento realizado durante o desenvolvimento do Atlas ajuda a mostrar essa diferença. O professor Carlos Eduardo Cerri relatou que seu grupo na Esalq-USP havia levado seis meses de trabalho intenso para revisar manualmente cerca de 1,6 mil artigos sobre carbono e solo. Decidimos realizar uma revisão semelhante com o Atlas em outro projeto, em colaboração com o professor David Lapola, da Unicamp, coordenador do AmazonFACE.
O Atlas está em desenvolvimento e esse experimento não deve ser entendido como uma validação definitiva de suas respostas. Ele permitiu testar a capacidade do sistema de organizar um grande volume de evidências a partir de uma questão formulada com a participação de um especialista. A confiabilidade do projeto dependerá de avaliação científica contínua.
Logo no início, consultamos o pesquisador sobre o que deveríamos perguntar à máquina. Esse ponto é central. Ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais disponíveis. A diferença do Atlas não está apenas na tecnologia. Está nas perguntas.
A qualidade do sistema depende da qualidade das perguntas, de sua relação com problemas reais e de seu compromisso com as grandes finalidades humanas. É isso que dará ao projeto sua razão de ser.
Governança e transparência
A confiabilidade não é um atributo técnico conquistado de uma vez por todas. É uma prática institucional contínua. Para que uma recomendação do Atlas tenha valor real, ela precisa ser rastreável, baseada em evidências verificáveis, adequada à realidade brasileira e aos seus recortes regionais e sociais.
Também precisa indicar os graus de incerteza, sem apresentar como certo aquilo que é apenas provável, e permitir auditoria por terceiros independentes. Validação científica, mitigação de riscos, governança e transparência não são ornamentos do projeto. São sua espinha dorsal.
O Atlas não promete encontrar a melhor solução. Ele organiza as condições sob as quais uma solução pode ser considerada válida. Suas categorias — problema, intervenção, evidência, contexto e resultado — permitem comparar informações e orientar decisões. Com elas, o conhecimento se torna operável, mas jamais absoluto.
Há, portanto, um risco epistemológico que precisa ser abordado. À medida que gestores públicos, jornalistas e pesquisadores utilizarem o sistema, poderão começar a formular seus próprios problemas na linguagem do Atlas. O que não couber em suas categorias poderá desaparecer do horizonte de atenção. Por isso, o desenho do projeto deverá ser permanentemente autocrítico.
O desafio real é político. Precisamos de sistemas capazes de acompanhar a velocidade do desenvolvimento tecnológico, estabelecer marcos éticos e criar regulações efetivas sem sufocar a produção do conhecimento. A inteligência artificial é simultaneamente uma promessa e um risco. Promessa de ampliar o acesso à ciência; risco de transformar sistemas tecnológicos em autoridades que já não podem ser questionadas.
O que pretendemos com o Atlas é dar um passo adiante na comunicação da ciência: aproximar o conhecimento científico da sociedade, torná-lo navegável, dialogável e útil. Isso exige consciência, rigor e humildade intelectual.
O Atlas não encerra as perguntas abertas pela inteligência artificial. Ao contrário, torna-as visíveis. Quem define as categorias? Quem escolhe as prioridades? Quem responde pelas recomendações? Como preservar o ser humano como referência central?
O alcance do Atlas dependerá da capacidade de submeter suas categorias, recomendações e limites à avaliação científica e ao debate público. Afinal, a inteligência artificial não elimina a responsabilidade humana. Ela torna essa responsabilidade ainda maior.
Carlos Vogt é editor-chefe da Revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel.
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