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Ciência

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Nações em guerra, EUA e Irã compartilham cultivo do pistache

20 set 2026 - 09h31
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Resumo
Apesar da rivalidade geopolítica, EUA e Irã compartilham a mesma linhagem no cultivo de pistache e enfrentam uma grave crise ambiental. O bombeamento excessivo de água subterrânea para irrigação causa a subsidência do solo, fazendo a terra afundar em polos produtores como a Califórnia e Rafsanjan. Enquanto os americanos adotam leis de manejo sustentável e recarga de aquíferos para conter os danos, a inação política, sanções e métodos arcaicos ameaçam extinguir a histórica produção iraniana.

Pistaches vendidos nos EUA têm uma história surpreendente: as árvores da Califórnia vêm do Irã. Agora, ambas as regiões enfrentam a mesma ameaça: as terras agrícolas afundam enquanto a água subterrânea desaparece.Rachaduras largas o suficiente para caber uma mão dentro delas cruzam o pomar de pistaches de Armin, no sudeste do Irã, danificando tubulações de irrigação e engolindo água preciosa, à medida que vai afundando o solo sob seus pés.

"Você olha e a terra abriu a boca, e a água simplesmente escorre para dentro", diz Armin. Ele viu as rachaduras se espalharem rapidamente nos últimos cinco anos e teme que seus filhos não consigam trabalhar na terra, como seu pai e seu avô fizeram antes dele.

Armin, cujo nome verdadeiro a DW optou por não revelar por razões de segurança, vive na região árida de Rafsanjan. Há gerações, os agricultores da região cultivam o pistache, árvore que produz a pequena semente verde consumida em produtos que vão de sorvetes ao popular chocolate de Dubai.

Durante muito tempo, a região respondeu por grande parte da demanda mundial de pistaches, mas uma combinação de seca e extração de água subterrânea para irrigação transformou Rafsanjan em uma das áreas que mais afundam no Irã. Um estudo constatou que partes do solo estão afundando até 37 centímetros por ano. E isso está afetando a produção.

O cenário é semelhante na Califórnia, onde alguns produtores de pistache também veem o solo afundar. A família de Joe Coelho cultiva a planta desde 2000. Embora sua fazenda, em Fresno, não seja diretamente afetada, ele afirma que "os produtores estão muito conscientes do risco".

Algumas áreas próximas enfrentam sérios problemas de abastecimento de água, diz ele, acrescentando que "a subsidência é absolutamente um problema grave em partes do Vale de San Joaquin".

O mesmo pistache e os mesmos problemas

A ligação entre os produtores dos dois países remonta à década de 1960, quando agricultores dos Estados Unidos começaram a desenvolver a indústria do pistache. Eles utilizaram uma variedade iraniana. O pistache que hoje domina a maioria dos pomares da Califórnia chama-se Kerman, em referência à cidade próxima à fazenda de Armin.

Recentemente, a Califórnia ultrapassou o Irã como maior produtora mundial de pistache. A maior parte da produção está concentrada no Vale Central, onde Coelho possui seu pomar. Apesar de ser uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo, há locais em que o solo afunda até 20 centímetros por ano.

Assim como no Irã, o problema é que mais água está sendo retirada dos aquíferos subterrâneos para irrigação do que a quantidade que retorna a eles. "À medida que a confiabilidade das águas superficiais diminuiu, os agricultores passaram a depender mais das águas subterrâneas", disse Coelho à DW, acrescentando que testemunhou mudanças na terra. "Em certas áreas, o solo não possui mais a mesma estrutura nem o mesmo fluxo de água de antigamente."

Os pomares de pistache do Vale Central utilizam cerca de 4% da água destinada às lavouras da região. Em Rafsanjan, mais de nove em cada dez litros de água subterrânea são destinados aos pomares de pistache.

À medida que os níveis de água subterrânea caem devido ao bombeamento excessivo, os espaços dentro dos aquíferos colapsam, e a terra acima começa a afundar em um processo conhecido como subsidência do solo.

"A subsidência no Irã é um desastre provocado pelo homem, não um fenômeno natural como um terremoto", afirma Ali Beitollahi, responsável pelas pesquisas sobre subsidência no Centro de Pesquisa em Estradas, Habitação e Desenvolvimento Urbano do Irã. "Grande parte dos danos não pode ser revertida. Quando um aquífero colapsa, ele jamais será capaz de armazenar tanta água quanto antes."

Agricultores mais velhos de Rafsanjan lembram que encontravam água a apenas 20 metros de profundidade, conta Armin. Hoje, muitos precisam perfurar poços de até 300 metros. Algumas áreas agrícolas próximas de sua propriedade estão mortas ou morrendo, afirma ele, enquanto outros pomares foram abandonados porque os poços secaram.

É mais um golpe para produtores já em dificuldades, que dizem não se beneficiar do aumento de demanda impulsionado por tendências alimentares como o chocolate de Dubai. Segundo eles, as sanções internacionais e a concorrência global tiraram do Irã os mercados que o país possuía quando era o maior produtor mundial de pistache. "Antes, éramos conhecidos pela qualidade", afirma Armin. "Agora somos conhecidos pelo preço baixo."

Duas regiões produtoras, duas respostas diferentes

A principal diferença entre as duas regiões está na forma como respondem à crise.

Na Califórnia, a Lei de Gestão Sustentável das Águas Subterrâneas (SGMA, na sigla em inglês), aprovada em 2014, exige que as agências responsáveis equilibrem a retirada e a recarga de água nos aquíferos até 2040.

Uma das estratégias adotadas é a recarga gerenciada de aquíferos. O método consiste em permitir que a água, em anos chuvosos, volte a abastecer os aquíferos, por exemplo, por meio da inundação controlada de áreas agrícolas, criando reservas para períodos de seca. Coelho, que também é diretor de sustentabilidade da associação American Pistachio Growers, participa de um projeto-piloto desse tipo.

A SGMA trouxe alguns avanços. Segundo o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia, os níveis de água subterrânea aumentaram em quatro de cada dez poços monitorados. Ainda assim, grandes áreas do Vale Central continuam afundando.

Helen Dahlke, professora de Ciências Hidrológicas Integradas da Universidade da Califórnia em Davis, afirma que a recarga dos aquíferos, por si só, dificilmente compensará décadas de exploração excessiva da água subterrânea.

"A agricultura é, de longe, a atividade que mais consome água no Vale Central. Portanto, equilibrar os aquíferos provavelmente exigirá alinhar a demanda hídrica das lavouras com a disponibilidade de água de longo prazo em um clima mais quente e mais variável."

No Irã, a conscientização sobre a gestão das águas subterrâneas e a subsidência cresceu entre cientistas na última década, mas ainda permanece limitada, afirma Ali Beitollahi. Ele participou da elaboração de um projeto de regulamentação sobre subsidência que aguarda aprovação do governo.

Citando o exemplo de Tóquio, onde as taxas de subsidência caíram drasticamente após restrições ao bombeamento de água subterrânea, ele acredita que o problema poderia ser controlado se o Estado agisse rapidamente. No entanto, diante da atual situação política do Irã, uma resposta rápida parece improvável.

Outra medida urgente, segundo ele, é "mudar imediatamente a forma como os agricultores irrigam suas terras e ensiná-los por que isso é importante".

A maioria dos pomares de Rafsanjan ainda utiliza irrigação por inundação, o que faz com que grandes quantidades de água sejam perdidas por evaporação antes de chegarem às raízes das plantas. Armin conta que tenta aprender com os produtores americanos, mas muitos agricultores mais velhos resistem a mudar seus métodos.

O significado de um pistache

Em todo o Vale Central da Califórnia, as pressões provocadas pelo aquecimento do clima, pela seca e pela redução das reservas de água subterrânea são impossíveis de ignorar.

"Vivemos com isso todos os dias", diz Coelho, acrescentando que os produtores de pistache da Califórnia também precisam de melhores políticas para a água, infraestrutura mais eficiente e proteção dos direitos de uso dos recursos hídricos.

"Sustentabilidade financeira, sustentabilidade hídrica e sustentabilidade ambiental estão conectadas", afirmou à DW.

Armin não vê futuro na produção de pistache. Mas, quando olha para um único pistache, ele vê mais do que uma cultura agrícola disputando água ou um produto vendido em uma prateleira do outro lado do mundo. Ele vê a história e o presente de sua família e de sua região. "Esse pistache às vezes vem de uma árvore com cem anos de idade", afirma. "Ele já pagou um casamento, a educação de uma criança, a felicidade de alguém. O dinheiro que ele gera chega e constrói uma vida."

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