Vazamentos de petróleo ameaçam ecossistemas em Ormuz
Ataques a petroleiros em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã causaram grandes vazamentos de óleo no Estreito de Ormuz. Imagens de satélite mostram manchas avançando sobre ecossistemas protegidos em Omã e no Irã, ameaçando corais, manguezais e a fauna local. Além de afetar a pesca e a dessalinização de água na região, a catástrofe tem resposta lenta devido aos riscos militares que impedem o envio de equipes de limpeza, gerando danos ambientais que podem perdurar por décadas.
Imagens de satélite mostram manchas de óleo avançando sobre áreas protegidas no Estreito de Ormuz. Ambientalistas alertam para impactos duradouros sobre manguezais, corais e comunidades costeiras.Uma mancha azul-escura em contraste com o restante do mar, um traço sinuoso de branco-prateado ou um brilho metálico refletido na superfície. Esses são alguns dos sinais que indicam, em imagens de satélite, possíveis vazamentos de petróleo no oceano.
Com base nesses e em outros indícios visuais observados no Estreito de Ormuz, especialistas afirmam que uma crise ambiental está em curso na região, em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã. Navios petroleiros têm sido atingidos por mísseis, incendiados ou afundados.
Um dos casos ocorreu em junho, quando um petroleiro russo que transportava cerca de 800 mil barris de petróleo ficou à deriva próximo à costa de Omã, provocando um grande derramamento.
Especialistas alertam, porém, que outros episódios podem ter passado despercebidos. A manipulação de sinais de GPS na região tem levado embarcações a transmitir posições falsas, dificultando o monitoramento. Nesta semana, o Greenpeace classificou a situação como uma "catástrofe ecológica" e identificou diversas manchas de óleo avançando sobre ecossistemas frágeis e áreas protegidas.
"As pessoas deveriam estar preocupadas", afirmou Nina Noelle, especialista do Greenpeace em resposta a desastres ambientais, à DW. Segundo ela, o conflito tem causado um impacto "muito, muito severo" ao meio ambiente, em uma escala crescente.
Onde o petróleo está se espalhando?
No início da semana, o Greenpeace identificou cinco grandes manchas de petróleo no Estreito de Ormuz, cobrindo uma área visível total de 240 quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de quatro vezes o tamanho da ilha de Manhattan, em Nova York.
Imagens de satélite mais recentes indicam que essas manchas encolheram para aproximadamente 80 quilômetros quadrados, possivelmente em razão das condições meteorológicas que favoreceram sua dispersão.
Isso não significa, no entanto, que os danos ambientais tenham diminuído, ressalta Noelle.
"O petróleo também pode afundar e se acumular nos sedimentos, afetando os ecossistemas por muitos anos", disse.
A localização dos vazamentos preocupa ambientalistas. Uma das manchas foi identificada próxima ao Parque Nacional de Musandam, em Omã, área protegida que abriga recifes de coral, rica vida marinha e importantes locais de reprodução de aves.
Outra foi detectada perto do delta do rio Minab, no Irã, onde há extensas áreas de manguezais e planícies lodosas protegidas. A recuperação desses ecossistemas pode levar décadas.
Um cenário ainda difícil de medir
A extensão real dos derramamentos e a gravidade dos danos ainda são incertas.
"O que divulgamos é uma estimativa conservadora", afirmou Noelle. "A situação pode ser pior. Certamente não é melhor."
O Greenpeace e outras organizações ambientais utilizam imagens produzidas pelos satélites Sentinel-1 e Sentinel-2, integrantes do programa europeu de observação da Terra Copernicus e disponíveis ao público.
Empresas privadas, como a Planet Labs, operam satélites capazes de gerar imagens de resolução mais alta. No entanto, elas restringiram o acesso a parte dos registros durante o conflito para evitar o uso das informações em operações militares.
Também faltam informações produzidas localmente. "Não temos muitos relatos vindos do próprio país, tanto do Irã quanto dos Estados do Golfo", afirmou à DW Wim Zwijnenburg, pesquisador ambiental especializado em fontes abertas da organização holandesa de paz Pax.
Segundo ele, há restrições significativas à divulgação de imagens que mostrem o que está ocorrendo nas áreas costeiras.
Impactos sobre a fauna e a população
O petróleo que se espalha pelas águas do Golfo representa riscos para a biodiversidade e para as populações humanas.
As aves marinhas estão entre as mais vulneráveis. O óleo adere às penas, reduz a impermeabilidade natural e a capacidade de flutuação, dificultando o voo, a busca por alimento e a sobrevivência. Mesmo pequenas quantidades podem afetar ovos, impedindo a eclosão ou provocando deformidades.
"Os manguezais possuem raízes aéreas, e o petróleo as recobre como uma película, dificultando as trocas gasosas", explicou Noelle. "Eles acabam sufocados. Na maioria dos casos, isso leva à morte das árvores."
Também as comunidades costeiras são afetadas. Muitas dependem da pesca para subsistência, e os peixes podem morrer após a exposição ao petróleo. Além disso, os derramamentos ameaçam a qualidade da água utilizada para abastecimento.
Nos países do Golfo, a dessalinização é fundamental para o fornecimento de água potável. O processo responde por cerca de 90% da água consumida no Kuwait, 86% em Omã e 70% na Arábia Saudita.
Limpeza enfrenta obstáculos
"É pouco provável que a situação seja resolvida rapidamente por causa da guerra", disse Zwijnenburg. "Conflitos tornam muito difícil responder com rapidez a emergências desse tipo. Há restrições ligadas à movimentação militar e à presença de minas, o que dificulta o envio de embarcações e o início das operações de contenção."
Organizações ambientais apontam que o aumento dos vazamentos associados ao conflito reforça a necessidade de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.
"A forma mais sustentável de prevenir danos de longo prazo seria reduzir e, em última instância, eliminar nossa dependência de petróleo e gás", afirmou Noelle. "Enquanto os sistemas de energia e as rotas de transporte continuarem centrados nos combustíveis fósseis, esses riscos ambientais permanecerão."
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