Futuro do meio ambiente e do clima no planeta depende das eleições no Brasil
A disputa presidencial brasileira entre Lula e Flávio Bolsonaro é vista como crucial para o clima global e a conservação da Amazônia. Enquanto Lula reduziu a destruição da floresta com maior fiscalização, embora enfrente críticas por apoiar a exploração de petróleo, Flávio gera temores de retrocesso ambiental por defender a flexibilização de regras fundiárias. O resultado eleitoral definirá o papel do país contra o aquecimento global, mesmo diante do ceticismo de parte dos eleitores.
Com a Amazônia e seu papel como reguladora do clima sob ameaça, estão em jogo a proteção ambiental, a luta contra o desmatamento e a ação climática mundial.Poucas eleições são tão importante para o meio ambiente quanto a disputa presidencial no Brasil. A deste ano, em particular, está sendo acompanhada muito além das fronteiras do país.
Por abrigar a maior parte da Floresta Amazônica, um importante sumidouro de carbono em escala global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.
Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter aparecido 2% à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.
"Será uma espécie de retorno dos Bolsonaros, portanto, com um Bolsonaro ainda mais radical", afirma Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras. "Sem querer soar alarmista, diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia."
Uma das defesas mais poderosas da natureza
A Floresta Amazônica armazena grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Com isso, ela ajuda a regular o clima da Terra.
Ao longo de décadas, a floresta tropical atuou como uma das defesas mais poderosas da natureza contra as mudanças climáticas. O bioma, no entanto, também tem sofrido com o desmatamento em larga escala.
Durante a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as ações de fiscalização, reduzidas. Com isso, o desmatamento da floresta tropical atingiu taxas sem precedentes.
"A pauta ambiental foi negligenciada, e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral - e, especificamente, sobre o desmatamento - foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank sediado em Berlim.
Durante os quatro anos de governo Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da Amazônia tenham sido destruídos- uma área maior do que a da Dinamarca. A floresta, por sua vez, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que, atualmente, partes do bioma emitem mais carbono do que absorvem.
Lula assumiu o governo com uma mensagem de proteção à Amazônia. Ele prometeu o fim do desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão responsável pela fiscalização ambiental. Sob sua gestão, odesmatamento caiu significativamente, com a previsão de que, em 2026, atinja o menor patamar em uma década. Isso representa uma queda total de 41% em comparação ao período de Jair Bolsonaro na Presidência.
Meio ambiente versus economia
Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro no que diz respeito à proteção florestal. Como senador, ele apresentou em 2019 um projeto de lei que poderia ter impactos severos para a Amazônia. Atualmente, proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.
"O sinal vindo presidente poderá ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora vai ser mais difícil desmatar'", afirma à DW Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, sediado em Londres.
"No momento em que se reduz a capacidade de fiscalização, o desmatamento aumenta", alerta ela.
Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029 - um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo vê essa promessa com ceticismo. "Ele acabará com o desmatamento ilegal não fazendo cumprir a lei, mas tornando-o legal", diz.
De modo geral, especialistas em meio ambiente temem que o candidato do PL possa desmantelar muitas das proteções ambientais que foram fortalecidas sob o atual governo.
"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecerem uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita retratam as mudanças climáticas como um problema inventado [...] argumentando que a regulação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.
Em uma entrevista divulgada pela mídia em agosto, Flávio disse considerar que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que estejam ligados exclusivamente à influência humana.
Não há história de sucesso climático garantida
Uma vitória de Bolsonaro provavelmente faria com que o Brasil se afastasse de sua posição como líder na agenda climática — posição consolodada no ano passado, quando o país sediou a Conferência do Clima da ONU (COP30) em Belém.
Contudo, especialistas ressaltam que uma vitória de Lula, por si só, não representaria uma história de sucesso climático. Embora a atual gestão tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.
Angelo afirma que a decisão de permitir a perfuração exploratória, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" ao mandato de Lula, mas acrescentou que o histórico geral do presidente em relação ao clima tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo - exceto por todos os outros", diz.
O atual presidente enfrentará Flávio no segundo turno em 25 de outubro. Embora especialistas afirmem que o resultado pode determinar o destino da Amazônia e dos esforços mais amplos para conter o aquecimento global, para muitos brasileiros a questão climática não é prioridade.
"No fim das contas, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, ao saneamento e à saúde", afirma Yang. Ela aponta que a construção de uma estrada através da Amazônia para viabilizar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como algo desejável pelos eleitores.
"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram; mas porque eles estão preocupados com a própria sobrevivência."
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