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Ciência

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Aquecimento do Mar Adriático e sobrepesca ameaçam sardinhas

15 out 2026 - 12h47
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Resumo
A sobrepesca e o aquecimento recorde do Mar Adriático reduziram o tamanho e a quantidade de sardinhas, ameaçando a centenária indústria de conservas da costa da Croácia. Historicamente vital para o emprego feminino e para a economia local, o setor já enfrentava um forte declínio devido à especulação imobiliária e ao avanço do turismo predatório. Agora, a crise ecológica põe em risco as últimas fábricas do país e acentua a dependência econômica de um turismo sazonal e instável.

Quantidade e tamanho dos peixes diminuiu, acendendo o alerta em uma das indústrias mais antigas da costa da Croácia."As sardinhas do mar Adriático estão encolhendo." Foi assim que um portal de notícias da região croata da Ístria, a maior península do Adriático, noticiou, no início do ano, uma constatação preocupante: pesquisadores concluíram que o tamanho médio das sardinhas diminuiu até quatro centímetros nas últimas duas décadas.

Pescadores selecionam sardinhas recém-capturadas no porto de Rijeka, na Croácia
Pescadores selecionam sardinhas recém-capturadas no porto de Rijeka, na Croácia
Foto: DW / Deutsche Welle

A notícia causou inquietação. Afinal, as sardinhas são peixes muito apreciados pelos moradores do litoral e consumidores de regiões distantes. Em várias localidades, há festivais que celebram a sardinha. A ironia é que o problema tem causa humana: segundo os pesquisadores, a sobrepesca e as mudanças climáticas explicam o encolhimento dos peixes.

Após um verão marcado por calor recorde, durante o qual a temperatura da superfície do Mar Adriático chegou a 30°C, o futuro da sardinha na região tornou-se ainda mais incerto. Com isso, cresce a preocupação com a sobrevivência da indústria local de conservas de pescado, uma das mais antigas atividades industriais da costa croata.

Para muitos, a perda não seria só econômica, mas também simbólica. Representaria mais um setor desaparecendo da Croácia. Desde os anos 1990, as regiões costeiras do Adriático já enfrentaram intenso processo de desindustrialização, que deixou frustração em muitas comunidades.

Mar Adriático aquece acima da média

O fim de mais esse capítulo da história econômica da região parece cada vez mais plausível. O Mar Adriático, uma espécie de "beco sem saída" marítimo, está aquecendo mais rapidamente que outras áreas do Mediterrâneo.

Um instituto de pesquisa croata constatou que, na última década, as águas profundas do mar se aqueceram quatro vezes mais do que ao longo de todo o século anterior. As consequências para os ecossistemas são muitas. Para o peixe sardinha, que depende de determinadas temperaturas para se reproduzir, as condições vêm se tornando cada vez menos favoráveis.

E sem sardinhas, não há conservas de sardinha em óleo.

A empresa Mirna, sediada na cidade de Rovinj, ainda promove seus produtos como um "superalimento do Adriático". A companhia destaca o uso de sardinhas pescadas na própria região e afirma que o chamado "pequeno peixe azul", como a espécie é conhecida na Croácia, tem sabor especialmente delicado. Pelo menos, é o que diz a publicidade.

Um passado de orgulho

O orgulho também está ligado à longa trajetória dessa atividade. A produção de conservas de peixe foi uma das primeiras indústrias a oferecer trabalho assalariado nas, então, áreas costeiras pobres da Ístria e da Dalmácia.

Mais especificamente, o negócio abriu oportunidades para as mulheres. A grande maioria dos trabalhadores das fábricas era, e continua sendo, feminina. Nas linhas de produção, quase não havia homens. Já nos cargos de liderança, a situação era bem diferente.

As origens desse setor remontam ao final do século 19, quando empresas francesas e do Império Austro-Húngaro passaram a explorar a abundância de sardinhas do Adriático para o processamento industrial. A primeira fábrica de conservas de peixe no território da atual Croácia foi inaugurada em Rovinj, em 1882.

Um dos principais empresários do setor foi Carl Warhanek, empreendedor originário da Boêmia e fornecedor da corte austro-húngara. Ele chegou a operar 12 fábricas de conservas, espalhadas entre a região de Trieste, no norte, e as ilhas do sul da Dalmácia.

Em muitas dessas localidades, as fábricas de conservas eram o único sinal da revolução industrial, que em grande medida passou ao largo da, então, Dalmácia austro-húngara. Nas décadas seguintes, dezenas de unidades foram inauguradas. Com o passar do tempo, havia cerca de 35 fábricas operando na Ístria, na Dalmácia e nas ilhas croatas.

Além de salários, as firmas ofereciam estabilidade e pertencimento. Ex-funcionárias lembram com orgulho do trabalho, ainda que, frequentemente, as condições fossem difíceis. Durante o período do socialismo iugoslavo, as fábricas representaram uma rara oportunidade para mulheres de regiões periféricas conquistarem renda própria e acesso a benefícios sociais. Também desempenharam papel importante na construção da vida comunitária.

Turismo x indústria pesqueira

Hoje, restam apenas quatro fábricas de conservas de peixe na Croácia.

O declínio do setor reflete outro desafio que ajuda a explicar a transformação econômica do país. Na costa adriática, sobra pouco espaço para a atividade industrial ao lado do turismo. Em muitos casos, as fábricas ocupam terrenos cobiçados por investidores do setor hoteleiro. Além disso, os turistas nem sempre apreciam os odores característicos do processamento industrial de pescado.

Na localidade de Banjole, perto de Pula, o maior centro urbano da Ístria, um grande hotel ocupa atualmente o espaço onde antes funcionava uma fábrica de preparo de sardinhas. Hoje, apenas um monumento recorda a antiga atividade.

Os salários pagos pelo setor também são baixos. Isso dificulta a contratação de trabalhadores locais, especialmente porque o aluguel de imóveis para turistas costuma render mais dinheiro aos moradores da costa.

Quando a Mirna modernizou a produção e introduziu um segundo turno de trabalho, alguns anos atrás, a empresa precisou recrutar funcionários vindos de regiões empobrecidas do interior da Croácia e da Bósnia-Herzegovina.

Em alguns casos, a indústria já se afastou do próprio litoral para buscar mão de obra mais barata. As máquinas de uma fábrica de conservas da ilha de Vis, por exemplo, foram transferidas, há cerca de 20 anos, para a cidade de Nis, no sul da Sérvia.

Dependência crescente do turismo

A transferência de atividades industriais faz parte das transformações econômicas. Para as comunidades locais, porém, isso significa mais do que o desaparecimento de uma tradição produtiva centenária. Para elas, representa um novo passo em direção à dependência quase total do turismo, um setor que gera empregos principalmente de forma sazonal, pressiona a infraestrutura durante o verão, impulsiona a especulação imobiliária e transforma centros históricos em grandes vitrines de souvenires.

Além disso, o fluxo de turistas é tão imprevisível quanto os estoques de sardinhas. A pandemia de covid-19 deixou isso bem claro, quando os visitantes simplesmente sumiram.

No fim das contas, as mudanças climáticas ameaçam não apenas o chamado "pequeno peixe azul", mas também o próprio turismo. Com o aumento das temperaturas, o calor pode se tornar excessivo até para quem busca o litoral como destino de férias.

Assim, tanto para as sardinhas do Mar Adriático quanto para as pessoas que vivem às suas margens, o futuro torna-se cada vez mais incerto.

Ulf Brunnbauer é historiador especializado no sudeste europeu, professor universitário e diretor científico do Instituto Leibniz de Estudos da Europa Oriental e Sudeste Europeu, em Regensburg, na Alemanha. Sua pesquisa inclui temas como indústrias marítimas e movimentos migratórios.

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