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A vila alemã imune aos choques globais dos preços de energia

19 mar 2026 - 17h31
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Autossuficiente e independente em energia, pequena cidade alemã passou 30 anos imune aos choques globais de preços. Parcerias com a comunidade explicam sucesso da operação, que reduziu impactos de usinas eólicas.Para muitas pessoas, a chegada da conta de luz costuma vir acompanhada de um certo temor. Mas, na pequena vila alemã de Feldheim, os moradores mal dão atenção a isso.

Os moradores de Feldheim têm acesso a energia a preços acessíveis e estão, em grande parte, protegidos contra os choques nos preços globais do petróleo e do gás
Os moradores de Feldheim têm acesso a energia a preços acessíveis e estão, em grande parte, protegidos contra os choques nos preços globais do petróleo e do gás
Foto: DW / Deutsche Welle

"No meu antigo apartamento, eu usava cerca de 2.400 quilowatts-hora por ano. Toda essa tecnologia precisa de muita eletricidade", disse Jens Neumann, apontando para seu setup gamer com quatro telas e um console.

Em sua antiga casa, os custos estavam disparando. Mas desde que Neumann se mudou para a vila em 2024 - um dos muitos novos moradores atraídos pela promessa de eletricidade mais barata - ele diz que seus gastos foram reduzidos em mais da metade.

Mesmo quando a guerra da Rússia contra a Ucrânia mergulhou a Europa em uma crise energética e fez os preços de aquecimento e eletricidade dispararem, Feldheim permaneceu isolada do choque. No auge da crise, o preço médio da eletricidade na Alemanha chegou a cerca de 0,45 euro (R$ 2,72) por quilowatt-hora - mais do que o dobro do que a tarifa base (sem acréscimos) mais cara praticada no Brasil.

Já em Feldheim, uma vila de 135 habitantes a cerca de 80 quilômetros de Berlim, os custos permaneceram relativamente estáveis, a menos da metade deste valor. As contas baixas são atribuídas às turbinas eólicas que povoam a paisagem do local. Em outras áreas da Alemanha rural, porém, tais projetos não são sempre bem vistos. O chanceler federal alemão Friedrich Merz já afirmou que turbinas eólicas são manchas feias na paisagem.

Mas, enquanto a crise energética mais recente faz os custos dispararem e a expansão das renováveis na Alemanha desacelera, a transição verde de Feldheim pode trazer lições importantes.

Como Feldheim conseguiu energia barata?

No início dos anos 1990, o estudante de engenharia Michael Raschemann viu potencial em Feldheim. A vila fica em um terreno levemente elevado para os padrões planos da região, o que garante condições ideais de vento, e tem uma linha de transmissão próxima. A área rural fazia parte da antiga Alemanha Oriental e tentava encontrar eu lugar em um país recém-reunificado.

"Tudo tinha sido desmontado, empregos desapareceram, as pessoas precisavam viajar cada vez mais longe, e nada acontecia", lembrou Raschemann, acrescentando que, quando apareceu propondo quatro turbinas eólicas, aquilo ao menos representava algo novo para a vila.

As turbinas eram novidade para a época. O que se seguiu foi um processo lento e deliberado de engajamento comunitário que Raschemann e sua esposa, que juntos fundaram a empresa de energia Energiequelle, mantiveram durante toda a expansão do projeto.

Em parceria com o governo local, os moradores e a cooperativa agrícola, que administra grande parte das terras de Feldheim, tomaram decisões sobre onde as turbinas poderiam ser instaladas sem projetar sombra sobre as casas.

Esse diálogo contínuo foi um dos motivos pelos quais os moradores aderiram ao projeto, diz Sebastian Herbst, chefe da cooperativa agrícola local e morador de Feldheim.

"Essa foi uma estrutura que cresceu lentamente ao longo do tempo. Mais turbinas foram sendo adicionadas, mas os moradores sempre eram informados e envolvidos", disse Herbst à DW.

A expansão das energias renováveis em Feldheim

A infraestrutura energética de Feldheim cresceu muito além do parque eólico. A cooperativa agrícola de Herbst se uniu à Energiequelle em 2008 para abrir uma usina de biogás. Na época, agricultores europeus enfrentavam preços baixos de produtos, e essa era uma forma de diversificar a renda.

"Isso nos permitiu garantir nossa força de trabalho e oferecer perspectivas, novos empregos", disse Herbst.

A usina agora converte esterco, milho e grãos triturados em eletricidade e calor, capturando o metano, um gás de efeito estufa, que de outra forma escaparia para a atmosfera, transformando-o em um combustível mais amigável ao clima para aquecimento.

Um sistema de aquecimento a lenha existe como plano B, e se une a uma instalação solar e uma grande unidade de armazenamento por bateria, que completam o conjunto energético de Feldheim.

A vila agora produz centenas de milhões de quilowatts-hora por ano, muito mais do que sua pequena população precisa. Menos de 1% da energia produzida ali é consumida localmente. O restante vai para a rede nacional.

Essa pequena parcela local acabou sendo a chave da transição energética de Feldheim.

Contas mais baratas reforçaram aceitação local

Frustrada com um sistema que obrigava os moradores a recomprar a própria eletricidade gerada localmente, pagando tarifas e sobretaxas, a Energiequelle tentou comprar o trecho da rede elétrica da vila.

Quando isso falhou, a empresa se uniu ao governo local para construir uma rede totalmente nova, em 2010.

Mas os moradores foram além. Cada família investiu 3 mil euros, junto com recursos estaduais e da União Europeia, para criar sua própria rede de aquecimento. Entre as 180 "vilas de bioenergia" da Alemanha, Feldheim é a única com um sistema totalmente independente de eletricidade e aquecimento renováveis.

Essa independência é o motivo pelo qual a energia é tão barata na vila. Enquanto os alemães pagam cerca de 0,35 euro (R$ 2,11) por quilowatt-hora, os moradores de Feldheim pagam apenas 0,12 (R$ 0.72).

O que Feldheim pode ensinar ao resto do mundo?

Existem circunstâncias específicas que ajudaram esse modelo a prosperar em Feldheim. A vila é pequena e muito unida. Organizar os moradores é fácil, e as linhas que conectam as turbinas às casas são curtas. A cooperativa agrícola tem grande confiança da comunidade e foi uma parceira disposta desde o início.

Micro-redes renováveis semelhantes existem na Ilha de Eigg, na Escócia, e na Ilha Kodiak, no Alasca. Mas ampliar o conceito para cidades maiores, ou comunidades sem a geografia e a coesão social de Feldheim, seria muito mais difícil.

Ainda assim, Feldheim oferece lições. Estudos mostram que comunicar de forma eficaz, desde o começo, faz enorme diferença. E que os moradores precisam ver que isso lhes rende algum dinheiro, ou pelo menos ajuda a economizar.

"É extremamente importante usar essa pequena fração de energia - cerca de um milhão de quilowatts-hora - localmente, para conquistar aceitação e poder injetar os outros 99,5% na rede", disse Raschemann.

Mas nem mesmo Feldheim está imune às pressões políticas mais amplas.

Os subsídios da usina de biogás estão expirando. E embora exista um novo programa disponível, Herbst diz que ele não oferece financiamento suficiente. Ou seja, a usina precisa continuar sendo lucrativa. Além disso, em breve será necessário instalar uma nova geração de turbinas eólicas mais potentes. Aqui também, Raschemann diz que o envolvimento da comunidade será essencial.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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