Celular ajuda a lembrar mas pode "viciar" cognição, dizem cientistas
Estudo da Universidade College London sobre efeitos do celular na memória é questionado por especialistas brasileiros ouvidos por Byte
Um estudo britânico da Universidade College London, publicado na revista da Associação Americana de Psicologia, em agosto, concluiu que o uso de aparelhos para armazenar informações, como smartphones, aumentaria nossas habilidades de memória para lembrar de tarefas diversas. Entretanto, especialistas brasileiros ouvidos por Byte trataram a descoberta com ceticismo.
A lógica é que ao transferir o lembrete para um objeto externo, a nossa memória interna continua a ser usada, mas para outras informações. É o que os cientistas chamam de “transbordamento cognitivo”: quando o conteúdo de alto valor é armazenado, a memória interna é realocada para o de baixo valor.
O estudo contou com 158 voluntários de idades entre 18 e 71 anos, que teriam que fazer um jogo da memória em um computador de tela sensível ao toque. Os participantes viam até 12 círculos na tela e tinham de se lembrar de arrastar alguns para a esquerda e outros para a direita – um dos lados era “alto valor” e outro era “baixo valor”.
A primeira constatação foi de que as pessoas usam os smartphones para anotar informações de alto valor associado. Os lembretes ajudaram as pessoas a lembrarem das tarefas principais em 18%. Já a memória para as tarefas consideradas de baixo valor foi ainda maior: 27%.
Os estudiosos ouvidos pela reportagem acham o estudo válido, mas também veem alguma confusão entre os diferentes tipos de memória e a forma como nós as processamos. Além disso, também faltou abordar os efeitos negativos do excesso de uso dos celulares na nossa cognição, que pode ficar "mal acostumada" a depender dos aparelhos.
Ganhos de um lado, perdas em outro
De acordo com Álvaro Machado Dias, neurocientista professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), nosso cérebro possui uma capacidade limitada de armazenamento de informações. Nesse sentido, existe um efeito positivo dos celulares ou quaisquer aparelhos ao amplificarem a nossa capacidade cognitiva.
Mas ele lembra: “O paper [artigo] não menciona nada sobre demência cognitiva. A ideia é que a gente está usando cada vez mais gadgets, não importa quais sejam, e quanto mais a gente os utiliza, de fato, no momento da ação, a gente está desempenhando as nossas atividades cognitivas de maneira esquecida”.
Como exemplo, Dias fala sobre o GPS. Em vez de decorarmos as coordenadas para alcançar um caminho, temos um aparelho que nos diz, de imediato, o que devemos fazer. E isso nos exige pouco esforço cognitivo.
“A mensagem principal que fica é que, como os dados mais importantes já estão armazenados, a gente despende do nosso tempo pensando em atividades menos importantes. Vai no sentido contrário desse otimismo todo: é a de que se você anota tudo no caderninho ou no smartphone, vai lembrar das coisas secundárias, e aí a sua vida cognitiva pode ficar marcada por essas coisas”, afirma o pesquisador.
Para a psicóloga e pesquisadora de neurociência da Universidade Mackenzie Leticia Yumi Morello, o artigo aborda especificamente a memória prospectiva, que é a habilidade de lembrar das coisas que ainda vão acontecer (comprar frios, receber visitas, pagar contas); e não há indício de que ela seja melhorada com o uso de smartphones ou blocos de notas.
"O que melhora é o nosso desempenho! Pois anotando coisas mais importantes, diminuímos a chance de falhar nas coisas menos importantes em decorrência da limitação da nossa memória”, defende Morello.
Ou seja: não é que a nossa memória é melhorada com esses eletrônicos. Na verdade, eles liberam um "espaço" para lembrar de outras coisas, como se o nosso cérebro fosse uma espécie de cartão de memória ou pen drive.
A ideia da demência cognitiva ou amnésia digital não é algo que o estudo rebate, segundo Morello. “Essa teoria propõe que, justamente por anotarmos coisas em dispositivos e acreditar que eles vão nos notificar a respeito delas, não nos preocupamos em guardá-las em nossa memória e, assim, não a ‘exercitamos’”, comenta.
No próprio experimento 3 do estudo, os autores dizem que, uma vez que as pessoas perdem o acesso aos aparelhos de memória externa, elas não se lembram mais das coisas que haviam anotado, e se lembram daquelas que se esforçaram para guardar “de cabeça”.
O que de fato, então, melhora a memória?
Segundo o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Israelita Albert Einstein, estudos recentes têm mostrado que os pilares para uma boa memória são atividade física, atividade intelectual, alimentação, controle de diabetes e colesterol e relacionamento social.
Dentro disso ainda há especificidades: “A melhor dieta é a do mediterrâneo, atividade física aeróbica é melhor que a anaeróbica, fatores relacionados ao nível de colesterol e diabetes também estão associados, pressão arterial, entre outros fatores”, comenta Okamoto.
Em relação ao tipo de atividade intelectual praticada, ele diz que a melhor que você pode fazer é a que você gosta. Pode ser palavras-cruzadas, sudoku, bingo ou qualquer outra, desde que exercite as capacidades intelectuais.