Atualizado às 03h48
O governador Itamar Franco roubou a cena do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Foi esta a avaliação predominante no Palácio do Planalto hoje. Ministros e assessores mais próximos do presidente revelaram-se mais preocupados com o "radicalismo" do governador mineiro do que com as invasões do MST.Diante da notícia de que Itamar estava movimentando tropas estaduais e não admitia a "invasão" do Exército para proteger a fazenda de familiares do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG), o Planalto chegou a temer um incidente. "Um confronto entre o chefe do Exército e o chefe da Polícia Militar é de dar calafrio em qualquer democrata", disse um interlocutor do presidente.
Perigoso
Ministros e aliados do governo no Congresso avaliam que Itamar Franco é o adversário mais perigoso do Planalto, porque não tem um projeto político definido e, em razão disso, não tem limites. "O Itamar lembra um carro sem freio, que não tem controle de velocidade", comentava hoje o primeiro vice-presidente do Senado, Geraldo Melo (PSDB-RN). O adjetivo mais ouvido em corredores e gabinetes do Planalto e do Congresso para definir o governador foi "desequilibrado".
Manifesto
Mas Itamar Franco não ficou sem defesa no Congresso. "Este episódio não representa risco algum à democracia e, se o Planalto julga o governador louco ou desequilibrado, é uma irresponsabilidade provocá-lo", disse o líder informal da bancada de Itamar na Câmara, deputado Hélio Costa (PMDB-MG). A seu ver, o povo mineiro tem o sentimento de que há uma má vontade do governo federal para com a administração estadual. "Prova disso é que Minas ficou fora do Plano de Combate à Pobreza", argumentou.
Mais do que protestar, Costa subiu à tribuna para ler uma moção de solidariedade ao governador. O documento de três parágrafos considera o envio de tropas do Exército a Buritis "uma agressão desnecessária" e defende a tese de que cabe à PM mineira, por determinação do governador, "proteger propriedades particulares, quaisquer que sejam os seus titulares".
O manifesto teve a assinatura de 11 dos 23 deputados mineiros que compõem a bancada de Itamar e estavam em Brasília hoje. "Teremos uma reunião com o governador nesta quinta-feira e, até a hora do encontro, todos já terão assinado", previu Hélio Costa.
Língua afiada - Itamar aproveitou a repercussão criada no caso para soltar frases contra os governistas:
"Se acontecer alguma morte, será responsabilidade do presidente.”
“Acreditei na sinceridade deste homem e essa é uma penitência que me faço todas as noites, pedindo perdão a Deus por tê-lo escolhido.”
“Foi declarado textualmente que aquele imóvel, pasmem, é um símbolo nacional.”
“O ordenamento jurídico nacional prevê a desapropriação de bens privados sempre que houver interesses de utilidade pública.”
“Pimenta da Veiga não tem caráter.”
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