Depois de ter passado mais de 24 horas atuando como mediador na crise entre o governo federal e o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Carlos Velloso, afastou-se hoje das negociações, destinadas a solucionar o impasse provocado pelo envio de tropas federais ao município mineiro de Buritis para evitar a invasão da Fazenda Córrego da Ponte, de propriedade da família do presidente Fernando Henrique Cardoso. Velloso, que desde a noite de segunda-feira vinha tentando evitar um confronto direto entre um amigo (Itamar), governador de seu Estado natal, e o governo federal, passou o dia hoje aguardando a solução da crise. “Estou esperando que haja um entendimento”, disse, ao ser indagado sobre se o seu afastamento da negociação caracterizaria desistência. Ontem, o presidente do STF não poupou esforços para acalmar Itamar Franco, que passou o dia ameaçando autorizar um confronto direto entre a Polícia Militar de Minas e os homens da guarda presidencial encarregados da segurança da fazenda, e para tranqüilizar o próprio Fernando Henrique, indignado com a atitude do governador.
Velloso intermediou uma proposta para que as tropas federais fossem retiradas da propriedade com o compromisso do governador de garantir que a segurança seria feita por um batalhão da PM mineira.
A intermediação de Velloso começou por volta das 23 horas de segunda-feira, quando recebeu um telefonema de Itamar. O governador disse ao ministro Velloso que tinha notícia de uma ameaça de invasão da fazenda da família do presidente da República por parte de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Segundo Velloso, Itamar queria saber da possibilidade de ingressar no STF com uma medida jurídica contra a determinação do Palácio do Planalto, de enviar homens da guarda presidencial para evitar a invasão.
Pouco depois da meia-noite de segunda-feira, o ministro telefonou ao presidente Fernando Henrique. “O presidente se mostrou disposto ao acordo", relatou Velloso, acrescentando que em seguida comunicou isso ao governador e ficou aguardando as negociações que deveriam se desenrolar no dia seguinte. Velloso e Itamar voltaram a se falar ontem, no final da tarde. Irritado com o acampamento das forças federais nas terras da família do presidente, o governador comunicou o presidente do STF de sua intenção de fixar um prazo para a retirada dessas tropas. Mais uma vez, o ministro procurou acalmar o governador, pedindo ponderação. Velloso contou que, durante aproximadamente seis horas, ligou seguidas vezes para o Palácio do Planalto e para a sede do governo de Minas, tentando intermediar uma negociação.
Carlos Velloso contou também que, depois de conseguir que Itamar desistisse da idéia de ordenar um confronto entre a PM mineira e as tropas, deu por encerrada sua tarefa de mediador, por volta de 01h00 da manhã de hoje. “O governador me garantiu que a PM mineira tem todas as condições de assegurar o direito de propriedade de quem quer que seja”, relatou o presidente do STF.
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