O governador de Minas, Itamar Franco (sem partido), determinou hoje à Procuradoria Geral do Estado que inicie estudos para a desapropriação da fazenda Córrego da Ponte, em Buritis, Noroeste de Minas, pertencente a familiares do presidente Fernando Henrique Cardoso. A medida seria apenas uma das respostas do governador ao envio de tropas federais para a fazenda, determinado na segunda-feira pelo Palácio do Planalto, que temia a invasão da propriedade por integrantes do MST.Itamar, que ontem havia dado um "ultimato" ao presidente, exigindo a retirada das tropas de território mineiro , considerou a movimentação do Exército como "mais uma provocação" do presidente. O governador concedeu coletiva à tarde no Palácio da Liberdade, protegido por um aparato formado por cerca de 100 policiais militares, entre eles atiradores de elite, viaturas, carro blindado e até um helicóptero. Ele não descartou a possibilidade de utilização da PM em uma ação armada da PM mineira contra as tropas federais. "O prazo que eu dei ao senhor presidente terminou às 6h e ele (presidente) não retirou as forças federais", disse.
"Cabe a mim um lance; posso ter seis, oito, 24 horas para tomar as providencias que estou tomando, algumas delas de caráter de sigilo, atinente à PM, e outras tomadas na busca da Constituição Federal do Estado de Direito", acrescentou. Itamar, que não poupou ataques ao que chamou de "certos setores da imprensa" por o classificarem de "um louco varrido, uma pessoa que deveria estar em uma camisa de força", justificou a presença de policiais no Palácio da Liberdade.
"Informações sigilosas que eu tenho me obrigaram a pedir um policiamento mais reforçado", disse, comparando-se, em determinado momento, ao presidente chileno Salvador Allende, morto durante um golpe militar no próprio Palácio, no início da década de 70. Itamar confirmou o envio de um contingente de policiais militares, do Batalhão de Missões Especiais da corporação, para a região de Buritis. Disse também que outro efetivo deveria partir para o local, durante a madrugada de hoje.
Em seguida, o governador anunciou a decisão de solicitar judicialmente a desapropriação da fazenda de Burutis. Segundo o governador, "o ordenamento jurídico nacional prevê a desapropriação de bens privados sempre que houver interesses de utilidade pública." Paralelamente a isso, ainda existiria uma "demanda de implantação pelo Estado, na região, de projetos de elevado interesse público." Antes de fazer estas considerações, o governador leu para os jornalistas a carta recebida ainda de madrugada do presidente Fernando Henrique.
Nela, o presidente dizia que a PM de Minas não atendeu a solicitações do Palácio do Planalto para que cumprisse seu dever constitucional de proteger a propriedade. Também classificou como "bazófias" as ameaças do governador, feitas horas antes também por meio de carta. Ao comentar o documento, Itamar classificou as informações com adjetivos com "mentira deslavada", "burrice" e "petulância". Voltou a insistir que a fazenda não é do presidente da República e, portanto, não mereceria empenho de tropas federais para guardá-la. Mesmo que fosse do presidente, afirmou Itamar, a ação ordenada em Brasília não se justificaria.
"Foi declarado textualmente que aquele imóvel, pasmem, é um símbolo nacional", disse. "Nem na época do governo militar, que não os poupava de arbitrariedades, nenhum presidente ousou rotular sua casa ou qualquer outro bem como símbolo nacional."
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