Mesmo com o recuo do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que desocupou hoje prédios do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 14 Estados, o governo não reabrirá negociações. O governo quer a liberação de todos os prédios públicos invadidos e o encerramento das vigílias, entre elas a feita na frente da fazenda da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG). A decisão foi anunciada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann.O coordenador do MST, Gilberto Portes, informou sobre as desocupações pela manha, mas as vigílias em frente aos prédios foram mantidas. A medida, segundo Portes, foi "uma demonstração de que o MST quer negociar". Mesmo assim, o governo decidiu não abrir o diálogo. O ministro Jungmann negou qualquer contato do governo com os sem-terra para a retomada das negociações, ao contrário do que informava documento divulgado pelo MST.
"Fui surpreendido por essa nota. Não aconteceu nada, nem vai acontecer", disse Jungmann, após reunir-se no Palácio do Planalto com os ministros do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, e da Secretaria-Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, para fazer uma avaliação das invasões dos sem-terra.
Reuniões
Pela manhã, o MST recorreu a parlamentares do PT e à Comissão Pastoral da Terra (CPT) para reabrir o diálogo com o governo. A comissão, liderada pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), foi barrada por seguranças no elevador do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e não foi recebida por Jungmann. Os parlamentares foram recebidos pelo chefe de gabinete de Jungman, Fernando Abreu.
Nota
Em nota à imprensa, Jungmann informa que em nenhum momento os parlamentares e lideranças do MST que estiveram no ministério solicitaram audiência. No texto ele condiciona o pedido de audiência à completa e integral desocupação das superintendências do Incra e da interrupção da chantagem representada pela presença de um grupo de militantes do MST nas proximidades da fazenda Córrego da Ponte, em Buritis.
Jugmann afirma que sempre esteve aberto ao diáologo com todos os movimentos, mas avisa: não aceita negociar pressionado por chantagem, com reféns ou invasão de prédios públicos. A nota diz ainda que, na eventual retomada do diálogo com o MST, o governo não abrirá mão da rigorosa punição daqueles que lideram as invasões.
CNBB
O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno, informou que a entidade até agora não foi procurada pelo MST para intermediar o diálogo com o governo. O bispo garante, entretanto, que a CNBB poderá atuar como mediadora, se for chamada. Em maio, a entidade negociou um acordo entre MST e governo.
Vigília
A trégua do MST ao governo pode não durar muito tempo. Gilberto Portes alerta que o movimento pode retomar as ocupações de prédios e invasão de terras, caso não ocorra negociação. Segundo ele, o MST poderá radicalizar em todo o País. Ele avisa que o MST não recuará da vígila nos prédios e na fazenda de propriedade de familiares do presidente Fernando Henrique Cardoso. "A invasão ou não da fazenda vai depender das negociações com o governo", disse o dirigente.
Para Jungmann, a estratégia do MST de invadir prédios públicos vem tirando credibilidade e isolando o movimento, "porque a sociedade repudia, a oposição desaprova e até mesmo a Igreja tem consciência de que os compromissos que foram assumidos na última negociação estão caminhando". Jungmann admitiu que existem algumas dificuldades na liberação dos recursos mas diz que o governo tem se esforçado para que ela seja o mais rapidamente possível.
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