Atualizado às 03h43
O governador de Minas, Itamar Franco, deu prazo de 12 horas para que as tropas federais saiam das imediações da Fazenda Córrego da Ponte, da família do presidente Fernando Henrique Cardoso. Do contrário, diz, tomará “as medidas cabíveis”. Na mensagem enviada à Presidência, Itamar diz que “qualquer confronto ou morte que ocorrer em Buritis será de inteira responsabilidade do presidente”. A reação do Planalto não demorou. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Alberto Cardoso, diz que as tropas só saem do local se Itamar garantir que a PM mineira defenderá a fazenda de uma possível invasão. O prazo expira na manhã de hoje. O general Cardoso justificou o envio de tropas federais para Buritis dizendo que “a fazenda vem se transformando em símbolo da autoridade do presidente”. De acordo com ele, as tropas permanecerão na fazenda enquanto for necessário. “Existe risco de confronto, mas a tropa que está lá é bem comandada e possui muito equilíbrio”, disse.
O Planalto bem que tentou evitar uma nova polêmica com o governador mineiro, por meio de troca de mensagens em que pedia a adoção de medidas preventivas. Mas, enquanto o gabinete de segurança da Presidência avisava que seriam enviadas tropas para a área, a PM de Minas assegurava que policiais estavam de prontidão nos municípios de Unaí, Patos de Minas e Buritis, prontos para atuar em caso de invasão. O Serviço de Inteligência da PM, porém, garantia que não havia indícios de que o MST iria invadir de fato a propriedade. Em nota oficial, o general Cardoso afirmou que “a demora nas tratativas” com o governo mineiro e o deslocamento de integrantes do MST para o local levaram o governo a agir.
Itamar não perdeu nem tempo nem a oportunidade para nova queda-de-braço com o governo federal. Quando soube do envio de tropas das Forças Armadas à região, determinou que a PM se afastasse da área e permanecesse aquartelada em municípios próximos. Mais tarde, disse que o presidente “não respeitou a lei nem a Constituição” e, portanto, as tais medidas cabíveis que pretende tomar podem “fugir ao estado de direito”.
O envio das Forças Armadas foi comunicado ao governo do Estado às 22 horas de segunda-feira. Itamar decidiu encaminhar carta ao gabinete da Presidência, dizendo que a ação dos militares “agride a moralidade pública, já que vários prédios da União foram invadidos, sem merecer a devida proteção”.
Em agosto, quando a mesma situação deu margem a outra crise entre o governo federal e o de Minas, Itamar alegou não ter sido informado do deslocamento de tropas federais. O governador recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) exigindo explicações do presidente da República e alguns ministros. O pedido foi respondido pelo general Cardoso.
No fim de agosto, a subprocuradora-geral da República, Yedda de Lourdes Pereira, entrou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) com denúncia contra o governador, a pedido do general. A ação foi acompanhada de fita de vídeo, na qual Itamar diz que o general “agiu com má-fé”, “faltou com a verdade” e é um “mentiroso”. Yedda diz que Itamar atingiu o general em “sua honra objetiva, uma vez que a ofensa denegriu uma autoridade no exercício de função pública”. A ação está com o ministro Fontes de Alencar, que ainda não levou o caso a julgamento.
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