Santos, no litoral paulista, um dos primeiros locais colonizados do Brasil, tem 479 anos. Os museus que contam sua história estão concentrados em áreas centrais, na região que se relaciona diretamente com a praia. Mas existe a Santos dos morros, onde está o Jardim São Manoel, que organiza o primeiro museu de favela da cidade e da Baixada Santista.
A cidade de Santos, no litoral paulista, tem ao menos 13 museus, como o do Surf, do Mar, do Porto, da Pesca, do Café, Museu Pelé, entre outros. Mas no Jardim São Manoel está surgindo o primeiro museu de favela da cidade e da Baixada Santista, que ocupará sete espaços.
Seu nome está sendo discutido pela comunidade, mas é certo que ocupará duas associações comunitárias, a Horta Bons Frutos, a chamada Travessia da Barca, duas praças e uma garagem. O museu deve ser inaugurado no segundo semestre e alguns espaços estão prontos, enquanto outros são revitalizados em mutirões.
“O museu é para ter a história do bairro em nossas mãos, e para as pessoas não confundirem mais: o São Manoel é de Santos, não é de Cubatão, nem de São Vicente”, diz Hugo Freitas, 14 anos. Neto de uma das primeiras moradoras, o jovem participa da Horta Bons Frutos, que será parte do museu.
“O Jardim São Manoel é uma das regiões que mais se sente afastada do resto da cidade”, diz a socióloga Vitória Santos Oliveira, do Instituto Elos, envolvido na revitalização de espaços do Jardim São Manoel, incluindo as do futuro museu.
O que as moradoras querem ver no museu?
“O museu é para resgatar coisas que já aconteceram, estão acontecendo e vão acontecer. As pessoas vão entender que alguém plantou tudo isso”, diz Regiane Cipriano, 56 anos, artesã, cria da comunidade, que teve a ideia do museu.
Ela nunca expos seus trabalhos e atua, também, na Horta Bons Frutos. “A minha ideia é fazer um mural pra colocar tudo aquilo que tem no bairro, um quadrado bem grande com todos os itens destacados, laranja, amarelo, vermelho, pra pessoa ver que o vermelho é a farmácia”.
Lucidalva Ferreira, 56 anos, faxineira, gostaria “muito” de colocar sua foto, da filha e dos netos no museu. Ela chegou à Baixada Santista em 1989, vinda de Pernambuco. “A gente vai lutar com garras e dentes para concluir esse museu aqui dentro e todo mundo ver que o São Manuel é uma história”.
Vilma Lúcia Barros, 69 anos, quer incluir a história dos caranguejos. “Meus filhos eram pequenos e, quando dava trovão, eles iam e catavam sacos de caranguejo”. Moradora do Jardim São Manoel há 44 anos, ela também gostaria de ver o museu retratando “dificuldades com saúde, segurança, acho que não pode deixar de ser contada, né?”.
São Manoel é maior do que os dados oficiais
Para entender periferias como o Jardim São Manoel, não basta recorrer aos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o Censo de 2022, seriam 1.327 moradores, divididos em duas áreas.
Mas, para quem vive no Jardim São Manoel, ele é dividido em três partes: “Caminho”, onde há mais gente e muitas palafitas; rua João Carlos, com casas de madeira, alvenaria e poucas palafitas; e a parte urbanizada, que os moradores chamam de “Bairro”.
Somando os dados do Censo referentes ao Caminho e rua João Carlos, o número de moradores salta para 3.253. “É um pouquinho maior quando conta o Bairro, vai para 5.300 pessoas. Mas, internamente, a gente sabe que o número é bem maior, principalmente depois do Censo”, diz a socióloga do Instituto Elos.
O motivo recente do aumento de moradores é a seleção do Jardim São Manoel para o programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades, que prevê regularização fundiária e obras de urbanização, saneamento e infraestrutura.
Serviço:
Próximas ações do projeto Diálogos Construtivos
26 de abril, das 9h às 17h
Oficina de Leitura e Compreensão do Projeto de Arquitetura e Urbanismo
Maio e junho
04 mutirões comunitários
Oficina de Autogestão Comunitária
Julho
Evento de encerramento, com apresentação dos resultados