Viajar sem companhia deixou de ser apenas uma alternativa para quem não encontra alguém disponível para dividir as férias. Para muitas brasileiras, a experiência se tornou uma escolha pessoal, motivada pelo desejo de conhecer novos lugares, conquistar independência e aproveitar o próprio tempo.
Um levantamento do Ministério do Turismo mostra que quatro em cada dez mulheres brasileiras já fizeram uma viagem sozinhas. Os dados revelam também que a decisão está relacionada a interesses que vão além do turismo tradicional.
Realizada entre agosto e setembro de 2025, a pesquisa ouviu 2.712 mulheres de diferentes regiões do país. Entre as participantes, 72,6% apontaram a busca por lazer como uma das principais motivações para viajar desacompanhadas.
O desejo de independência e liberdade apareceu em 65,1% das respostas, enquanto 41,4% mencionaram o autoconhecimento.
Os números ajudam a explicar por que cada vez mais mulheres consideram a possibilidade de organizar uma viagem sem depender da agenda ou das preferências de outras pessoas.
Liberdade para escolher o próprio roteiro
Uma das principais vantagens de viajar sozinha é poder decidir como aproveitar cada dia.
Sem a necessidade de conciliar interesses, a viajante pode escolher os passeios, alterar os horários e dedicar mais tempo às atividades de que realmente gosta.
Foi essa liberdade que chamou a atenção da publicitária Tamires Moreira, de 26 anos, ouvida pelo Metrópoles.
Ela contou que sua primeira viagem sozinha aconteceu em janeiro de 2026, quando visitou Vitória, no Espírito Santo.
A experiência teve um significado especial. Após perder a mãe no fim de 2024, Tamires encontrou nas viagens uma maneira de atravessar o luto e descobrir novas possibilidades para a própria vida.
Posteriormente, também visitou o Rio de Janeiro e Arraial do Cabo, onde aproveitou a oportunidade para conhecer pessoas e explorar os destinos no próprio ritmo.
A publicitária relatou ainda que viajar sozinha contribuiu para que passasse a frequentar shows, bares e restaurantes sem depender de companhia.
Viagens também podem marcar novos começos
A psicóloga Aline Rocha, de 25 anos, também encontrou nas viagens individuais uma oportunidade de crescimento pessoal.
Sua primeira experiência aconteceu em 2022, quando decidiu realizar o sonho de conhecer a Austrália.
Desde então, passou por outros destinos internacionais, como Portugal, Espanha, Inglaterra e Irlanda, além de explorar diferentes regiões do litoral brasileiro.
Em entrevista ao Metrópoles, Aline contou que viajar sem companhia mudou sua percepção sobre independência e responsabilidade.
Estar em um ambiente desconhecido exigiu atenção a questões financeiras, segurança e organização, mas também proporcionou experiências que dificilmente teria vivido da mesma maneira.
A psicóloga destacou ainda a possibilidade de conhecer outros viajantes durante as hospedagens em hostels, estabelecimentos que costumam oferecer áreas compartilhadas e oportunidades de interação.
Para ela, não é necessário planejar férias longas para aproveitar os benefícios da experiência. Viagens de poucos dias também podem proporcionar descobertas importantes.
O que as brasileiras procuram quando viajam sozinhas?
A pesquisa do Ministério do Turismo também identificou as atividades que mais despertam o interesse das participantes.
As experiências culturais, como visitas a museus e centros históricos, foram mencionadas por 68% das entrevistadas.
O ecoturismo apareceu em seguida, com 64%, enquanto atividades relacionadas ao bem-estar despertaram o interesse de 44,9%.
Eventos e festivais foram citados por 36,6%, e a gastronomia apareceu em 30,1% das respostas.
Os resultados mostram que não existe um único perfil de viajante solo. Enquanto algumas mulheres procuram descanso e contato com a natureza, outras preferem explorar a vida cultural das cidades ou participar de atividades em grupo.
Entre as participantes da pesquisa, 36% afirmaram viajar sozinhas exclusivamente pelo Brasil.
O Sudeste e o Nordeste aparecem entre as regiões mais visitadas, mencionadas por 73% e 66% das entrevistadas, respectivamente.
Mulheres entre 35 e 44 anos lideram o levantamento
Ao contrário da ideia de que viajar sozinha é uma experiência mais comum entre mulheres muito jovens, a pesquisa identificou uma participação expressiva de faixas etárias mais maduras.
As mulheres de 35 a 44 anos representam 34,6% das participantes, seguidas por aquelas de 45 a 54 anos, com 22,1%.
Já a faixa de 25 a 34 anos corresponde a 21,7%.
A maior parte das entrevistadas possui renda entre três e dez salários mínimos, e 67,7% não têm filhos.
Esses dados ajudam a compreender o perfil das mulheres que participaram do estudo, embora não representem necessariamente todas as brasileiras que viajam sozinhas.
Medo da violência ainda impede muitas viagens
Apesar do interesse crescente, a segurança continua sendo uma das maiores preocupações das mulheres que desejam viajar desacompanhadas.
Segundo o levantamento, seis em cada dez entrevistadas já desistiram de fazer uma viagem por medo da violência.
Além disso, mais de 60% relataram ter enfrentado alguma situação que provocou insegurança durante deslocamentos sem companhia.
Os receios não estão relacionados apenas à violência física. Furtos, golpes e fraudes contra turistas também aparecem entre as preocupações.
Por isso, pesquisar as condições do destino antes de comprar passagens ou reservar hospedagem é uma etapa importante do planejamento.
A localização do hotel, as opções de transporte, a iluminação das ruas e as avaliações recentes de outras viajantes podem ajudar na escolha.
Também é recomendável compartilhar o itinerário com alguém de confiança, manter cópias digitais dos documentos e reservar dinheiro para imprevistos.
Como se preparar para a primeira viagem sozinha?
Para quem deseja experimentar esse tipo de viagem, começar por um destino conhecido ou por uma cidade próxima pode ser uma alternativa.
A experiência permite entender como é organizar deslocamentos, escolher passeios e administrar o orçamento sem depender de outra pessoa.
Hostels e passeios guiados podem facilitar o contato com outros turistas, desde que a hospedagem e os serviços sejam escolhidos com atenção.
Outra recomendação é evitar roteiros excessivamente apertados. Reservar tempo para descansar e lidar com mudanças de planos pode tornar a experiência mais agradável.
No caso de viagens internacionais, é importante verificar as exigências de entrada, a documentação necessária e as condições de assistência médica.
O crescimento do interesse pelas viagens individuais mostra que, para muitas mulheres, conhecer um destino também pode representar uma oportunidade de experimentar a própria autonomia.
Entretanto, os dados sobre segurança deixam claro que essa liberdade ainda enfrenta obstáculos.
Viajar sozinha pode ser uma experiência enriquecedora, mas o planejamento e os cuidados com a segurança continuam sendo fundamentais para aproveitar o destino com tranquilidade.