Mulher viajante: livro traz relato esquecido do início do século passado

Livro de 1908 ganha edição atualizada sobre viagem pelos EUA e Europa [...]

13 abr 2026 - 17h50

Paris, "a capital do universo", encanta, domina e interessa, mas foi em Karlsbad, na atual República Checa, onde a brasileira Maria Clara da Cunha Santos se curou.

Lançado recentemente pela editora Janela Amarela, "América e Europa: impressões e viagens" traz o relato das experiências que essa gaúcha de Pelotas fez nos dois continentes, entre abril de 1904 e junho do ano seguinte.

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Janela Amarela/Divulgação
Janela Amarela/Divulgação
Foto: Viagem em Pauta

A autora, porém, vai além do registro turístico descompromissado de uma mulher branca de classe social favorecida. As 310 páginas de seu livro, publicado originalmente em 1908, trazem breves análises sobre temas como contrastes culturais, relações sociais e, sobretudo, as condições das mulheres daquela época.

Mais do que descrever a miséria de Barbados, "primeira terra estrangeira que a nossos olhos se apresentou", no Caribe, ou ver Saint-Pierre ainda fumegar pela erupção do vulcão Monte Pelée, dois anos antes, na Martinica, Maria Clara também se horroriza com o tratamento dado aos negros dos Estados Unidos e se surpreende com a (suposta) independência da mulher daquele país.

"Acostuma-se desde criança com a ideia de que o homem não é superior nem inferior a si, é igual na esfera de seus direitos e garantias", analisa a viajante.

Naquele patriarcal início de século XX, as viagens costumavam estar associadas ao universo masculino. Já para as mulheres, o caminho tendia a ser o casamento, quando muito, as viagens como acompanhantes de homens, fossem maridos ou familiares próximos.

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Assim, Maria Clara não estava sozinha e foi como acompanhante do marido José Américo dos Santos, engenheiro que viajava como representante do governo do Brasil, durante a Exposição Universal de St. Louis, em Missouri, nos Estados Unidos, onde o casal tomaria um vapor em direção a Nápoles, na Europa.

Difícil mesmo foi a incerteza da partida.

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Foto: Viagem em Pauta

Mulher viajante

"Durante algum tempo, antes desse dia, senti o coração apertado, cheio de apreensões, de temor e de saudades, mas no dia da partida parecia que minha alma estava revestida de coragem e que eu me sentia forte", registra ao iniciar sua primeira viagem fora do Brasil, receosa da "incerteza da volta" e do pavor de dormir o "derradeiro sono" em terras estrangeiras.

Até então, como ela mesma relata, sua única experiência do gênero havia sido uma viagem entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, aos nove anos de idade.

Em seu "livrinho de apontamentos", a brasileira registrou detalhes de suas passagens por Chicago, Pittsburgh e Washington, entre outros destinos nos Estados Unidos, e cidades europeias, como Nápoles, Roma, Milão, Vaticano e a decepcionante Veneza.

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"Quem quiser ver Veneza linda, adorável , repleta de poesia (…), contente-se em vê-la nas pinturas a óleo", disparou.

Sua viagem seria marcada também por curas.

Janela Amarela/Divulgação
Foto: Viagem em Pauta

Convalescente de uma doença que não chega a especificar e desaconselhada por médicos, Maria Clara deixou o país acreditando que a brisa do mar lhe seria favorável. "E felizmente não me enganei", comemora nas primeiras páginas de seu relato.

Já em terras europeias, encarou a sessão de 21 banhos de lama nas fontes termais de Karlsbad, recomendados pelo médico local Oscar Kraus. "No dia seguinte verifiquei que o médico não tinha exagerado, o banho de lama era uma coisa deliciosa e sobretudo de um perfume agradabilíssimo", registra a brasileira, já no final da viagem.

"É como dar voz a uma pessoa que já não está mais aqui para dar respostas. 'Escutar' o que ela tem para dizer nos faz pensar no que somos, no que nos transformamos e como continuamos iguais como sociedade", analisa Carol Engel, uma das fundadoras da Janela Amarela, editora carioca que tem ampliado seu catálogo de títulos com o resgate de escritoras brasileiras esquecidas, como Nísia Floresta, Júlia Lopes de Almeida e Chrysanthème.

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Aliás foi a partir das pesquisas nos arquivos de A Mensageira, revista literária dedicada às mulheres, no final do século XIX, que Engel descobriu Maria Clara, cujo relato de viagem tinha duas folhas faltantes.

"Fui na ABL [Academia Brasileira de Letras], que tinha o livro original, e completei [a atual edição] com duas folhas copiadas a mão. Valeu insistir", lembra a editora, em entrevista exclusiva para o Viagem em Pauta.

SAIBA MAIS

"América e Europa: impressões e viagens"

Maria Clara da Cunha Santos

A nova edição inclui também notas de rodapé, que contextualizam termos e expressões hoje em desuso, acessível a leitores contemporâneos pouco familiarizados com o vocabulário do início do século XX.

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