A testosterona é um dos principais hormônios do organismo masculino e está diretamente relacionada à libido, à manutenção da massa muscular, à disposição e a diversas outras funções. Por isso, é comum imaginar que níveis mais altos de testosterona também possam aumentar a fertilidade.
Na prática, porém, não é assim que funciona.
Quando a testosterona é utilizada de forma externa (por meio de injeções, géis ou outras apresentações) ela pode diminuir a produção de espermatozoides. Em alguns homens, essa redução pode ser bastante acentuada e chegar até à ausência de espermatozoides no sêmen, condição chamada azoospermia.
Esse efeito é especialmente importante entre homens jovens que utilizam testosterona ou outros hormônios com finalidade estética e que ainda pretendem ter filhos.
A testosterona aumenta a fertilidade? Essa é uma das principais confusões
Ter uma quantidade adequada de testosterona é importante para o funcionamento do organismo masculino, mas isso não significa que simplesmente aumentar seus níveis no sangue aumente também a fertilidade.
Para produzir espermatozoides, os testículos precisam receber estímulos hormonais vindos do cérebro. Dois hormônios têm papel fundamental nesse processo: o LH e o FSH.
O LH estimula os testículos a produzirem testosterona localmente, enquanto o FSH participa diretamente do processo de formação dos espermatozoides.
Portanto, a fertilidade masculina depende do funcionamento adequado de todo esse sistema hormonal, e não apenas do valor da testosterona encontrado em um exame de sangue.
É justamente aí que o uso de testosterona externa pode interferir.
Como a testosterona usada de fora do corpo afeta os espermatozoides
O organismo possui um mecanismo natural para controlar a produção dos hormônios.
Quando um homem começa a receber testosterona de fora do corpo, o cérebro percebe que já existe uma quantidade elevada do hormônio circulando e reduz a produção dos sinais responsáveis por estimular os testículos.
Com isso, os níveis de LH e FSH diminuem. Os testículos passam a receber menos estímulo e a produção de espermatozoides pode cair de maneira importante.
É por isso que um homem pode apresentar níveis elevados de testosterona no sangue e, ao mesmo tempo, ter uma produção muito baixa de espermatozoides.
Em alguns casos, o espermograma pode inclusive mostrar ausência completa de espermatozoides.
Por esse motivo, a reposição de testosterona não deve ser utilizada como tratamento para melhorar a fertilidade masculina. Quando existe desejo de ter filhos, a avaliação e a estratégia de tratamento precisam considerar a preservação da produção de espermatozoides.
Jovens precisam de atenção antes de usar testosterona por conta própria
Esse cuidado é particularmente importante entre adolescentes e adultos jovens.
O uso de testosterona e de outros hormônios para ganho de massa muscular, melhora estética ou desempenho físico se tornou relativamente comum. O problema é que muitos começam a utilizar essas substâncias sem conhecer seus possíveis efeitos sobre a fertilidade.
Aos 20 ou 25 anos, ter filhos pode não estar nos planos imediatos. Alguns anos depois, porém, esse desejo pode surgir.
Isso não significa que a testosterona seja um medicamento que deva ser evitado em qualquer situação. Existem homens com deficiência hormonal verdadeira que podem se beneficiar do tratamento quando ele é corretamente indicado.
A questão é que a decisão de iniciar testosterona precisa levar em consideração idade, sintomas, exames, diagnóstico e também os planos reprodutivos daquele paciente.
Para um homem que pretende ter filhos, existem situações em que outras estratégias de tratamento podem ser consideradas justamente para tentar preservar a função dos testículos e a produção de espermatozoides.
Quem usa testosterona pode recuperar a fertilidade?
Na maioria dos casos, a redução da produção de espermatozoides provocada pela testosterona externa pode ser reversível após a suspensão do hormônio.
Essa recuperação, entretanto, não acontece necessariamente de forma imediata.
O organismo precisa voltar a produzir os estímulos hormonais que estavam suprimidos, e os testículos precisam retomar progressivamente sua função. Esse processo pode levar meses e varia bastante de uma pessoa para outra.
O tempo de uso da testosterona, as doses utilizadas, a idade do paciente, o uso associado de outras substâncias e a condição hormonal anterior ao tratamento podem influenciar essa recuperação.
Em determinadas situações, pode ser necessário acompanhamento médico e tratamento específico para estimular novamente a função testicular.
Por isso, para o homem que utiliza testosterona e deseja ter filhos — agora ou no futuro — o ideal é discutir a questão da fertilidade antes de iniciar ou modificar qualquer tratamento.
Testosterona não é sinônimo de fertilidade. São aspectos relacionados à saúde masculina, mas controlados por mecanismos diferentes.
Quando existe indicação médica, a testosterona pode ter um papel importante no tratamento do homem. O fundamental é utilizá-la com diagnóstico adequado, acompanhamento e atenção aos objetivos de cada paciente, especialmente quando a paternidade faz parte dos planos.
Sobre o colunista: Dr. Pedro Bastos é urologista em Juiz de Fora e membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da American Urological Association (AUA). CRM-MG 48089 | RQE 31390. @drpedrobastosurologista
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