Ao escolher brinquedos, pais devem priorizar a observação do comportamento e dos interesses da criança em vez de focar apenas em modismos ou opções caras. Segundo especialistas, notar as brincadeiras preferidas e personagens favoritos revela a fase do desenvolvimento infantil e suas necessidades emocionais. O presente ideal equilibra a faixa etária com desafios adequados, valorizando itens versáteis que estimulam a imaginação, a criatividade e a autonomia do brincar sem gerar frustrações.
Escolher um brinquedo para uma criança nem sempre é uma tarefa simples. Diante de prateleiras cheias de personagens, jogos, bonecas, carrinhos e opções eletrônicas, é comum que os adultos acabem levando em consideração o que está na moda ou aquilo que parece mais completo. Mas, antes de decidir pelo presente, observar a própria criança pode oferecer pistas importantes sobre o que faz sentido para ela naquele momento.
O que ela costuma fazer quando tem liberdade para escolher? Prefere construir, desenhar, inventar histórias, cuidar de bonecos, correr ou explorar objetos? Para a psicóloga, neuropsicóloga e psicanalista Cristiane Belmonte, esses comportamentos ajudam a entender quais interesses estão mobilizando a criança.
"Observar os interesses da criança é mais simples do que parece; é só prestar atenção no que ela escolhe fazer quando tem liberdade para escolher. O que ela pega primeiro quando chega numa brinquedoteca, o que ela pede para repetir, o que prende a atenção dela por mais tempo sem precisar de estímulo externo", explica.
Segundo ela, uma criança que passa bastante tempo empilhando blocos, por exemplo, pode demonstrar interesse por construção, movimento e relação de causa e efeito. "Já aquela que cria histórias com bonecos e dá voz aos personagens pode estar mais envolvida com narrativa e faz de conta. Nesse sentido, o brinquedo escolhido não precisa ser necessariamente o mais sofisticado ou caro, mas aquele que conversa com os interesses da criança e amplia suas possibilidades de brincar", orienta.
Personagens também podem dar pistas
Desenhos, filmes, livros e personagens favoritos costumam ocupar um espaço importante no imaginário infantil. Quando uma criança pede repetidamente a mesma história, imita um personagem ou cria brincadeiras inspiradas em determinado universo, esses interesses podem ser considerados pelos pais na hora de escolher um presente.
"Os personagens e histórias que prendem a atenção da criança funcionam quase como uma porta de entrada para entender o mundo interno dela naquele momento", afirma Cristiane Belmonte. Segundo a especialista, uma criança interessada em super-heróis pode encontrar nesses personagens temas relacionados à força, coragem e superação, enquanto histórias de amizade e cuidado também podem aparecer nas brincadeiras de faz de conta.
A psicóloga Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa também destaca que os interesses não precisam ser vistos apenas como uma oportunidade de consumo. Para ela, personagens e histórias podem funcionar como caminhos para a imaginação, expressão de sentimentos e elaboração de experiências.
"Se ela gosta de determinada história, por exemplo, um brinquedo relacionado àquele universo pode prolongar a brincadeira e permitir que ela crie novas narrativas. Mas é importante não transformar todo interesse em consumo: às vezes, o que a criança mais precisa é de espaço para brincar com aquilo que já tem", explica.
A faixa etária continua sendo importante
Observar os interesses da criança não significa deixar de lado a indicação de idade dos brinquedos. A faixa etária é uma referência importante para segurança e para escolher produtos compatíveis com as habilidades que a criança está desenvolvendo.
Para Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa, o ideal é encontrar um equilíbrio entre o que desperta interesse e o desafio que a criança consegue enfrentar naquele momento. "O melhor presente não é necessariamente o mais sofisticado, mas aquele que conversa com o que a criança está vivendo e pode ampliar suas possibilidades de brincar", afirma.
A especialista explica ainda que um brinquedo muito difícil pode provocar frustração, enquanto uma opção simples demais pode não despertar curiosidade. "Por isso, além da indicação de idade, os adultos podem observar o desenvolvimento individual da criança", diz.
Brinquedos que permitem inventar
Nem todo brinquedo precisa ter uma única maneira de ser utilizado. Blocos de montar, massinha, materiais de desenho, fantasias e objetos de faz de conta, por exemplo, podem assumir diferentes funções conforme a imaginação da criança.
"Os brinquedos chamados de 'abertos' não entregam uma única maneira de brincar. Blocos, massinha, materiais de desenho, fantasias e objetos que podem assumir diferentes funções permitem que a criança seja autora da brincadeira", explica Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa.
O que observar depois que o presente chega
A escolha do presente também pode ser acompanhada pelo comportamento da criança depois que ela começa a brincar. O interesse não aparece apenas na reação inicial ao abrir a embalagem. "Um dos sinais mais importantes é a presença de envolvimento. A criança volta espontaneamente para aquele brinquedo? Cria novas maneiras de utilizá-lo? Conta histórias, faz perguntas, chama alguém para participar? Persiste quando encontra uma dificuldade?", questiona Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa.
Mercado acompanha diferentes fases da infância
A variedade de interesses entre as crianças também se reflete no mercado de brinquedos, que reúne produtos para diferentes idades, fases e momentos. Para Germano Brandino, diretor de Marketing da Novabrink, acompanhar essas mudanças é essencial no desenvolvimento de novos produtos.
"Cada criança se conecta com o brincar de uma forma diferente, e isso muda conforme a idade, as preferências e o momento que ela está vivendo. Por isso, buscamos desenvolver produtos que acompanhem essas descobertas, estimulem novas histórias e fortaleçam a relação entre crianças, famílias e personagens que fazem parte do universo delas", explica.
Na hora de escolher um presente, olhar para a criança pode ser mais importante do que seguir a tendência do momento. Os interesses mudam conforme ela cresce, e entender o que chama sua atenção naquele período ajuda a encontrar brinquedos que tenham mais a ver com sua rotina e com a forma como ela gosta de brincar.
Por Denise Bispo